Primeiros protestos contra os preços elevados dos combustíveis já começaram. Segue-se Portugal?

Os primeiros protestos ligados ao aumento dos preços dos combustíveis já começaram a surgir em França, numa altura em que a crise no Médio Oriente continua a pressionar os mercados energéticos internacionais e a agravar os custos de produção em vários sectores da economia.

Pedro Zagacho Gonçalves

Os primeiros protestos ligados ao aumento dos preços dos combustíveis já começaram a surgir em França, numa altura em que a crise no Médio Oriente continua a pressionar os mercados energéticos internacionais e a agravar os custos de produção em vários sectores da economia. Agricultores franceses mobilizaram-se esta segunda-feira na região de Lyon para denunciar o impacto do aumento do preço do gasóleo agrícola, alertando que muitas explorações estão a aproximar-se do limite da sobrevivência financeira.

A manifestação foi convocada pelo sindicato agrícola Coordination Rurale, que acusa o Governo francês de responder de forma insuficiente à escalada dos custos energéticos. A organização afirma que “produzir é mais caro do que nunca e os preços não acompanham”, sublinhando que os agricultores enfrentam uma pressão crescente sobre os rendimentos.

Segundo as informações divulgadas pelas autoridades e pelos organizadores, cerca de 50 agricultores participaram na ação de protesto durante a manhã de segunda-feira. A mobilização começou junto à refinaria da TotalEnergies em Feyzin, nas proximidades de Lyon, onde cerca de 20 tratores bloquearam temporariamente um ponto de carregamento.

Depois do bloqueio inicial, os manifestantes seguiram em coluna pela autoestrada A7 em direção à prefeitura do departamento do Rhône, acompanhados pelas forças policiais.

Por volta das 10h00 locais, o cortejo já tinha alcançado a zona de La Mulatière e seguia em direção ao bairro de Confluence, em Lyon, provocando fortes perturbações no trânsito.

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A manifestação ocorreu apesar de uma ordem emitida no domingo pela prefeitura local, que proibia qualquer marcha, desfile ou concentração na área de Feyzin e do porto Édouard-Herriot durante esta segunda-feira de manhã.

As autoridades justificaram a decisão com preocupações relacionadas com a segurança industrial, devido à proximidade de infraestruturas estratégicas ligadas ao armazenamento e transporte de materiais inflamáveis e perigosos.

Segundo a prefeitura, a zona inclui “infraestruturas importantes da cadeia de distribuição de hidrocarbonetos”, o que aumentaria os riscos associados a concentrações ou bloqueios naquela área industrial.

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Apesar disso, os agricultores decidiram manter o protesto.

Agricultores denunciam explosão dos custos de produção
A Coordination Rurale afirma que a subida dos preços dos combustíveis agravou drasticamente os custos de produção agrícola, numa altura particularmente sensível para o sector, marcada pelos períodos de sementeira e colheita.

O sindicato exige um reforço urgente das medidas de apoio governamental e considera insuficientes os apoios já anunciados pelo executivo francês.

Num comunicado, a organização declarou que os agricultores enfrentam “custos de produção explosivos” e preços “insuportáveis” para o gasóleo agrícola e para o chamado GNR — gasóleo não rodoviário utilizado em máquinas agrícolas.

“Produzir é mais caro do que nunca e os preços não acompanham”, referiu o sindicato.

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Cédric Archer, copresidente da Coordination Rurale Haute-Loire, resumiu o sentimento de muitos produtores ao afirmar: “Não queremos morrer de boca aberta.”

“O preço do gasóleo quase duplicou”
Entre os agricultores presentes no protesto estava Mégane, produtora agrícola da localidade de Côtes-d’Arey, citada pela agência AFP. A agricultora afirmou que o preço do gasóleo agrícola “quase duplicou” desde o início da crise no Médio Oriente.

Segundo explicou, muitos produtores esperavam uma resposta mais robusta do Governo precisamente numa fase do ano em que o consumo de combustível aumenta significativamente devido ao uso intensivo de tractores e maquinaria agrícola.

“Pensávamos que o Governo nos apoiaria mais durante as épocas de colheita e sementeira, quando a utilização de gasóleo e a actividade dos tractores atingem o pico”, afirmou.

Governo anunciou medidas de emergência
Perante o agravamento da situação no sector agrícola, o Governo francês apresentou a 21 de Abril um pacote de emergência no valor de 20 milhões de euros destinado aos agricultores em dificuldades.

Entre as medidas anunciadas encontra-se o aumento temporário da devolução aplicada ao GNR para 15 cêntimos por litro durante o mês de Maio.

O plano inclui ainda o adiamento do pagamento de contribuições sociais e impostos, a criação de um empréstimo rápido para combustível destinado a pequenas e médias explorações agrícolas e a suspensão das taxas especiais sobre combustíveis para tractores durante o mês de Abril.

Sindicatos consideram apoios insuficientes
Apesar das medidas, os sindicatos agrícolas consideram que os apoios ficam muito aquém das necessidades reais do sector.

A FNSEA, principal organização agrícola francesa, exige uma ajuda de 30 cêntimos por litro de combustível agrícola, o dobro do valor actualmente previsto pelo Governo.

O presidente da FNSEA, Arnaud Rousseau, criticou duramente o plano governamental na semana passada, afirmando que “o mecanismo continua largamente inadequado”.

Segundo explicou, os preços do GNR aumentaram entre 60% e 80% para os agricultores franceses, enquanto as medidas anunciadas apenas beneficiarão uma minoria dos produtores.

Gasóleo agrícola já beneficia de fiscalidade reduzida
O gasóleo utilizado na agricultura já beneficia em França de um regime fiscal preferencial, que representa um custo anual próximo de mil milhões de euros para o Estado francês.

Ainda assim, os agricultores defendem que o agravamento excepcional dos preços energéticos provocado pelas tensões internacionais tornou insuficientes os mecanismos actualmente existentes.

O receio das organizações agrícolas é que a pressão financeira continue a aumentar nas próximas semanas, sobretudo se o conflito no Médio Oriente mantiver a instabilidade nos mercados petrolíferos internacionais.

Protestos podem alastrar a outros sectores (e outros países)
A mobilização em Lyon poderá representar apenas o início de uma nova vaga de protestos sociais ligados ao aumento dos preços dos combustíveis e dos custos energéticos.

O aumento dos preços do petróleo, impulsionado pelas tensões geopolíticas e pela instabilidade no fornecimento internacional, já está a afectar sectores como os transportes, a logística, a aviação e a agricultura.

Nos bastidores, cresce também a preocupação das autoridades francesas relativamente à possibilidade de os protestos se expandirem para outras regiões e sectores profissionais, caso os preços continuem elevados durante os próximos meses.

Para muitos agricultores, a questão deixou de ser apenas económica e passou a ser existencial.

“Sem uma resposta concreta, as explorações agrícolas deixam simplesmente de conseguir sobreviver”, alertou a Coordination Rurale.

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