Na XXX Conferência Executive Digest, Pedro Brito, Associate Dean e CEO da Nova SBE Executive Education, deixou um diagnóstico crítico sobre a economia portuguesa e a forma como empresas, instituições e sociedade encaram o crescimento, defendendo que falta ao país uma verdadeira “ambição coletiva”.
Sob o tema “Do potencial à escala: Quando a ambição se torna coletiva”, Pedro Brito defendeu que Portugal continua a pensar em pequeno, o que limita o seu desempenho económico e a capacidade de competir internacionalmente.
“Portugal tem um nível de ambição relativamente reduzido, sobretudo porque muitos de nós pensam sempre em pequenino, o benchmark é sempre o bairro, não o que pode ser em pleno potencial”, afirmou.
Apesar disso, o responsável da Nova SBE Executive Education sublinhou que o país reúne condições estruturais relevantes, como segurança, estabilidade, infraestruturas de classe mundial, posição geoestratégica, tecnologia, conectividade e sustentabilidade. Ainda assim, considera que esses fatores não estão a ser plenamente capitalizados.
PME, falta de escala e “teto invisível”
Um dos principais pontos do discurso centrou-se na estrutura empresarial portuguesa, dominada por PME, muitas delas microempresas. Para Pedro Brito, esta realidade impede a criação de escala e limita a competitividade global.
“Em Portugal, 99% são PME, mas 95% são microempresas, o que faz com que não tenhamos escala para competir no mercado global”, referiu, acrescentando que predomina uma lógica de crescimento incremental e não de ambição transformacional.
O responsável alertou ainda para a dificuldade de cooperação entre empresas: “Não nos unimos para criar escala e ir para mercados que nunca iríamos sozinhos. Temos pouca ambição coletiva.”
Para Pedro Brito, existe também um “teto invisível” que vai além das justificações habituais relacionadas com fiscalidade ou legislação laboral: “Há um medo de perder o que já foi alcançado, que coloca muitas organizações em modo de sobrevivência.”
Estrutura económica e produtividade
O orador recordou ainda que, nas últimas quatro décadas, a entrada de fundos europeus terá sido acompanhada por opções económicas que privilegiaram setores não transacionáveis, como turismo e serviços, em detrimento de áreas de maior valor acrescentado.
Essa opção, defende, tem impacto direto nos níveis de produtividade e competitividade do país, refletidos em rankings internacionais como o IMD.
“Os nossos empresários não têm boas práticas de gestão, têm pouca literacia financeira, não compreendem como podem ser mais produtivos, e no final do dia ficamos surpreendidos porque é que os salários em Portugal são tão baixos”, afirmou.
Pedro Brito destacou também o desafio da retenção de talento jovem, sublinhando que os profissionais procuram essencialmente três fatores: “carreiras rápidas, recompensa adequada e projetos interessantes”.
Como promover a ambição coletiva
O responsável deixou ainda um conjunto de propostas dirigidas a diferentes agentes da sociedade.
Para indivíduos, defendeu a necessidade de sair da zona de conforto e “fazer algo novo todos os dias”.
Nas famílias, defendeu uma educação mais orientada para a ambição, curiosidade e pensamento crítico, substituindo expressões limitadoras por estímulos ao desenvolvimento.
Nas empresas, defendeu metas mais ambiciosas, maior tolerância ao risco e modelos de incentivo que recompensem a inovação, bem como uma liderança pelo exemplo.
Já no caso das PME, apelou ao abandono de uma lógica de sobrevivência em favor da escala, com maior profissionalização da gestão e cooperação empresarial.
Ao nível do Estado, defendeu a redução da burocracia — apontando os “847 dias” que, segundo referiu, Portugal pode demorar a resolver litígios administrativos — e políticas que incentivem cooperação, internacionalização e crescimento empresarial.
Por fim, no sistema educativo, defendeu maior internacionalização, contacto com realidades externas e mecanismos de mentoria que aproximem estudantes e executivos.
“Temos de deixar de pensar apenas no que é possível hoje e começar a pensar no que pode ser criado em conjunto”, resumiu.









