Proibido sorrir na fotografia do passaporte? As normas globais que explicam porque a expressão tem de ser neutra

A proibição do sorriso nas fotografias de passaporte continua a causar surpresa entre viajantes, especialmente porque resulta numa imagem pouco lisonjeira e, muitas vezes, excessivamente séria.

Pedro Zagacho Gonçalves

A proibição do sorriso nas fotografias de passaporte continua a causar surpresa entre viajantes, especialmente porque resulta numa imagem pouco lisonjeadora e, muitas vezes, excessivamente séria. Mas as razões para esta exigência são tecnológicas e de segurança, e enquadram-se num conjunto de normas internacionais aplicadas pela esmagadora maioria dos países, incluindo Portugal. As explicações foram reunidas pelo Huffington Post, que detalha o impacto das tecnologias biométricas nas regras em vigor.

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Quando renovou o seu passaporte, a jornalista norte-americana Caroline Bologna recebeu uma instrução clara do funcionário da estação dos correios: nada de sorrisos. O resultado foi, segundo relatou, uma fotografia “sem alegria”, mas totalmente conforme as normas.

Apesar da perceção generalizada de que o sorriso está banido, o Departamento de Estado dos EUA não impõe uma proibição literal. Em vez disso, exige que a fotografia apresente “uma expressão facial neutra, com ambos os olhos abertos e a boca fechada”, com o rosto virado diretamente para a câmara. “Um requerente pode, na verdade, sorrir na fotografia do passaporte, desde que mantenha os olhos abertos e a boca fechada”, explicou um porta-voz ao Huffington Post.

O que significa, na prática, que apenas um leve “smize” (o sorriso com os olhos, à maneira de Tyra Banks) é aceitável. Dentes à mostra estão excluídos. De acordo com a perita em fotografia biométrica Karolina Turowska, da plataforma Passport-Photo.Online, “a principal razão para banir o sorriso é a introdução de software de reconhecimento facial nos aeroportos e outros postos de controlo”.

Algoritmos exigem rostos neutros e proporções inalteradas
Hoje, muitas fronteiras utilizam sistemas automáticos para verificar a correspondência entre o passageiro e a fotografia do passaporte. Enquanto os seres humanos conseguem reconhecer expressões variadas, as máquinas dependem de proporções fixas.

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“Os algoritmos não funcionam como nós”, afirmou Turowska. Para comparar um rosto tridimensional com uma fotografia bidimensional, “precisam de medir distâncias entre pupilas, orelhas, nariz, boca, largura dos olhos e outros pontos faciais”. O sorriso altera essas proporções, dificultando a identificação.

A especialista Katy Nastro, porta-voz do serviço de alertas de voos Going, reforça que a regra não é um veto absoluto, mas sim uma limitação: “Isto significa que não se pode sorrir como no primeiro dia de aulas, com os dentes à mostra”. Segundo explica, um sorriso largo dificulta a verificação da cor dos olhos e da forma geral do rosto, especialmente para sistemas biométricos que dependem de pontos faciais fixos.

Regra universal e também seguida por Portugal
A exigência de uma expressão neutra não é exclusiva dos Estados Unidos. “Evitar sorrir nas fotografias do passaporte é uma regra universal na maioria dos países”, afirmou Turowska. As diferenças surgem apenas na forma como cada jurisdição define essa expressão neutra. Em França, por exemplo, é proibido até levantar ligeiramente os cantos da boca.

A explicação é simples: a Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) estabelece normas globais para documentos de viagem, incluindo requisitos para fotografias de passaporte. O porta-voz do Departamento de Estado recorda que estas regras “estão em vigor há décadas” nos passaportes norte-americanos.

Portugal segue estas mesmas normas internacionais — a ICAO determina os requisitos técnicos que os Estados devem cumprir, e os serviços consulares portugueses adotam precisamente os mesmos critérios: rosto neutro, olhos abertos, boca fechada, ausência de sombras e sem sorrisos que alterem as proporções faciais.

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Antes não era assim: fotografias antigas mostram liberdade total
A senhorialidade das fotografias atuais contrasta com os primórdios do passaporte moderno. A editora Madison Blancaflor, do portal The Points Guy, recorda que, no início do século XX, praticamente não existiam regras: “Podemos encontrar exemplos históricos de pessoas a tocar instrumentos ou a usar chapéus extravagantes”. Com o aumento das exigências de segurança, os países foram apertando gradualmente as normas.

Em 2004, com o desenvolvimento acelerado do reconhecimento facial, os Estados Unidos — e outros países — atualizaram as regras para impor expressões neutras. “O rosto sempre foi o padrão para identificação biométrica”, lembrou Nastro, mas a limitação técnica dos computadores tornou a expressão neutra “o padrão de ouro”.

O que acontece se enviar uma fotografia a sorrir
A fotografia é uma das principais causas de atrasos no processamento de passaportes. “Mesmo o melhor dos sorrisos pode ser rejeitado”, disse Nastro. Caso a fotografia não cumpra as regras, a agência de passaportes pedirá uma nova imagem, atrasando todo o processo. Se o requerente não apresentar uma foto válida dentro do prazo, a candidatura pode ficar indefinidamente em suspensão ou ser mesmo rejeitada.

As regras também proíbem óculos — exceto por motivos médicos comprovados — e não permitem chapéus ou coberturas de cabeça que não integrem trajes religiosos usados continuamente em público, exigindo declaração assinada. “Não só o sorriso está proibido: os requerentes não podem apertar os lábios, franzir o sobrolho ou enrugar a testa”, acrescentou Turowska.

A especialista lembra ainda que estas regras são mais flexíveis no caso de crianças pequenas: desde que estejam viradas para a câmara, com os olhos abertos, um leve sorriso pode ser aceite se não afetar a identificação.

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