Presidenciais: Governo antecipa convivência com Seguro e minimiza riscos de uma eleição de Ventura

Menos de 24 horas após a pesada derrota de Luís Marques Mendes nas presidenciais, o Governo e a direção social-democrata optaram por desdramatizar o resultado e virar rapidamente a página.

Executive Digest

Menos de 24 horas após a pesada derrota de Luís Marques Mendes nas presidenciais, o Governo e a direção social-democrata optaram por desdramatizar o resultado e virar rapidamente a página. No núcleo próximo de Luís Montenegro, a leitura dominante é a de que a perda era inevitável e que o foco deve agora estar na gestão do novo ciclo político, partindo do princípio de que António José Seguro será um Presidente da República cooperante. A hipótese de uma vitória de André Ventura é considerada remota, ainda que reconhecida como um risco político relevante.

De acordo com uma análise publicada pelo Observador, a estratégia do Executivo passa por manter uma neutralidade formal até à tomada de posse do novo Chefe de Estado, a 9 de março, enquanto avalia os próximos passos do Governo e eventuais ajustamentos internos. Fontes governamentais relativizam o impacto da derrota, descrevendo-a como “um pico de febre”, ao mesmo tempo que afastam especulações sobre remodelações iminentes, sublinhando que qualquer decisão desse tipo depende exclusivamente do primeiro-ministro.

Entre os cenários em cima da mesa, os sociais-democratas consideram clara a preferência por uma coabitação com António José Seguro, em detrimento de um confronto institucional com André Ventura, que se apresenta como candidato a líder do espaço da direita. Ainda assim, no Governo entende-se que o socialista terá de dar sinais claros de abertura ao centro-direita, já durante a campanha, para garantir uma legitimidade política mais robusta. “António José Seguro tem de dar algum sinal de abertura ao centro-direita moderado. Uma votação na casa dos 50% não lhe basta”, afirma uma fonte do núcleo duro de Luís Montenegro.

A convicção no Executivo é a de que Seguro, caso eleito, procurará afirmar-se como um Presidente independente do Partido Socialista, atento à necessidade de manter elevadas taxas de aprovação tendo em vista uma eventual recandidatura em 2031. Um dirigente próximo do Governo considera que o socialista “vai querer mostrar independência face ao PS” e que procurará uma relação institucional estável com o Executivo, afastando pressões internas de setores mais à esquerda.

Apesar de durante a campanha Luís Montenegro ter ensaiado uma aproximação de Seguro à extrema-esquerda, essa leitura perdeu força após a primeira volta. Dentro da AD, é sublinhado que o antigo líder socialista é visto como um centrista, recordado por não ter feito oposição cerrada a Pedro Passos Coelho durante o período da troika. “Quem vê em António José Seguro o candidato do socialismo está muito enganado”, resume uma figura influente da coligação, acrescentando que a sua eleição “não é a pior consequência possível” do desfecho eleitoral.

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Bem mais complexa é a perspetiva de uma vitória de André Ventura. Embora alguns sociais-democratas minimizem os efeitos constitucionais de uma eventual eleição do líder do Chega, no Governo existe um receio concreto quanto à transferência de eleitores da AD para Ventura na segunda volta. Esse movimento poderia quebrar uma barreira psicológica decisiva, normalizando o voto no Chega entre eleitores moderados, o que é visto como o maior risco estratégico para a direita tradicional.

Perante este cenário, apesar da neutralidade oficial do PSD, multiplicam-se os apoios públicos a António José Seguro vindos do centro-direita. Figuras como José Eduardo Martins, Pedro Duarte, Carlos Carreiras, Mário Amorim Lopes ou José Miguel Júdice já anunciaram o voto no socialista, valorizando o seu perfil moderado e apartidário. O próprio Seguro reagiu com satisfação, apelando aos eleitores moderados para que encarem a segunda volta como um confronto entre “democratas e autoritários”, e não como um simples embate entre esquerda e direita.

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