Portugal pode ser afetado pelas ações da Rússia “daqui a dois, três anos de forma gravíssima”, avisa almirante Gouveia e Melo

“Só no ano passado fizemos mais de 40 ações de seguimento de navios russos nas nossas águas”, refere. “Se houver um conflito na Europa, estamos tão envolvidos como a Europa de Leste ou como a Europa central nesse conflito”, defende o chefe do Estado-Maior da Armada

Francisco Laranjeira

O chefe de Estado-Maior da Armada considera que Portugal pode ser afetado pelas ações da Rússia “daqui a dois, três anos, de forma gravíssima”: em entrevista à ‘SIC Notícias’, o almirante Gouveia e Melo lembra que Portugal tem uma localização geográfica, com uma grande orla costeira voltada para o Atlântico, que é um fator de risco.

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“Só no ano passado fizemos mais de 40 ações de seguimento de navios russos nas nossas águas”, refere. “Se houver um conflito na Europa, estamos tão envolvidos como a Europa de Leste ou como a Europa central nesse conflito.”

Por isso, a prevenção é essencial. “Prefiro estar prevenido, prefiro discutir os temas, preparar-me. Mesmo que depois, se calhar, a decisão seja ‘não temos capacidade para fazer isto, não vamos fazer’, mas pelo menos discutimos, não nos escondemos, não evitamos a discussão”, indica.

De acordo com o almirante, os jovens devem ser incentivados a integrar as Forças Armadas, sem contudo defender o regresso do serviço militar obrigatório. “É uma pescadinha de rabo na boca: se a sociedade acha que a Defesa não é uma preocupação, isso reflete-se no poder político. Se o poder político, por outro lado, não considerar que a Defesa é uma preocupação e que deve explicar isso à sociedade, também alimenta um certo autismo dessa sociedade.”

Mas não são só os recursos humanos o problema: o financiamento também é. “Os países ocidentais, na maioria, estão a chegar à conclusão, perante este conflito na Ucrânia, que têm de gastar entre 2 a 3% do orçamento”, aponta, lamentando que em Portugal haja uma reação negativa sempre que se discute um eventual aumento do orçamento da Defesa.

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“Não há militarismo nenhum, são os outros que nos estão a impor que nós nos defendamos, são os outros que são os agressores, nós estamos só a tentar reagir”, avança. “É preciso que o outro lado perceba que não vai ganhar nada confrontando-nos. Há uma fórmula, muito usada nos meios militares, que é ‘o poder relativo das capacidades’. Muitas vezes não é só ter capacidade, tem que haver capacidade e vontade, e a vontade está nas populações, no sistema político.”

Por último, segundo o almirante Gouveia e Melo, se o conflito alastrar à Europa, “em termos de capacidade, a Europa Ocidental, sem os Estados Unidos, é muito superior à Federação Russa, mas a Rússia tem tido mais vontade do que a Europa”. “O agressor, normalmente, tem muito mais vontade do que quem se defende”, finaliza.

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