“Portugal vai começar a afirmar-se como uma nação espacial a nível global”, diz o CEO da empresa que vai colocar 4 satélites nacionais em órbita

Em entrevista à Executive Digest, Ivo Vieira, CEO da LusoSpace, explica o que significa este passo para a engenharia e indústria espacial nacional, e vislumbra o futuro do país neste setor.

André Manuel Mendes
Novembro 18, 2025
12:43

A LusoSpace, empresa portuguesa de engenharia espacial, prepara o lançamento dos quatro primeiros satélites da constelação Lusíada, a primeira constelação nacional de satélites, marcando um novo capítulo na história aeroespacial portuguesa.

Os satélites, batizados Camões, Pessoa, Saramago e Agustina — em homenagem a quatro grandes nomes da literatura nacional — representam a fusão entre a ciência e a cultura portuguesa e simbolizam a ambição de Portugal em afirmar-se como um país de vanguarda tecnológica.

Equipada com tecnologia avançada AIS (Automatic Identification System) e VDES (VHF Data Exchange System), a constelação Lusíada vai permitir melhorar significativamente as comunicações marítimas globais, reforçando a segurança, a vigilância e a eficiência das operações no mar. Entre as principais funcionalidades estão comunicações bidireccionais entre embarcações e autoridades marítimas, deteção de comportamentos suspeitos, apoio a missões de emergência e salvamento, e monitorização de pesca ilegal ou não regulamentada (IUU).

Em entrevista à Executive Digest, Ivo Vieira, CEO da LusoSpace, explica o que significa este passo para a engenharia e indústria espacial nacional, e vislumbra o futuro do país neste setor.

 

Como descreve o significado deste passo para a engenharia e a indústria espacial nacional?

Isso mostra que a indústria aeroespacial nacional está a crescer. Já não se trata de se efetuarem pequenas experiências mas sim de criar uma infraestrutura e explorá-la de forma intencional.

 

⁠Qual é o papel de Portugal neste ecossistema espacial global? Podemos falar já de uma “nova era espacial portuguesa”?

Sem dúvida. Desde a criação da Agência Espacial Portuguesa que tem havido cada vez mais empresas, mas sobretudo cada vez mais projetos globais a contarem com o cunho de empresas portuguesas.

 

⁠Quais os principais desafios técnicos e logísticos que a LusoSpace enfrentou no desenvolvimento desta missão?

Desenvolvemos uma nova antena inovadora em cooperação com o IT e INEGI. Tínhamos que fazê-lo em tempo record porque os lançamentos estavam marcados e não podíamos perder esta janela de oportunidade.

 

⁠A constelação LUSÍADA utiliza tecnologia AIS e VDES. Pode explicar, de forma simples, o que torna estas tecnologias tão relevantes para as comunicações marítimas globais?

O AIS (Automatic Identification System) é um sistema com mais de 20 anos que permite os navios partilharem a sua localização. O VDES é uma evolução que permite trocar mensagens entre navios, portos e usar satélites para continuar a comunicar em alto mar. Já existem outras soluções como Starlink, VSAT, Inmarsat, Iridium mas elas são muito caras e sofrem degradação quando há chuva intensa. O VDES permite resolver isso e criar um canal de comunicação seguro e robusto. Nesse sentido, vamos poder criar o “waze dos oceanos” o que será um verdadeira revolução na comunidade marítima.

 

Os satélites foram batizados com nomes de Camões, Pessoa, Saramago e Agustina. Porquê esta ligação entre ciência e cultura?

O primeiro satélite foi nomeado PoSAT-2 como tributo ao primeiro satélite português o PoSAT-1. Quisemos agora mostrar à comunidade que os satélites são feitos para as pessoas e não as pessoas para os satélites. A razão de termos escolhido poetas tem a ver com o espaço ser um símbolo de exploração além do que conhecemos. E estamos a celebrar 500 anos de Camões o poeta que mais simboliza a capacidade portuguesa de exploração e e inovação.

 

⁠Há planos para que os restantes oito satélites da constelação também tenham nomes ligados à cultura nacional?

Sim, serão também poetas. Mas ainda vamos deixar isto em segredo. Estamos cientes que não conseguimos ter espaço para todos os poetas portugueses. Mas havemos de expandir a constelação para mais satélites e com tempo poderemos ter 50 ou mesmo 100 poetas com o seu nome nas estrelas!

 

⁠Quais são os próximos passos após o lançamento dos primeiros quatro satélites?

Estamos a fechar contratos com empresas que querem comprar os nossos dados e o lançamento destes 4 satélites é essencial. Por outro lado, vamos poder fazer testes com a Marinha portuguesa e demonstrar um canal de comunicação seguro para a nossa defesa nacional.

 

⁠Como vê o futuro de Portugal no setor espacial nos próximos 10 anos?

Portugal está a fazer cada vez uma aposta neste sector. Temos visto cada vez mais cursos de engenharia aeroespacial e o apareceimento de novas empresas nesta área.

Neste momento estamos numa altura decisiva de decidirmos os investimentos que queremos realizar na Agência Espacial Europeia. Este governo tem demonstrado muita abertura nesse sentido e tem compreendido que podemos reter os melhores quadros em Portugal através desta indústria, sem falar do retorno económico e tecnológico que se tem verificado. O futuro é muito promissor e é tempo de Portugal sair da sua esfera tradicional e começar a afirmar-se como uma nação espacial a nível global.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.