Corkbrick é um sistema de construção de blocos de cortiça que permite criar, por exemplo, uma cama mas que, com mais ou menos blocos, também pode ser um sofá ou um móvel. Uma ideia portuguesa de smart living que já convenceu executivos de topo da Google e da Lego a investir.
É provável que a maioria dos leitores já tenha brincado com Legos a determinada altura da sua vida, seja durante a infância ou, mais tarde, com os filhos. Agora imagine um sistema modular, semelhante ao da gigante dinamarquesa, mas aplicado ao mundo da arquitectura, design e mobiliário. A Corkbrick é uma startup portuguesa que desenvolveu um sistema de blocos de cortiça que permite criar e construir diferentes tipos de estruturas e peças de mobiliário sem o recurso a ferramentas ou parafusos.
O sistema é composto por sete blocos de cortiça (de origem nacional) que encaixam uns nos outros para formar a peça desejada, que pode ser desde uma parede, cama ou sofá até estruturas mais complexas, como palcos e stands para eventos. Cada bloco mede cerca de 20 cm e o preço de referência são 100 euros por metro quadrado. «A escolha da cortiça foi com o propósito de criar um produto sustentável, não só a nível ambiental (é um produto natural e renovável) mas também do consumidor, devido às suas propriedades físicas e mecânicas únicas que dão leveza, resistência, longevidade, isolamento térmico e sonoro», explica Miguel Reynolds Brandão, CEO e co- -fundador da Corkbrick Europe.
Seja para mobiliário doméstico, público, eventos ou instalações pop-up, as aplicações do sistema modular criado pela Corkbrick são inúmeras. «As soluções mais procuradas são sempre direccionadas ao dinamismo, como, por exemplo, espaços de co-working e co-living, mas também para aumentar os espaços domésticos ou públicos que exijam frequente mudança», afirma Miguel Reynolds Brandão. «O nosso principal alvo é o particular, mas temos sido agradavelmente surpreendidos pela crescente procura para espaços de eventos privados e públicos», acrescenta. A Universidade de Londres e a National Gallery, no Reino Unido, um hospital nos EUA, mas também feiras, hotéis e aeroportos estão entre os clientes que já utilizam os blocos de cortiça da empresa sediada em Cascais.
Tendo concluído com sucesso duas campanhas de equity crowdfunding na plataforma Seedrs, nas quais levantou mais de 400 mil euros, a Corkbrick Europe já recebeu investimento de cerca de 500 pessoas em todo o mundo, incluindo executivos de topo da Google, Lego e Cisco.
CONSTRUIR UM NEGÓCIO
A ideia de criar a Corkbrick Europe surge em 2012, numa viagem a Marrocos, quando Miguel Reynolds Brandão, empreendedor com largos anos de experiência, e a filha, Catarina Reynolds Brandão, que estava a iniciar o curso de Arquitectura, falavam sobre soluções de aproveitamentos de espaços domésticos.«A única regra era que não se poderia usar colas, pregos, parafusos… nada. Teria que ser tão simples como o Lego. Sempre adorei o Lego porque, desde que se tenha imaginação, tudo é possível de construir», recorda o CEO.
Pai e filha chegaram assim ao conceito de construção de blocos de cortiça, que viriam a transformar em negócio. «Depois de muitos desenhos e experiências, já envolvendo também o meu filho [Artur Reynolds Brandão], que terminava Engenharia Aeronáutica, surgiram os primeiros esboços das sete peças da Corkbrick», acrescenta. A Corkbrick seria fundada no final de 2014, mas a primeira unidade produtiva só foi instalada no final do ano passado, no Algarve – «ainda com capacidade de produção limitada». Em Junho passado, a empresa entregou as primeiras encomendas, com destino ao Japão e EUA.
Pelo meio, e para alavancar o crescimento sustentável da empresa, a Corkbrick Europe concluiu duas campanhas de venda de acções em equity crowdfunding na Seedrs. A última foi concluída em Maio passado e entrou em overfunding, tendo angariado mais de 270 mil euros (o objectivo era 250 mil). Este capital será agora investido numa segunda linha de produção, que permitirá multiplicar a capacidade produtiva em cerca 10 vezes, para 4000 blocos de cortiça por dia.
«Com a nova linha de produção esperamos atingir um volume de negócios de cerca de um milhão de euros nos primeiros 12 meses de produção», prevê Miguel Reynolds Brandão.
De momento, os blocos de cortiça estão à venda exclusivamente através do website da Corkbrick Europe. Segundo o CEO, para o próximo ano está prevista a abertura de um braço da empresa no Reino Unido, com produção local. De resto, «mais de 95% das vendas serão destinadas para a União Europeia. Este é o âmbito da actuação da Corkbrick Europe», afirma o responsável.
PLATAFORMA DE CO-CRIAÇÃO
Neste momento, a equipa da Corkbrick é composta por sete pessoas, distribuídas pelas áreas de estratégia, marketing e produção. A empresa conta ainda com um grupo de 37 conselheiros das váriasáreas da cadeia de valor em que está envolvida, que prestam apoio sempre que necessário.
Contudo, o objectivo da Corkbrick passa por abrir o capital da empresa a todos quantos nela queiram investir e ser, desta forma, uma “Fan Owned Company” (empresa detida pelos fãs).
Foi também esse o objectivo da realização de duas rondas de financiamento na Seedrs, que permitiram à empresa chegar a cerca de 500 investidores de mais de 30 países e tornar-se «a primeira empresa detida por fãs para construir estruturas e móveis dinâmicos sustentáveis. É um grande orgulho conseguir atrair o interesse de tantos investidores/ fãs que nos permitem sonhar alto e levar a Corkbrick a todas as casas no mundo», frisa Miguel Reynolds Brandão.
O conceito de partilha estende-se também a todos os criativos que queiram sugerir ideias de novas aplicações para o sistema da Corkbrick.
Através do site da companhia, é possível submeter propostas de mobiliário e outro tipo de estruturas baseadas nos blocos de cortiça. Se as ideias forem aprovadas pela companhia e colocadas à venda na loja online (com indicação da quantidade e tipo de blocos necessários para construir a peça, bem como o respectivo manual de montagem), o criador receberá royalties fixos (3,78%) sobre a venda de cada unidade.
O Corkbrick Challenge assume-se assim como uma plataforma de co-criação, direccionada a arquitectos, designers ou qualquer pessoa que saiba utilizar o software SketchUp. «O único limite de aplicações é a imaginação», garante Miguel Reynolds Brandão.






