Portugal treina para a guerra que deixou de ser distante: por dentro do maior exercício militar do Exército este ano

Até 29 de maio, o Exército Português realiza o ORION 26, o maior exercício militar deste ano, conduzido pelo Comando das Forças Terrestres. Envolve mais de 1.300 militares de cinco países — Portugal, Espanha, França, Itália e Roménia

Francisco Laranjeira

Durante anos, os grandes exercícios militares podiam parecer, para quem os via de fora, uma rotina interna das Forças Armadas: tropas no terreno, postos de comando, simulações, comunicações, veículos, sistemas de armas e, no final, uma demonstração com fogos reais.

Mas a guerra voltou à Europa. E isso mudou a forma como estes exercícios são lidos.

Até 29 de maio, o Exército Português realiza o ORION 26, o maior exercício militar deste ano, conduzido pelo Comando das Forças Terrestres. Envolve mais de 1.300 militares de cinco países — Portugal, Espanha, França, Itália e Roménia — e serve para testar prontidão, interoperabilidade e capacidade de resposta em cenários multinacionais.

A diferença está no contexto. O ORION 26 não treina apenas uma força para uma missão distante. Treina Portugal para dois campos de responsabilidade que hoje se cruzam cada vez mais: a União Europeia, através de operações de gestão de crises e forças de reação rápida; e a NATO, através da defesa coletiva num cenário de guerra convencional no flanco leste europeu.

Contactado pela ‘Executive Digest’, o Exército rejeita a ideia de que o ORION seja apenas mais um exercício de calendário. “O ORION nunca se caraterizou como sendo um exercício de rotina”, sublinha, lembrando que a série existe desde a década de 90 e sempre funcionou como “o maior exercício tático programado do Exército Português”, destinado a encerrar e validar o ciclo anual de treino das unidades.

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A diferença, agora, está no ambiente estratégico. Segundo o Exército, os cenários têm evoluído “por forma a se adaptarem, não só à realidade geoestratégica envolvente, como à evolução técnico-tática de procedimentos e dos equipamentos militares”. A guerra na Ucrânia, acrescenta, tornou mais visíveis os “desafios colocados à segurança europeia pelos acontecimentos no flanco leste da NATO”.

O treino deixou de parecer rotina

O ORION 26 combina treino real no terreno, através de um Field Training Exercise, com exercícios de posto de comando apoiados por meios computacionais, no formato Command Post Exercise/Computer Assisted Exercise.

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Traduzido: há forças no terreno a executar missões e há estados-maiores a planear e conduzir operações complexas em ambiente simulado, testando decisões, comunicações e coordenação entre forças.

A lógica não é apenas verificar se as unidades sabem executar procedimentos. É perceber se conseguem funcionar num ambiente aliado, sob pressão, em cenários exigentes e com diferentes tipos de ameaça.

Da gestão de crises à guerra convencional

É neste contexto que o ORION 26 treina dois cenários distintos. De um lado, uma operação de resposta a crises da União Europeia; do outro, uma operação de defesa coletiva no quadro do Artigo 5.º da NATO. “Ambos os cenários foram criados com vista a permitir às audiências de treino consolidar procedimentos, testar a capacidade de comando e controlo e preparar as forças nacionais para atuarem em conjunto com outras forças aliadas”, explica o Exército.

A diferença entre os dois cenários é prática. Na vertente da União Europeia, Portugal lidera o EUBG 25-2/26-1 numa operação de estabilização, num país fictício situado a 6.000 quilómetros de Bruxelas. Trata-se de um ambiente permissivo ou semi-permissivo, em que as regras de empenhamento preveem um uso da força gradual.

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Já no cenário da NATO, “o foco muda”, sublinha o Exército. A operação enquadrada no Artigo 5º corresponde a “Guerra Convencional num ambiente não permissivo”, com operações ofensivas, defensivas ou retrógradas, num cenário que se desenvolve no flanco leste europeu.

É nesta diferença que a peça ganha densidade: Portugal treina, em simultâneo, para gerir uma crise em nome da União Europeia e para responder, com aliados, a uma ameaça militar direta no quadro da NATO.

ENTREVISTA

Executive Digest: O ORION 26 treina, em simultâneo, uma operação de gestão de crises da União Europeia e uma operação de defesa coletiva ao abrigo do Artigo 5º da NATO. Que diferenças práticas existem entre estes dois cenários para as forças no terreno?

Exército: No caso do cenário da gestão de crises da União Europeia, Portugal tem a liderança do EUBG 25-2/26-1, refletindo-se numa Operação de Estabilização, num cenário de crise — destabilização política, desastre ambiental, ou outro — num país fictício situado a 6.000 km de Bruxelas.

