Produtos virados ao contrário nos supermercados? Trata-se de um movimento político

À primeira vista, pode parecer um erro de organização, mas trata-se de uma ação deliberada com um objetivo bem definido — e está a gerar debate nas redes sociais.

Pedro Gonçalves
Abril 5, 2025
10:00

Nos últimos dias, consumidores em várias cidades da Alemanha têm-se deparado com uma situação insólita nos supermercados: produtos dispostos de forma invertida nas prateleiras, com os rótulos voltados para baixo ou para trás. À primeira vista, pode parecer um erro de organização, mas trata-se de uma ação deliberada com um objetivo bem definido — e está a gerar debate nas redes sociais.

A situação foi inicialmente denunciada em fóruns online, como o Reddit, onde se multiplicam relatos de clientes perplexos com a disposição invulgar de produtos de origem norte-americana. Entre os exemplos mais recorrentes estão latas da marca Heinz ou embalagens de queijo creme Philadelphia, encontradas de cabeça para baixo nos expositores.



O fenómeno, segundo avança o portal grego Iefimerida, é parte de uma campanha informal que está a ganhar força sob o nome Buy from EU (Compra na União Europeia). A iniciativa procura incentivar os consumidores europeus a deixarem de adquirir produtos oriundos dos Estados Unidos, em protesto contra a política comercial e aduaneira agressiva que aquele país tem vindo a adotar sob a administração de Donald Trump, como são exemplo as tarifas anunciadas pelo presidente dos EUA esta quarta-feira..

“Na minha cidade perceberam a mensagem”
As imagens partilhadas nas redes sociais são geralmente acompanhadas por frases como “Na minha cidade perceberam”, sugerindo que esta forma silenciosa de protesto está a espalhar-se de forma orgânica entre cidadãos atentos e politicamente conscientes. Apesar de não envolver vandalismo nem destruição de propriedade, a inversão dos produtos visa literalmente “virar as costas” a artigos de origem norte-americana nas prateleiras dos supermercados europeus.

Este tipo de ativismo de consumo teve origem no Canadá, um dos primeiros países a sentir diretamente as consequências da escalada protecionista por parte dos Estados Unidos. Após a imposição de tarifas aduaneiras e outras medidas hostis, o governo canadiano reagiu retirando de circulação alguns produtos icónicos norte-americanos. Mas foi a própria população que levou o protesto mais longe, promovendo boicotes informais e apelando à preferência por bens produzidos internamente ou em países aliados.

“Os canadianos não querem transformar-se num estado satélite do vizinho do sul. Preferem manter a sua independência e continuar a usufruir, por exemplo, de um sistema de saúde pública universal”, refere uma das publicações citadas.

Entre a consciência política e o incómodo prático
Na Alemanha, onde o movimento Buy from EU está a ganhar nova força, o gesto tem provocado reações variadas. Alguns funcionários de supermercados admitem compreender o simbolismo da ação, mas queixam-se dos contratempos logísticos.

“O meu filho trabalha como funcionário numa loja da cidade. Percebe a importância do movimento, mas incomoda-o um pouco o facto de o supermercado insistir que ele volte a colocar tudo no sítio”, contou uma utilizadora alemã numa publicação online, revelando que a ação, apesar de pacífica, tem repercussões no dia a dia dos trabalhadores.

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