Portugal quer criar reservas estratégicas de alimentos: plano de 200 milhões prevê silos, cereais e conservas

Medida está inscrita no PTRR e surge num contexto em que a pandemia, a guerra na Ucrânia, os fenómenos meteorológicos extremos e o apagão de abril do ano passado reforçaram as preocupações

Revista de Imprensa

Portugal não tem, ao contrário de outros países europeus, reservas estratégicas de alimentos para situações de crise. O Governo quer mudar esse cenário e prevê investir cerca de 200 milhões de euros até ao final da legislatura para reforçar a capacidade de armazenamento alimentar, sobretudo através de silos de cereais, modernização de infraestruturas existentes e constituição de stocks de produtos essenciais, avança o ‘Observador’.

A medida está inscrita no Plano de Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR) e surge num contexto em que a pandemia, a guerra na Ucrânia, os fenómenos meteorológicos extremos e o apagão de abril do ano passado reforçaram as preocupações com a segurança do abastecimento. O objetivo é criar capacidade de resposta para situações de emergência, sem replicar o modelo de armazéns secretos existente em países como a Alemanha.

No caso português, a solução deverá passar pela construção de novos silos de cereais, pela modernização dos que já existem e pela recuperação de algumas estruturas antigas, sobretudo no sul do país. A proposta foi apresentada ao Governo pela Federação das Indústrias Portuguesas Agro-Alimentares (FIPA), que há vários anos defende a criação de reservas estratégicas, em especial devido à dependência externa de Portugal em matérias-primas como os cereais.

Segundo o PTRR, o modelo previsto assenta na mobilização de operadores privados. Na prática, o Estado deverá pagar às empresas uma compensação financeira para que estas disponibilizem uma capacidade mínima de armazenagem estratégica e mantenham determinados níveis de reservas operacionais. Ou seja, as empresas compram e guardam produtos definidos como essenciais, recebendo uma espécie de compensação por esse serviço.

Ainda não estão definidos os níveis de stock, a duração das reservas nem a localização exata das infraestruturas. O presidente da FIPA, Jorge Henriques, critica o facto de o país nunca ter feito esse trabalho de planeamento no setor alimentar, ao contrário do que acontece com os combustíveis. “Não estão definidos os níveis de stocks nem para quanto tempo, e o país tem de ser envolvido nisso”, afirmou ao ‘Observador’.

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As reservas deverão incidir “não só mas principalmente” sobre cereais e algumas oleaginosas, como soja e girassol. Para a FIPA, os silos devem ficar próximos das zonas onde estão instaladas as empresas que transformam cereal, produzem farinhas e massas alimentícias, sobretudo nas regiões de Lisboa e Porto. Também os portos são apontados como infraestruturas críticas, por precisarem de maior capacidade de armazenagem e melhores equipamentos de movimentação de mercadorias.

Além dos cereais, o Governo quer estudar a criação de reservas de alimentos conservados, nomeadamente conservas de peixe. A Associação Nacional dos Industriais de Conservas de Peixe (ANICP) vê a medida com bons olhos e defende que produtos como sardinha e cavala fazem sentido numa reserva estratégica, por terem longa duração, dispensarem refrigeração, estarem prontos a consumir e serem fáceis de armazenar e transportar.

“Se há produto que se enquadra no conceito de reserva estratégica é o das conservas de peixe, porque podem ser consumidas durante cinco anos após a sua produção”, defende José Maria Freitas, presidente da ANICP e CEO da Cofisa. A associação considera que as conservas podem ajudar a garantir segurança alimentar em situações extremas e, ao mesmo tempo, valorizar a produção nacional.

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Falta, contudo, definir como funcionará este sistema. Terão de ser escolhidos os produtos, os volumes, os locais de armazenamento, o modelo de rotação dos stocks e o destino a dar aos alimentos que não sejam utilizados antes do fim da validade. A indústria admite que os produtos possam ser introduzidos no mercado com desconto antes de expirarem, sendo depois substituídos por novas reservas.

Portugal está, assim, a aproximar-se de uma tendência europeia. A Alemanha mantém há décadas cerca de 150 armazéns secretos com milhares de toneladas de alimentos, incluindo trigo, arroz, leguminosas e leite condensado. O país quer agora modernizar essas reservas, que considera desajustadas por exigirem preparação ou confeção, e passar a incluir alimentos enlatados, como lentilhas e ravioli, capazes de garantir pelo menos uma refeição por dia em situações de crise.

Outros países também reforçaram ou reativaram reservas alimentares depois da invasão russa da Ucrânia. A Noruega voltou a criar reservas estratégicas de cereais pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria. A Suécia incluiu no orçamento de 2026 verbas para reservas alimentares de emergência. A Finlândia, que nunca abandonou este modelo, é obrigada por lei a manter cereais suficientes para nove meses de consumo.

Na Suíça, as reservas alimentares existem há várias décadas e são armazenadas por privados com financiamento público. Em janeiro de 2026, o país tinha arroz, trigo e óleos alimentares suficientes para quatro meses, além de açúcar, proteínas e café para três meses. A Suíça chegou a ponderar retirar o café da lista de bens estratégicos, por não ser considerado vital, mas acabou por manter mais de 20 mil toneladas em stock.

A diferença é que muitos destes países não apostam apenas em reservas públicas ou privadas. Também promovem campanhas para que os cidadãos mantenham alimentos em casa para situações de emergência. Em alguns casos, como na Suíça, essa preparação é apresentada como um dever cívico. Em Portugal, o plano ainda está numa fase inicial e dependerá da articulação entre Governo, empresas, portos, produtores e indústria agroalimentar.

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