As intenções de contratação em Portugal mantêm-se estáveis, refletindo uma projeção positiva, mas moderada, de +19% na Criação Líquida de Emprego. Este valor representa uma diminuição de 1 ponto percentual em comparação com o trimestre anterior, mas um aumento significativo de 8 pontos face ao ano passado.
O ManpowerGroup Employment Outlook Survey para o segundo trimestre de 2025 revela que 33% das empresas planeiam aumentar as suas equipas, 14% preveem reduções e 50% pretendem manter o número atual de colaboradores, o que sugere um panorama de estabilidade moderada no mercado de trabalho.
Os setores da Indústria Pesada e Materiais, Transportes, Logística e Automóvel, e Tecnologias de Informação destacam-se pelas intenções de contratação mais otimistas. A Indústria Pesada e Materiais apresenta a projeção mais elevada, com +29%, enquanto os Transportes, Logística e Automóvel alcançam +28%, e as Tecnologias de Informação chegam aos +25%. Em contrapartida, o setor de Serviços de Comunicação não prevê a criação de empregos no próximo trimestre.
Uma tendência crescente nos motivos para contratação é a necessidade de renovação de competências, com 42% das empresas a apontarem este fator como fundamental, principalmente devido à transformação dos modelos de negócio e à digitalização. A expansão das empresas surge como o principal motivo para as contratações (38%).
Regionalmente, o Grande Porto lidera com a maior projeção de +26%, seguido pela Região Centro (+24%) e Grande Lisboa (+20%). As Grandes Empresas (até 1000 trabalhadores) são as que mais querem contratar, com uma previsão de +27%, embora com uma ligeira diminuição face ao trimestre anterior.
Rui Teixeira, Country Manager do ManpowerGroup Portugal, analisou em exclusivo à Executive Digest os resultados deste estudo, detalhando as previsões para a criação de emprego em Portugal no próximo trimestre.
Os dados mostram uma previsão de aumento das contratações no segundo trimestre. Quais os principais fatores que influenciam esta subida em relação ao período homólogo do ano anterior?
Efetivamente, neste trimestre observamos uma evolução positiva de 8 pontos percentuais na Projeção para a Criação Líquida de Emprego face ao mesmo período do ano passado. No entanto, quando comparamos com o primeiro trimestre deste ano, observamos uma redução de 1 ponto percentual, o que demonstra uma relativa estabilidade no sentimento dos empregadores. Essa mesma estabilidade era já observável no trimestre passado e no anterior, com uma evolução positiva entre trimestres de um 1 ponto percentual.
Este cenário traduz, assim, o sentimento de otimismo cauteloso que tem vindo a marcar as intenções de contratação, face a um cenário macroeconómico global instável, com eleições e mudanças de partidos no poder, a continuidade dos conflitos em diferentes regiões do mundo e ainda a ameaça das tarifas aduaneiras a limitar o comércio mundial. Ao mesmo tempo, os empregadores estão conscientes de que necessitam de assegurar o talento para concretizarem os seus planos de negócios, nomeadamente em termos de transformação digital, automatização e integração da Inteligência Artificial (IA).
De facto, a evolução observada face ao período homólogo do ano passado explica-se, maioritariamente, pela quebra acentuada na confiança dos empregadores que ocorreu nesse trimestre, quando o contexto económico e político era de elevada incerteza. No momento em que avaliávamos o sentimento dos empregadores enfrentávamos um abrandamento no crescimento do PIB, um cenário de eleições antecipadas em Portugal e um contexto macroeconómico global pouco animador – com as economias dos nossos principais parceiros económicos a estagnarem, eleições em muitas economias mundiais e os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente. Todos estes fatores geraram, nesse momento, um menor otimismo por parte dos empregadores nacionais.
Como é que os desafios económicos influenciam as previsões de contratação nas diferentes regiões e sectores?
Os atuais desafios económicos e o cenário de incerteza têm um impacto transversal nas diferentes regiões e setores de atividade. Contudo, existem, naturalmente, setores mais expostos que outros.
De acordo com as informações publicadas pelo Governo e pelo Banco de Portugal, o crescimento do PIB em 2025 será fortemente promovido pelo consumo interno e pelo investimento, mas existem riscos ao nível da procura externa e da evolução nas taxas de juro, em função do comportamento da inflação. Assim, vemos, por exemplo, que o setor de Bens e Serviços de Consumo é o que apresenta o maior crescimento entre trimestres (de mais 7 pontos percentuais), com a Projeção para a Criação Líquida de Emprego a situar-se nos + 21%.
O setor da Indústria Pesada e Materiais também apresenta um comportamento positivo, com a Projeção a situar-se nos +29%, com os subsetores de Indústria, Materiais, Construção e Agricultura a revelarem as intenções mais robustas, traduzindo esse efeito da confiança no consumo interno e investimento, apesar da incerteza ao nível das exportações. Também o setor tecnológico revela uma contínua necessidade de talento, para reforçar áreas como data, IA e cibersegurança. As empresas sentem a necessidade de contratar talento para suportar o seu crescimento e para aceder a competências atuais que suportem a sua competitividade num mercado tecnológico muito dinâmico.
