Portugueses antecipam subidas e correm às bombas. Setor garante reservas para três meses e apela à calma

Escalada da guerra no Médio Oriente já pressiona o mercado energético europeu. Empresas e associações garantem que não há risco de rutura em Portugal mas deixam um alerta

Francisco Laranjeira

A guerra no Médio Oriente já começou a provocar ondas de choque no mercado energético europeu. A subida das cotações internacionais do petróleo, impulsionada pela escalada do conflito com o Irão, está a pressionar os preços dos combustíveis e a gerar receios de escassez em alguns mercados.

Em Espanha, o aumento repentino da procura levou mesmo uma petrolífera a limitar temporariamente algumas encomendas de combustível a grandes clientes. O episódio levantou uma questão inevitável: poderá acontecer o mesmo em Portugal?

Contactadas pela ‘Executive Digest’, empresas e associações do setor admitem que o atual contexto internacional está a aumentar a pressão sobre o mercado, mas garantem que não existe risco de falta de combustível no país.

Corrida ao combustível em Espanha levanta dúvidas

O alerta surgiu depois de a petrolífera espanhola Repsol ter registado, no início da semana, um volume de encomendas acima do habitual, numa reação direta à tensão nos mercados energéticos provocada pela escalada militar no Médio Oriente.

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Segundo noticiou o ‘El Confidencial’, alguns clientes grossistas procuraram aumentar rapidamente as suas compras de combustíveis refinados, como gasolina e gasóleo, receando novos aumentos de preços.

Perante a pressão logística, a empresa decidiu limitar temporariamente determinadas encomendas, sobretudo as entregas no próprio dia, justificando a decisão com dificuldades operacionais para responder ao pico de procura.

A petrolífera garantiu, no entanto, que a medida não estava relacionada com qualquer escassez de produto, mas apenas com a necessidade de gerir um aumento excecional de pedidos.

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Também em Portugal se verificou um aumento pontual da procura.

“Na sequência dos acontecimentos recentes, temos observado um aumento pontual de pedidos, resultante de um acréscimo temporário da procura. A nossa operação logística tem respondido à situação e acompanha em permanência a evolução do mercado”, indicou fonte oficial da Repsol à ‘Executive Digest’.

Setor garante: não há risco de escassez

Apesar da volatilidade internacional, os operadores do setor asseguram que o sistema de abastecimento nacional está a funcionar com normalidade.

A Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis (ANAREC) considera natural que o atual contexto geopolítico esteja a levar algumas empresas a reforçar os seus níveis de stock por precaução.

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“Perante o atual contexto internacional e a volatilidade dos mercados energéticos, pode verificar-se um aumento do volume de procura por combustíveis, quer por parte de empresas quer de operadores que procuram reforçar os seus níveis de stock por precaução”, explicou José Rodrigues, vice-presidente da ANAREC.

Segundo o responsável, este tipo de comportamento é comum em momentos de maior incerteza nos mercados internacionais. Ainda assim, a associação sublinha que não existem sinais de escassez no país. “Não existe, nesta fase, qualquer indicação de escassez de produto em Portugal, estando o sistema de abastecimento a funcionar com normalidade e com capacidade para responder à procura do mercado”, garantiu José Rodrigues.

O dirigente acrescenta que o setor dispõe de mecanismos de segurança e de reservas estratégicas que contribuem para assegurar a estabilidade do abastecimento.

Uma posição semelhante é defendida pela Plenergy. Segundo Tiago Preguiça, country manager da Plenergy Portugal, não existem sinais de risco no mercado nacional.

“Apesar do complexo contexto internacional, não existem indicações de risco de escassez em Portugal. Mantemos cadeias de abastecimento diversificadas e contratos estáveis com operadores de referência, o que nos permite assegurar a continuidade do fornecimento nas nossas estações”, afirmou o responsável.

Subida do petróleo deverá refletir-se nas bombas

Embora afastem o risco de escassez, os operadores admitem que a evolução das cotações internacionais do petróleo poderá ter impacto nos preços finais.

O secretário-geral da EPCOL – associação que representa as empresas de combustíveis e lubrificantes em Portugal – já admitiu que a escalada das cotações do crude, da gasolina e do gasóleo poderá traduzir-se num aumento dos preços ao consumidor caso a tendência se mantenha.

Nos últimos dias, as cotações internacionais registaram um aumento significativo, acompanhando a instabilidade no Médio Oriente.

Perante esse cenário, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, admitiu que o Governo poderá avançar com um desconto extraordinário e temporário no Imposto sobre os Produtos Petrolíferos (ISP) caso os preços subam mais de 10 cêntimos por litro face aos valores atuais.

Essa medida poderá ajudar a mitigar parcialmente o impacto da subida das cotações internacionais, mas a associação considera que não será suficiente.

“A ANAREC considera que esta medida é manifestamente insuficiente para compensar a forte pressão que os aumentos do crude continuam a exercer sobre os preços dos combustíveis”, afirmou José Rodrigues.

A associação recorda ainda que a subida das cotações internacionais gera automaticamente um aumento da receita fiscal do Estado, tanto através do ISP como do IVA.

Nesse contexto, defende que o Governo deverá ir mais longe.

“A ANAREC entende que será necessário adotar uma redução mais estrutural e permanente do ISP, dentro dos limites permitidos pelas diretivas europeias, como forma de apoiar a economia e aliviar a pressão sobre consumidores e empresas”, acrescentou o responsável.

Se o conflito no Médio Oriente se prolongar, o impacto nos combustíveis poderá continuar a fazer-se sentir nas próximas semanas. O setor garante que o abastecimento em Portugal está assegurado, mas admite que a volatilidade do petróleo nos mercados internacionais continuará a ditar o comportamento dos preços nas bombas.

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