Primeiros pacientes da terapia pioneira com células CAR-T “curados” de cancro no sangue

Dois dos primeiros pacientes humanos a serem tratados com uma terapia revolucionária que cria células imunológicas para atingir tipos específicos de cancro ainda possuem células anticancerígenas uma década depois, sem qualquer sinal de regresso da doença

Francisco Laranjeira

Dois dos primeiros pacientes humanos a serem tratados com uma terapia revolucionária que cria células imunológicas para atingir tipos específicos de cancro ainda possuem células anticancerígenas uma década depois, sem qualquer sinal de regresso da doença. A descoberta sugere que a terapia com células CAR-T constitui uma ‘cura’ para certos tipos de cancros no sangue, embora a adaptação para tratamentos de tumores sólidos esteja a mostrar-se mais desafiadora.

A terapia com CAR-T – recetor de antígeno quimérico – funciona através da engenharia genética das células T de um indivíduo para reconhecer e destruir células cancerígenas. As células T são um tipo de glóbulo branco que pode reconhecer e destruir células estranhas, incluindo as cancerígenas, mas como o cancro é muito bom em evitar a deteção imunológica, muitas vezes erram o alvo. As células CAR-T estão projetadas projetadas para torná-las melhores na deteção de células cancerígenas.

No Reino Unido, a terapia é aprovada para uso em crianças e adultos jovens com leucemia linfoblástica aguda de células B (LLA) e adultos com certos tipos de linfoma – ambos são cancros do sangue. Nos ensaios, a terapia CAR-T foi extraordinariamente bem-sucedida, colocando os pacientes que tinham meses de vida em remissão mas os efeitos a longo prazo não foram amplamente estudados.

Num estudo publicado na revista científica ‘Nature’, Carl June, da Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia, e a equipa de cientistas relataram como as células de dois dos primeiros pacientes estão a sair-se 10 anos depois: ambos sofriam de leucemia linfocítica crónica quando receberam terapia com CAR-T em 2010 e alcançaram remissão completa depois de meses de tratamento – o que significa que todos os sinais e sintomas de sua leucemia desapareceram. Permaneceram livres de cancro até hoje. Quando os investigadores examinaram o sangue dos pacientes, conseguiram identificar células CAR-T capazes de proliferar e matar células cancerígenas, bem como outras que ajudam a moldar as respostas imunes.

“Chamamos estas células de terapia viva mas foi uma grande surpresa para nós que elas ainda sejam capazes de matar células cancerígenas 10 anos após a infusão”, apontou June. “Não podemos dizer se todas as últimas células cancerígenas desapareceram dentro de três semanas [de tratamento], ou pode ser que continuem a surgir como toupeiras e depois sejam mortas. Mas sabemos que as células CAR-T estão em patrulha – persistem e são funcionais.”

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Martin Pule, diretor do programa de células CAR-T do UCL Cancer Institute, descreveu o artigo como um marco. “Há uma década, esta terapia era uma abordagem terapêutica explorada por um número muito pequeno de cientistas, uma abordagem marginal e improvável de funcionar”, explicou.

Já David Porter, da Universidade da Pensilvânia, que esteve envolvido na pesquisa, disse que a equipa não estava preparada para o sucesso da pesquisa. “Os médicos oncológicos não usam palavras como ‘cura’ de ânimo leve ou, francamente, com muita frequência. Mas agora temos pacientes que não recaíram e realmente acreditamos que podemos começar a usar a palavra ‘cura'”.

As células T de segunda geração, projetadas para reconhecer tumores sólidos e resistir ao microambiente, estão a ser testadas em ensaios clínicos, incluindo em pacientes com leucemia na UCL.

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