Este exercício decorrerá num formato LIVEX, com forças no terreno, onde as forças irão desempenhar missões no âmbito de uma Operação de Resposta a Crise, num ambiente semi-permissivo, em coordenação com os outros instrumentos do poder do país em crise. As táticas, técnicas e procedimentos adotados pelas forças adaptam-se a esse ambiente operacional, sendo abrangentes e com regras de empenhamento em que o uso da força aumenta de forma gradual.

No caso do Cenário da Defesa Coletiva ao Abrigo do Artigo 5.º da Aliança Atlântica, o foco muda e trata-se de um cenário de Guerra Convencional num ambiente não permissivo, com o desenvolvimento de Operações Ofensivas, Defensivas ou Retrógradas. Este cenário, recente e realista, desenvolve-se no Flanco Leste Europeu e visa treinar a parte do Comando e do Estado-Maior, num exercício CPX/CAX, onde será feita a simulação de toda a operação.

Portugal no comando de uma força europeia

Portugal comanda o Battlegroup Europeu 25-2/26-1, uma força multinacional de reação rápida da União Europeia, centrada na componente terrestre, mas integrando também capacidades navais, aéreas e de operações especiais.

A força é composta por cerca de 2.200 militares de Portugal, França, Itália, Roménia e Espanha. O comando está a cargo de um oficial-general do Exército Português, o comandante da Brigada Mecanizada, sediada em Santa Margarida.

Este ponto é essencial: Portugal não está apenas a treinar com aliados. Está a liderar uma força europeia.

O Exército sublinha que, dos 27 Estados-membros da União Europeia, “apenas oito assumiram até agora a responsabilidade de Framework Nation” para edificar, preparar e manter em prontidão um Battlegroup europeu: Polónia, Alemanha, França, Portugal, Grécia, Espanha, Itália e Chéquia.

O contributo português, acrescenta, não se limita ao comando. O Battlegroup liderado por Portugal integra “uma capacidade de Operações Especiais portuguesa”, uma capacidade ISTAR portuguesa reforçada com contributo francês, cyberdefesa espanhola e CIMIC espanhola. Na leitura do Exército, o grande contributo de Portugal para a União Europeia está no facto de ser “um dos poucos” Estados-membros que assumiram a responsabilidade de gerar um EUBG e que contribuem recorrentemente para outros Battlegroup.

O Exército explica ainda que estes Battlegroup se inserem na arquitetura da Rapid Deployment Capacity da União Europeia, uma ferramenta militar da Política Comum de Segurança e Defesa. A sua área potencial de emprego pode abranger um raio de 6.000 quilómetros a partir de Bruxelas, incluindo Europa, Balcãs, Norte de África e Médio Oriente.

Pela sua localização geográfica, Portugal pode funcionar como base de integração de forças para projeção estratégica e como área preferencial de preparação e treino.

A NATO, a UE e o novo papel do Exército

O ORION 26 mostra uma realidade que nem sempre é visível no debate público: o Exército Português é hoje uma peça operacional da presença externa de Portugal. É através dele que o país cumpre compromissos militares com a NATO, reforça a presença no flanco leste europeu e assume responsabilidades na arquitetura de defesa da União Europeia.

O Exército recorda que Portugal participa atualmente no reforço do flanco leste da NATO com três Forças Nacionais Destacadas: uma na Eslováquia e duas na Roménia. No plano europeu, o país lidera o Battlegroup 25-2/26-1 e prepara novas forças para futuras rotações.

A prontidão, a interoperabilidade e a capacidade de atuar com aliados são, para o Exército, objetivos inseparáveis. “Nenhum destes objetivos pode ser considerado como o principal, pois não se atingem individualmente sem os restantes serem alcançados”, refere. O ORION é apresentado como uma oportunidade para “validar que temos um Exército pronto para servir, preparado para combater”.

Esta dupla dimensão dá ao ORION 26 uma leitura política e estratégica: o exercício não serve apenas para treinar militares. Serve para mostrar que Portugal tem de ser capaz de planear, comandar, projetar e sustentar forças num ambiente internacional mais instável.

O Exército surge, assim, como a força que transforma compromissos internacionais em capacidade militar concreta. Não no plano declarativo, mas no plano operacional: unidades, estados-maiores, sistemas, comunicações, treino, certificação e capacidade de atuar com aliados.

A Ucrânia tornou o campo de batalha mais transparente

Há outro elemento que distingue o ORION 26 de exercícios de décadas anteriores: a tecnologia.

A guerra na Ucrânia mostrou que o campo de batalha moderno é mais vigiado, mais rápido e mais letal. Drones, sensores, satélites, radares, guerra eletrónica e reconhecimento terrestre tornam mais fácil detetar movimentos, concentrações de forças, postos de comando e meios logísticos.

