Promessas falsas, contratos forjados e morte rápida: o drama dos africanos enviados pela Rússia como ‘carne para canhão’ para a Ucrânia

De acordo com o veículo investigativo russo ‘The Insider’, citado pelo ’20 Minutos’, em meados de 2024 mais de 600 cidadãos africanos lutavam ao lado das forças russas. Uma investigação mais recente do grupo INPACT aponta para quase 1.500 recrutas africanos, dos quais mais de 300 terão morrido pouco tempo depois do alistamento

Francisco Laranjeira

Há quase três anos que a Rússia recruta jovens africanos para combater na guerra contra a Ucrânia, recorrendo a promessas de emprego que acabam por se transformar em contratos militares. Segundo o ’20 Minutos’, Moscovo tem contactado cidadãos economicamente vulneráveis, que acabam enviados para a linha da frente, muitas vezes sem plena consciência do que assinaram.

De acordo com o veículo investigativo russo ‘The Insider’, citado pelo ’20 Minutos’, em meados de 2024 mais de 600 cidadãos africanos lutavam ao lado das forças russas. Uma investigação mais recente do grupo INPACT aponta para quase 1.500 recrutas africanos, dos quais mais de 300 terão morrido pouco tempo depois do alistamento.



Testemunhos recolhidos pela Rádio França Internacional descrevem condições brutais no terreno. Um soldado camaronês afirmou que os africanos são colocados diretamente na linha da frente, enquanto tropas russas permanecem na retaguarda, denunciando ainda o impacto devastador de minas terrestres.

A estratégia integra um plano mais amplo do Kremlin. Em janeiro de 2024, Vladimir Putin assinou um decreto que permite a qualquer estrangeiro que aceite um contrato de um ano na chamada “operação militar especial” obter cidadania russa através de um processo acelerado. Segundo dados do Ministério do Interior russo, citados pelo 20 Minutos, 3.344 estrangeiros receberam cidadania russa entre o início e o final de 2024 após combaterem na Ucrânia.

O objetivo é compensar as elevadas baixas do exército russo. Estima-se que milhares de combatentes oriundos de cerca de 50 países tenham integrado ou integrem as forças russas. Entre os africanos, os recrutas provêm sobretudo de países com elevados níveis de desemprego e pobreza, como Egito, Camarões, Gana, Senegal, Nigéria, Togo, Somália, Uganda, Serra Leoa, Quénia e África do Sul.

Investigadores do projeto INPACT identificaram 1.417 homens africanos que assinaram contratos com o Ministério da Defesa russo entre janeiro de 2023 e setembro de 2025. Só nos primeiros nove meses de 2025, 647 africanos terão sido recrutados, mais do triplo do total registado em 2023.

Vários relatos apontam para esquemas de recrutamento enganosos. Um camaronês contou que foi contratado para tarefas de limpeza e cozinha, mas, ao chegar à Rússia, recebeu uma Kalashnikov e foi integrado numa unidade de combate. Denuncia ainda contratos falsificados e salários que nunca chegaram a ser pagos.

Casos semelhantes surgiram no Quénia, onde um atleta foi atraído com a promessa de competir em São Petersburgo e acabou num campo militar. Autoridades quenianas detiveram funcionários ligados à embaixada russa acusados de recrutamento ilegal. A Índia repatriou dezenas de cidadãos que denunciaram esquemas idênticos.

Kiev acusa há meses Moscovo de recorrer sistematicamente a combatentes estrangeiros para reforçar as suas fileiras. Segundo autoridades ucranianas, até final de 2025 pelo menos 1.436 cidadãos de 36 países africanos estariam a combater ao lado das forças russas, embora se acredite que o número real seja superior.

Além de africanos já citados, a Ucrânia afirma que a Rússia tem recrutado cidadãos da China, Nepal, Índia, Somália, Ruanda, Burundi e outros países. Em novembro passado, estimava-se que o maior contingente estrangeiro nas forças russas pudesse vir de Cuba, com números que poderiam chegar aos 20.000 combatentes.

A investigação revela assim uma dimensão menos visível da guerra: o recurso a jovens estrangeiros, frequentemente vulneráveis e aliciados com promessas de salário ou cidadania, para preencher as fileiras de um conflito que já se prolonga há vários anos.

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