As horas de trabalho variam de forma significativa na Europa, com diferenças que podem chegar a quase oito horas por semana entre alguns países. Os dados mais recentes do Eurostat, citados pela Euronews, mostram que a média da União Europeia é de 35,9 horas semanais de trabalho efetivo, considerando trabalhadores a tempo inteiro e a tempo parcial, entre os 20 e os 64 anos, no emprego principal.
Portugal surge a meio da tabela, mas acima da média europeia, com 37,4 horas semanais. O valor é igual ao registado na Hungria e coloca o país acima de economias como Alemanha, França, Itália e Espanha, embora ainda distante dos países com as semanas de trabalho mais longas.
A comparação revela uma Europa laboral a várias velocidades. Nos países onde o trabalho a tempo parcial tem maior peso e a negociação coletiva é mais forte, a semana média tende a ser mais curta. Já em vários países dos Balcãs e em economias candidatas à União Europeia, os horários médios continuam a ser bastante mais longos.
Balcãs lideram as semanas de trabalho mais longas
Dentro da União Europeia, as horas semanais efetivas variam entre as 31,9 horas dos Países Baixos e as 39,6 horas da Grécia. Quando se incluem países candidatos à UE e membros da EFTA, a Turquia surge no topo da lista, com uma média de 42,4 horas por semana.
Seguem-se a Bósnia-Herzegovina, com 40,9 horas, e a Sérvia, com 40,6 horas. Estes são os únicos países analisados em que a média semanal ultrapassa as 40 horas, o equivalente a mais de oito horas por dia numa semana de cinco dias.
A Grécia, com 39,6 horas, a Macedónia do Norte, com 39,5 horas, e a Bulgária, com 38,7 horas, aparecem logo depois. Os países dos Balcãs dominam, assim, o grupo das semanas de trabalho mais longas, sendo que a Grécia e a Turquia são frequentemente associadas à região em sentido alargado.
David Spencer, professor da Universidade de Leeds, explicou à Euronews Business que, em nenhum país, os trabalhadores escolhem verdadeiramente as horas que trabalham. Segundo o especialista, trabalham antes um conjunto considerado normal de horas, influenciado pelos empregadores. A menor produtividade e a menor capacidade de influência dos trabalhadores podem ajudar a explicar os horários mais longos nestes países.
Portugal acima da média europeia
Portugal, com 37,4 horas semanais, fica acima da média da União Europeia, fixada nas 35,9 horas. O país surge ao mesmo nível da Hungria e próximo da Chéquia, que regista 37,5 horas.
Ainda assim, Portugal fica abaixo de países como Polónia, com 38,7 horas, Roménia, com 38,2 horas, Bulgária, com 38,7 horas, e Grécia, com 39,6 horas. A posição portuguesa mostra um mercado de trabalho onde a semana efetiva é mais longa do que a média comunitária, mas sem atingir os valores mais elevados da tabela europeia.
A comparação com as maiores economias da União Europeia também é relevante. Portugal trabalha, em média, mais horas por semana do que Alemanha, França, Itália e Espanha. A diferença é particularmente expressiva face à Alemanha, onde a semana média é de 33,9 horas.
Países Baixos têm a semana de trabalho mais curta
No extremo oposto, os Países Baixos destacam-se como o país europeu com a semana de trabalho média mais curta: 31,9 horas. O valor fica bastante abaixo da média da União Europeia e reflete, em grande parte, o peso elevado do trabalho a tempo parcial.
Jorge Cabrita, investigador sénior da Eurofound, sublinha que os trabalhadores a tempo parcial representam quase 43% do emprego total nos Países Baixos, uma proporção muito superior à registada em qualquer outro Estado-membro da União Europeia. O país tem também uma das semanas de trabalho acordadas coletivamente mais curtas do bloco.
David Spencer acrescenta que os Países Baixos passaram a ter mais trabalho a tempo parcial, o que ajudou a reduzir a média semanal. Ainda assim, lembra que a semana de trabalho dos trabalhadores a tempo inteiro continua mais próxima das 40 horas.