O Exército identifica esse ambiente como uma das razões para reforçar a integração das capacidades ISTAR — Intelligence, Surveillance, Target Acquisition and Reconnaissance. Estas capacidades permitem “recolher, processar, explorar e disseminar informação em tempo quase real”, aumentando a consciência situacional e reduzindo a incerteza no campo de batalha.

A lógica é simples: ver primeiro, decidir mais depressa e atuar com maior precisão. Segundo o Exército, a superioridade informacional permite ao comandante “identificar ameaças, priorizar objetivos e sincronizar fogos e manobra com maior eficácia”.

No ORION 26, a integração destas capacidades é um dos objetivos centrais. O Exército quer testar a forma como a informação circula entre sensores, unidades e comando, reduzindo o tempo entre a deteção de uma ameaça e a resposta no terreno.

ENTREVISTA

Executive Digest: A integração de capacidades ISTAR é apontada como um dos objetivos centrais do exercício. Que impacto tem esta componente na forma como as forças recolhem informação, tomam decisões e atuam no terreno?

Exército: A integração de capacidades ISTAR permite às forças militares recolher, processar, explorar e disseminar informação em tempo quase real, aumentando a consciência situacional do campo de batalha.

Do ponto de vista operacional, o ISTAR aumenta significativamente a capacidade de processamento, exploração e disseminação de informação. Os diversos sensores — UAV, radares, sensores eletro-óticos, guerra eletrónica, reconhecimento terrestre e fontes HUMINT — passam a operar de forma integrada e sincronizada, permitindo fundir e analisar dados provenientes de múltiplos domínios.

Ao nível da tomada de decisão, o ISTAR permite ao comandante dispor de informação operacional e tática mais atualizada, o que permite identificar ameaças, priorizar objetivos e sincronizar fogos e manobra com maior eficácia. Esta superioridade informacional traduz-se numa maior capacidade de decisão em ambientes complexos, reduzindo o tempo entre a deteção de um alvo e a atuação sobre o mesmo.

Em suma, o ISTAR constitui um multiplicador de combate, permitindo às forças militares uma superioridade informacional para operar com maior letalidade, rapidez e precisão, ao mesmo tempo que reduz riscos operacionais.

Ver primeiro, decidir mais depressa, atuar com precisão

No passado, a capacidade de combate dependia sobretudo de massa, fogo e manobra. Hoje, continua a depender disso, mas cada vez mais da informação. Quem deteta primeiro pode proteger-se mais cedo, deslocar forças com menor risco e atacar com maior precisão.

A guerra na Ucrânia mostrou que o tempo entre a recolha de informação e a decisão de ataque se encurtou drasticamente. Um movimento de tropas, uma coluna logística ou um posto de comando podem ser identificados por drones ou sensores e atacados pouco depois.

O Exército reconhece esse novo ambiente. Na resposta enviada à ‘Executive Digest’, sublinha que o emprego massivo de drones, meios de vigilância, satélites e outros sistemas de observação torna o campo de batalha mais “transparente” e mais perigoso para concentrações de forças.

É por isso que a integração de sensores, dados e decisão não é uma componente acessória do ORION 26. É um dos seus núcleos.

A companhia da Madeira que se prepara para a Europa

O exercício tem também uma dimensão concreta de certificação de forças nacionais.

No âmbito do ORION 26, será certificada a Companhia de Atiradores da Zona Militar da Madeira. A força, com 120 militares, ficará preparada para integrar o Battlegroup Europeu 26-2/27-1, um compromisso assumido por Portugal com a União Europeia na próxima rotação.

Este detalhe é importante porque mostra que o exercício não se limita a simular cenários genéricos. Há forças concretas a serem avaliadas, certificadas e preparadas para futuras missões internacionais.

O Exército explica que, além de validar o ciclo de treino operacional anual, algumas forças iniciarão depois do ORION o seu ciclo de aprontamento para assumirem Forças Nacionais Destacadas no último trimestre de 2026, no quadro dos compromissos internacionais de Portugal.

O teste final será com fogos reais

O ORION 26 termina a 29 de maio, na Brigada Mecanizada, em Santa Margarida, com um exercício tático com fogos reais.

Será a fase final de um processo que junta treino no terreno, simulação computacional, comando e controlo, interoperabilidade multinacional, certificação de forças e integração tecnológica.

Esta demonstração final vai empenhar os principais sistemas de armas das forças participantes e servirá para materializar a capacidade operacional treinada ao longo do exercício.

É o momento mais visível de uma preparação que, na prática, começou muito antes e continuará depois, no aprontamento de forças nacionais para compromissos internacionais.

No fim, o ORION 26 resume o novo tempo europeu: a guerra deixou de ser uma hipótese distante, a defesa voltou ao centro das prioridades e Portugal está a preparar-se para responder em dois tabuleiros — NATO e União Europeia — com forças prontas, interoperáveis e capazes de sair do papel para o terreno.

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