No sul do Quénia, os dromedários estão a ser regularmente submetidos a testes PCR para detetar um vírus mortal semelhante ao SARS-CoV-2. O objetivo é detetar se os animais estão contaminados com o MERS-CoV, ou Síndrome Respiratória do Médio Oriente, um coronavírus que, acreditam, pode vir a causar a próxima pandemia global, avança a agência France-Presse.
Na reserva de Kapti, pertence ao International Livestock Research Institute (Ilri), coexistem animais selvagens e rebanhos de gado para investigação científica. Os 35 dromedários que ali vivem estão a ser submetidos ao desagradável teste nasal e sanguíneo.
O Ilri começou a estudar os dromedários do Quénia em 2013, um ano após o aparecimento de um vírus perturbador na Arábia Saudita: o MERS-CoV, acrónimo em inglês para coronavírus da Síndrome Respiratória do Médio Oriente.
Com a pandemia de covid-19, o mundo está a descobrir novos vírus transmitidos por animais – morcegos, pangolins, aves –, responsáveis por 60% das doenças infeciosas humanas, segundo a OMS.
No caso do MERS-CoV, diz a OMS, citada pela agência France-Presse, foi através do contato próximo com um dromedário que o vírus terá sido transmitido ao homem, provocando uma epidemia que fez várias centenas de vítimas em todo o mundo entre 2012 e 2015, principalmente na Arábia Saudita.
Nos seres humanos, este vírus causa sintomas semelhantes à covid-19 – febre, tosse, dificuldades respiratórias – enquanto no dromedário provoca apenas uma ligeira constipação.
46% dos dromedários testaram positivos
No Quénia existem atualmente cerca de 3 milhões de dromedários.
Nos laboratórios de Ilri em Nairobi, a bióloga Alice Kiyong’a recebe regularmente amostras retiradas de camelos de diferentes regiões do país para detetar a presença do MERS.
A investigação que liderou em 2014 revelou a existência de anticorpos para o MERS em 46% dos dromedários estudados, mas em apenas 5% dos humanos testados – ou seja, 6 positivos em 111 tratadores de camelos e trabalhadores em matadouros.
“O MERS que temos atualmente no Quénia não é tão facilmente transmitido aos humanos”, em comparação com o MERS da Arábia Saudita, que é mais contagioso, esclarece Alice Kiyong’a.
A preocupação agora é que novas variantes do MERS possam tornar-se mais contagiosas para os humanos.
“É exatamente como com a covid-19. Surgiram variantes, como por exemplo a B.1.1.7 em Inglaterra, e acontece o mesmo com o MERS. O vírus está sempre a mudar”, sublinha Eric Fèvre, especialista em doenças infeciosas na Ilri e na Universidade de Liverpool, no Reino Unido.
Em 2020, o Grupo de Especialistas em Biodiversidade da ONU (IPBES), de acordo com a agência France-Presse, alertou que as pandemias serão mais frequentes e mortais no futuro devido ao aumento do contacto entre a vida selvagem, o gado e os humanos, devido à destruição do meio ambiente.














