Possibilitar a digitalização numa era de transformação: um imperativo para alcançar a neutralidade carbónica

No rescaldo da COP26, a necessidade de promover a sustentabilidade já não é discutível para as empresas – é imperativa e urgente. O foco está, agora, nas ações rápidas e decisivas para reduzir drasticamente as emissões de carbono e cumprir as metas de neutralidade carbónica (net zero). Efetivamente, o objetivo é progredir 3 a 5 vezes mais rápido para reduzir as emissões para metade até 2030, de forma a começar a desbravar caminho e alcançar a neutralidade carbónica até 2050.

 

A digitalização é positiva – quando coloca a interoperabilidade no seu cerne

Naturalmente, a sustentabilidade não é a única prioridade dos líderes governamentais e gestores de empresas. A transformação digital – impulsionada pelas exigências em constante mudança dos clientes e colaboradores, no durante e depois da pandemia – catapultou para o primeiro plano uma multiplicidade de novas tecnologias e ferramentas digitais. Prevê-se que em 2022 65% do PIB global seja digitalizado.

Assim sendo, esta transformação digital já não é um bónus útil e agradável, mas sim uma obrigação estratégica. Já não existe a hipótese de considerar isto ou aquilo. De acordo com a Deloitte, adotar uma mentalidade “digital com um propósito” é uma necessidade urgente para conseguir a transformação do mercado que colocará a sustentabilidade em primeiro plano. Sem tecnologias digitais, é difícil as empresas conhecerem e reduzirem a sua pegada de carbono ou fazerem a gestão dos seus resíduos. Assegurar, em paralelo, destreza no digital e práticas sustentáveis deve ser uma prioridade na tomada de decisões estratégicas das empresas.

No entanto, há muitas soluções digitais por onde escolher e nem todas são interoperáveis. A vontade de esperar para ter a certeza de que se está a apostar na tecnologia “certa” nesta corrida em direção à neutralidade carbónica pode criar um grande bloqueio, e até mesmo levar à paralisação dos processos de decisão. Nesse sentido, para apoiar mudanças significativas, as soluções e serviços digitais devem ser compatíveis entre si, fáceis de utilizar e capacitadas para uma implementação em escala.

 

O movimento net zero começa com a responsabilização

Atualmente ainda existem poucas diretrizes centralizadas sobre como as tecnologias digitais devem ser utilizadas para assegurar a sustentabilidade, e que padrões devem ser cumpridos. Embora mapear os bens e ativos e as emissões atuais de uma empresa possa não parecer a consideração digital mais interessante, a verdade é que se trata de um primeiro passo fundamental na jornada da neutralidade carbónica. Como destaca a GESI (Global e-Sustainability Initiative), a monitorização das emissões é essencial “para que o nosso impacto seja transparente e possamos fazer intervenções direcionadas”, o que deve incluir também todas as atividades digitais. Contudo, poucas empresas são capazes de esquematizar o impacto das suas operações na sustentabilidade global – mesmo quando as cadeias de abastecimento estão digitalizadas.

É fundamental que as organizações se comprometam com a elaboração regular de relatórios e a utilização de um enquadramento definido que permita comparar o progresso de sustentabilidade. Uma base para esta mudança positiva poderão ser algumas iniciativas já anunciadas na Europa – nomeadamente no Reino Unido – para definir novos padrões para relatórios ambientais, eliminar o greenwashing e apoiar a transição para um sistema mais verde.

Os benefícios que este sistema pode promover são claros. Em Portugal, por exemplo, é necessário avaliar a sustentabilidade desde que foi publicado o Decreto-Lei n.º 89/2017, que implementou a medição e os relatórios não-financeiros das empresas. A divulgação do impacto social, ambiental, de direitos humanos e de corrupção das organizações passou assim de voluntária a obrigatória – e é sabido que medir a sustentabilidade e o impacto social pode desencadear mudanças transformadoras e positivas.

Contudo, o registo e medição de ESG (responsabilidade ambiental, social e corporativa) deve ser robusto. Embora existam algumas diretrizes, como os requisitos da UE para a divulgação de práticas ESG ou o Relatório de Responsabilidade e Sustentabilidade Corporativa da Índia, talvez não vão ainda longe o suficiente – especialmente no que toca ao impacto que o nosso mundo, cada vez mais digital, e onde a produção e consumo de bens e serviços acontecem em formato físico e digital, poderá estar a ter noutras regiões do planeta.

 

A direção da jornada da descarbonização é clara

O mais importante é que está a haver progresso – tanto a nível dos países, como dos setores e empresas. Diversas grande organizações têm investido na promoção de padrões de sustentabilidade; e em Portugal, por exemplo, o Governo atua através da Comissão Nacional de Proteção de Dados.

Comum a todas as entidades é o foco na recolha e partilha de dados abertos relacionados com a monitorização e análise das emissões de carbono. Monitorizar a redução das emissões é a melhor maneira de verificar se a ação está a ser bem-sucedida.

As soluções digitais desempenham um papel fundamental na jornada da neutralidade carbónica, mas é também primordial contar com mais orientações sobre os padrões de tecnologia a utilizar e adotar para assegurar um futuro eficiente, verde e digital – isto é, para garantir que as soluções são interoperáveis, simples de utilizar, acessíveis e seguras.

Definir objetivos de descarbonização a longo prazo e adotar o mindset certo não chega. Precisamos de criar uma maior visibilidade e assegurar uma maior compreensão sobre as metas a curto prazo que vão contribuir para alcançar o net zero até 2050; e entender como as ferramentas digitais e as novas tecnologias podem apoiar-nos nesta ambição ousada. Só então poderemos aceder às verdadeiras vantagens que um futuro de emissões zero nos reserva.

 

Victor Moure

Country Manager Portugal

Schneider Electric

Ler Mais


Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.