Portugueses gastam mais de 600 mil euros por dia nas novas injeções para perder peso

Os novos medicamentos injetáveis usados no tratamento da obesidade estão a registar uma procura sem precedentes em Portugal, com os portugueses a gastarem, em média, cerca de 600 mil euros por dia nestes tratamentos.

Revista de Imprensa

Os novos medicamentos injetáveis usados no tratamento da obesidade estão a registar uma procura sem precedentes em Portugal, com os portugueses a gastarem, em média, cerca de 600 mil euros por dia nestes tratamentos. O fenómeno está a ser impulsionado pela crescente procura de fármacos como o Mounjaro e o Wegovy, cuja popularidade disparou devido aos resultados rápidos na perda de peso e à forte exposição nas redes sociais. Um dos casos é o de Rui, de 53 anos, que perdeu 13 quilos no primeiro mês de tratamento após iniciar acompanhamento em endocrinologia, depois de atingir os 113 quilos e de ter sido aconselhado repetidamente pelos médicos a emagrecer.

Segundo dados do Infarmed divulgados pelo jornal Público, entre o início do ano e 31 de Março, os portugueses gastaram 55,2 milhões de euros em apenas duas substâncias usadas no tratamento da obesidade, o equivalente a cerca de 613 mil euros por dia. No mesmo período, foram compradas em média 2355 embalagens diariamente. Cada embalagem corresponde a quatro administrações, sendo a injeção feita semanalmente. Os números representam um crescimento muito significativo face aos medicamentos anteriormente utilizados no combate ao excesso de peso.

Os medicamentos pertencem à classe dos chamados agonistas dos recetores GLP-1, uma nova geração de fármacos que ganhou forte expressão internacional. Apesar dos preços elevados e da ausência de comparticipação pelo Serviço Nacional de Saúde, a procura continua a aumentar. Em 2025, os portugueses gastaram mais de 130 milhões de euros nestes tratamentos, adquirindo mais de meio milhão de embalagens. Só o Mounjaro, cuja substância ativa é a tirzepatida e que é produzido pela farmacêutica norte-americana Eli Lilly, representou mais de 117 milhões de euros em vendas no ano passado, após ter chegado ao mercado português em Novembro de 2024. Já o Wegovy, baseado em semaglutido, entrou no mercado nacional em Abril de 2025 e registou vendas de 78.035 unidades nesse ano.

Os preços variam consoante a dosagem, oscilando entre 182,92 euros e 337,63 euros por mês no caso da tirzepatida, enquanto o Wegovy custa cerca de 244,80 euros mensais. O endocrinologista José Silva Nunes, presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade e responsável pelo serviço de endocrinologia, diabetes e metabolismo da ULS São José, em Lisboa, considera que o crescimento das vendas reflete “uma grande procura por parte dos doentes” e também uma maior confiança médica neste tipo de tratamento. O especialista sublinha ainda que estes medicamentos podem ser utilizados em diferentes contextos clínicos, incluindo antes de cirurgias bariátricas, para reduzir riscos operatórios, ou depois dessas intervenções, para otimizar resultados.

Entre os doentes que recorreram a estes tratamentos está Maria Silva, farmacêutica de 32 anos residente em Santiago do Cacém, que iniciou o processo de perda de peso antes de uma cirurgia bariátrica. Depois de atingir os 138 quilos e de vários anos marcados por dietas sem resultados duradouros, começou a utilizar um destes medicamentos em Novembro de 2025 e já reduziu o peso para 116 quilos. Maria admite que as injeções lhe retiraram bastante o apetite, obrigando-a a alterar hábitos alimentares e até rotinas familiares. A presença da filha pequena também serviu de motivação adicional, já que sentia dificuldades físicas para acompanhar a energia da criança. Até ao momento, calcula já ter gasto cerca de mil euros no tratamento.

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A eventual comparticipação destes medicamentos pelo SNS continua em aberto. José Silva Nunes defende que uma futura ajuda pública deverá privilegiar os casos de obesidade mais grave e os doentes que não sejam elegíveis para cirurgia bariátrica. O processo ficará dependente do novo Sistema Nacional de Avaliação de Tecnologias de Saúde, recentemente aprovado pelo Governo e ainda à espera de promulgação presidencial.

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