Alemanha, Noruega e Dinamarca surgem depois, todas com 33,9 horas semanais. Isto significa que os trabalhadores nos Países Baixos trabalham, em média, cerca de duas horas menos por semana do que os países imediatamente seguintes.
Abaixo das 35 horas semanais aparecem ainda a Áustria, com 34 horas, a Bélgica, com 34,3 horas, e a Finlândia, com 34,7 horas. Nestes sete países, a média diária fica abaixo das sete horas, considerando uma semana laboral de cinco dias.
Alemanha trabalha menos horas do que França, Itália e Espanha
Entre as quatro maiores economias da União Europeia, a Alemanha regista a semana de trabalho mais curta, com 33,9 horas. Os trabalhadores alemães fazem menos 1,7 horas por semana do que os franceses, cuja média é de 35,6 horas.
Espanha apresenta a semana mais longa entre estas quatro economias, com 36,3 horas, enquanto Itália fica também acima da média europeia, com 36,1 horas. A diferença entre a Alemanha e estes dois países ultrapassa as duas horas por semana.
Segundo David Spencer, a semana mais curta na Alemanha reflete em parte a força dos sindicatos e o efeito positivo da negociação coletiva. A influência das estruturas laborais e dos acordos coletivos é apontada como um dos fatores que ajudam a explicar as diferenças entre países.
Noutros mercados europeus, a média semanal situa-se nas 38,7 horas na Polónia, 38,2 horas na Roménia e 37,5 horas na Chéquia. Portugal e Hungria aparecem logo depois, ambos com 37,4 horas, acima da Suíça, com 35,9 horas, da Suécia, com 35,4 horas, e da Irlanda, com 35,1 horas.
Porque variam tanto as horas de trabalho?
De forma geral, os países do Norte e do Oeste da Europa tendem a apresentar semanas de trabalho mais curtas do que os países do Leste e do Centro da Europa. As diferenças resultam de vários fatores, incluindo regimes de definição do tempo de trabalho, estrutura do emprego e composição económica de cada país.
Jorge Cabrita aponta o papel dos sindicatos e da negociação coletiva como elementos importantes. Nos países onde estas estruturas têm maior influência na definição dos limites do tempo de trabalho, as horas efetivamente trabalhadas tendem a ser mais baixas.
O investigador acrescenta que uma negociação coletiva mais forte está também associada a menos horas extraordinárias e a maior cumprimento das regras laborais.
O peso do trabalho a tempo parcial é outro fator relevante. Quanto maior é a proporção de trabalhadores a tempo parcial, mais curta tende a ser a média semanal de trabalho. Por outro lado, os trabalhadores independentes costumam trabalhar mais horas do que os trabalhadores por conta de outrem, sobretudo quando empregam outras pessoas.
A estrutura económica também pesa. Setores diferentes exigem horários diferentes, o que influencia a média nacional de cada país. Economias com maior peso de atividades que exigem jornadas mais longas tendem a apresentar semanas de trabalho superiores.
Agricultura, gestão e forças armadas entre os setores com mais horas
As diferenças nas horas de trabalho também são visíveis por setor e profissão. Na União Europeia, os trabalhadores qualificados da agricultura, silvicultura e pescas registam a semana mais longa, com 42 horas.
Seguem-se os gestores, com 40,6 horas, e as profissões ligadas às forças armadas, com 39,4 horas. Estes grupos profissionais superam claramente a média europeia.
No extremo oposto, os trabalhadores em profissões elementares têm a semana média mais curta, com 31,8 horas. Surgem depois os trabalhadores administrativos de apoio, com 34 horas, e os profissionais dos serviços e vendas, com 34,5 horas.
Os dados mostram, assim, que a pergunta sobre quem trabalha mais na Europa não tem apenas uma resposta nacional. Depende também do país, do setor, do tipo de contrato, da força da negociação coletiva, do peso do trabalho a tempo parcial e da estrutura económica de cada mercado laboral.