Inversamente, vemos sentimentos mais conservadores por parte dos empregadores do setor de Energia e Utilities, com uma Projeção para a Criação Líquida de Emprego a situar-se nos +4%. O contexto de incerteza quanto à evolução dos conflitos globais, com impacto nos preços de petróleo, bem como relativamente à evolução nas prioridades de descarbonização e investimentos na transição para uma economia mais sustentável, exigem uma maior cautela por parte dos empregadores quanto ao reforço das suas equipas. Este mesmo sentimento de cautela é observado no setor Financeiro e Imobiliário, com a Projeção a situar-se nos +11%, e com 61% dos empregadores a declarar que tencionam manter as suas equipas atuais inalteradas, depois de um primeiro trimestre marcado por maior otimismo, fundamentalmente ligado ao setor imobiliário.
Por fim, também o setor de Serviços de Comunicação mostra uma maior exposição ao contexto económico, com o abrandamento a ser motivado sobretudo pelas áreas de media e entretenimento. Neste caso, a percentagem de empregadores que planeiam aumentar as suas equipas e que planeiam reduzir é idêntica, o que se reflete numa Projeção para a Criação Líquida de emprego de 0%.
A nível regional, temos o espelho desta realidade, com as regiões com uma maior concentração da indústria pesada e de bens de consumo, centros tecnológicos e atividades de serviços ao consumidor final a revelarem maior confiança nas suas Projeções, como é o caso do Porto, Lisboa e Região Centro.
A projeção de criação líquida de emprego em Portugal está abaixo da média global. Quais são as principais razões que justificam essa diferença?
Sendo um país pequeno e com uma economia altamente exposta ao exterior, Portugal, apesar da maior robustez da sua situação económica atual – com o crescimento do PIB a superar a média da União Europeia e de grandes economias, como a Alemanha e a França –, não está imune às consequências do abrandamento económico na UE nem à incerteza do comércio global. A imposição de tarifas por parte dos EUA e a consequente retaliação de outros países podem vir a traduzir-se numa desaceleração da nossa economia, levando as empresas a adotar uma postura mais cautelosa nas decisões de contratação.
A média global traduz realidades díspares, com a América do Norte a apresentar elevadas intenções de contratação, impulsionada sobretudo pelos Estados Unidos (+34%). A região EMEA mantém intenções modestamente positivas, mas sem grande evolução (+20%), e a região Ásia Pacifico (+30%) continua otimista, liderada sobretudo pela Índia e pela China. Já a região da América Central e do Sul (+23%) revelam maior cautela, apesar de alguns sinais de recuperação económica, num contexto marcado pela possível escalada de uma guerra comercial.
42% das empresas mencionam a renovação de competências como uma das motivações para contratação. Em que áreas específicas as empresas estão a sentir uma maior necessidade de formação e qualificação para os seus colaboradores?
Claramente as áreas tecnológicas são das mais impactadas. Os dados mostram-nos que 15% dos empregadores revelam que os avanços tecnológicos exigem novas competências, motivando a criação de emprego. De facto, a rápida integração da IA e do Data Analytics, a transição para a Cloud e a crescente adoção de medidas de cibersegurança estão a transformar o panorama das áreas de Tecnologias de Informação (TI). Funções como especialistas em IA e Machine Learning e Big Data Analysts estão entre as profissões que registam um crescimento mais rápido.
Mas o impacto da transformação digital não se faz sentir apenas nestas áreas. A automatização na Indústria e na Logística também está a exigir uma renovação de competências, sendo mencionada por 20% das empresas do setor da Indústria Pesada e de Materiais. Já no setor da Logística, Transportes e Automóvel, 18% das empresas referem a necessidade de contratar perfis com novas competências para manter a competitividade.
A transformação verde está também a acelerar a renovação das funções, com uma crescente necessidade de competências de sustentabilidade. Um dos setores onde esta realidade é mais sentida é, naturalmente, no setor da Energia e Utilities, onde 70% dos empregadores referem a necessidade de contratar competências atualizadas para manter a competitividade, e 20% indicam a evolução nas necessidades dos seus serviços como fundamento para a criação de novas funções.
A necessidade de recrutar novas competências para manter a competitividade (33%) e para responder à evolução nas necessidades de serviços (22%) também é destacada no setor Financeiro e Imobiliário, fortemente transformado pela desmaterialização dos modelos de negócio e o crescente impacto da IA generativa.
Finalmente, temos ainda o efeito da crescente adoção da IA generativa nas empresas, com impactos transversais em grande parte das funções do conhecimento. O sucesso desta tecnologia exige uma abordagem equilibrada entre inovação e formação, garantindo que as pessoas em toda a organização saibam trabalhar eficazmente com processos baseados em IA, maximizando os benefícios desta transformação.






