Portugal pode enfrentar uma das ondas de calor mais fortes de sempre? O pior ainda está para chegar

Intensidade, a duração e a abrangência geográfica do episódio levantam uma pergunta: poderá esta ser uma das piores ondas de calor de sempre no país?

Francisco Laranjeira

Portugal Continental prepara-se para vários dias de calor extremo, com temperaturas acima dos 35 graus em praticamente todo o território, máximas a tocar ou ultrapassar os 40 graus em várias regiões e noites invulgarmente quentes. A intensidade, a duração e a abrangência geográfica do episódio levantam uma pergunta: poderá esta ser uma das piores ondas de calor de sempre no país?

Segundo o ‘Luso Meteo’, Portugal está a entrar numa onda de calor extremo provocada pelo posicionamento do anticiclone diretamente sobre o território continental. Esta configuração deverá cortar a habitual influência marítima e favorecer um fluxo persistente de leste e sudeste, transportando para o país uma massa de ar muito quente e seca, com origem no norte de África.

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera também aponta para uma subida marcada das temperaturas nos próximos dias. Segundo o IPMA, citado pelo ‘Jornal de Notícias’, os termómetros começam a disparar a partir desta terça-feira e o episódio de calor deverá prolongar-se, pelo menos, até meados da próxima semana.

Jorge Ponte, chefe de divisão de previsão meteorológica do IPMA, classificou a situação como “um fenómeno inédito em Portugal”. O responsável explicou que a principal novidade está na persistência de temperaturas tão elevadas durante vários dias, sobretudo em regiões como Lisboa, Alentejo e Ribatejo.

“A grande novidade será a persistência de tão elevadas temperaturas durante um período tão longo, sobretudo em regiões como as de Lisboa, do Alentejo e do Ribatejo, o que nunca se havia verificado de forma tão vincada”, afirmou Jorge Ponte.

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Outro fator invulgar será a extensão territorial da onda de calor. Ao contrário de outros episódios, mais concentrados no interior ou em zonas específicas, desta vez o calor deverá atingir praticamente todo o país. Segundo o responsável do IPMA, “não haverá qualquer zona que, à partida, possa escapar”.

O ‘Luso Meteo’ aponta para máximas absolutas prováveis entre os 43 e os 46 graus, cruzando cenários dos principais modelos meteorológicos globais, como o europeu ECMWF e o americano GFS. O GFS tende a projetar valores mais elevados, enquanto o ECMWF surge mais conservador, mas ambos indicam um episódio de forte intensidade.

A metade sul do país deverá sentir primeiro o calor extremo. A partir de quinta e sexta-feira, os vales do Alentejo e do Sado, bem como o interior algarvio, poderão aproximar-se dos 44 graus. Depois, a dorsal anticiclónica deverá empurrar progressivamente o ar quente para norte.

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Lisboa e Braga poderão atingir os 40 graus durante, pelo menos, três dias consecutivos. Nos vales do Tejo e do Sado e nas planícies do Alentejo, a probabilidade de temperaturas próximas dos 45 graus será mais elevada, sobretudo entre 4 e 7 de julho, período que deverá marcar o primeiro pico desta onda de calor.

O litoral, habitualmente mais protegido pela influência marítima, também deverá ser atingido. O fluxo de leste reduz o efeito moderador do oceano e poderá levar o calor intenso até à faixa costeira ocidental. Segundo o ‘Luso Meteo’, algumas praias poderão aproximar-se dos 40 graus, enquanto Peniche, conhecida por raramente registar calor extremo, poderá superar os 30 graus em alguns dias.

As noites serão outro dos aspetos mais preocupantes. O IPMA prevê mínimas anormalmente elevadas, sem descerem dos 25 graus em várias zonas do país durante praticamente uma semana. O ‘Luso Meteo’ admite que, localmente, as temperaturas possam não baixar dos 30 graus durante a noite no pico do episódio.

Esta ausência de arrefecimento noturno aumenta o risco para a saúde, porque impede o corpo de recuperar do calor acumulado durante o dia. Idosos, crianças, doentes crónicos, pessoas isoladas e trabalhadores expostos ao calor estão entre os grupos mais vulneráveis.

A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, admitiu que Portugal vai atravessar dias preocupantes. “Quando existem ondas de calor com esta magnitude, o nosso indicador obviamente que acusa a possibilidade de um impacto na mortalidade, tal como está a acontecer noutros países”, afirmou a governante, citada pela Lusa.

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A ministra referia-se ao indicador Ícaro, usado para estimar o impacto das temperaturas elevadas no número de óbitos. Ana Paula Martins classificou a onda de calor prevista para Portugal como “muito, muito preocupante” e garantiu que as Unidades Locais de Saúde têm planos de contingência próprios. Ainda assim, deixou o apelo para que sejam evitadas deslocações desnecessárias às urgências.

A Direção-Geral da Saúde recomenda cuidados especiais, sobretudo para trabalhadores expostos à radiação solar. As tarefas fisicamente mais exigentes devem ser realizadas nas horas mais frescas, como o início da manhã ou o final da tarde, devem existir pausas regulares e a ingestão de água deve ser feita a cada 15 ou 20 minutos.

A DGS alerta também para sinais de risco associados ao calor extremo. Confusão mental, transpiração excessiva, temperatura corporal elevada ou convulsões podem indicar insolação. Tonturas, náuseas, desmaios e cãibras podem estar associados a exaustão pelo calor ou síncope térmica.

Além da saúde, a onda de calor poderá pressionar a rede elétrica. A maior utilização de ar condicionado deverá aumentar a procura de eletricidade, num cenário em que o calor persistente também pode afetar infraestruturas. Ao ‘Jornal de Notícias’, Nuno Amaro, professor da NOVA FCT e especialista em energia, alertou para o chamado stress elétrico, admitindo que poderão ocorrer cortes localizados caso a rede fique sob forte pressão.

O risco de incêndio rural é outra preocupação central. A combinação de temperaturas muito elevadas, ar seco e vento de leste, que poderá ser pontualmente intenso, cria condições favoráveis à ignição e propagação rápida de fogos. As autoridades já colocaram concelhos dos distritos de Castelo Branco, Faro e Portalegre em risco máximo de incêndio devido ao calor.

Segundo o IPMA, uma onda de calor ocorre quando, durante pelo menos seis dias consecutivos, a temperatura máxima diária fica cinco graus acima do valor médio das máximas desse mês, tendo por referência um determinado período climatológico. O instituto assinala que, nos últimos 30 anos, têm sido observados mais eventos extremos deste tipo no verão em Portugal Continental.

O recorde absoluto de temperatura máxima em Portugal Continental continua a ser de 47,3 graus, registado na Amareleja, em 1 de agosto de 2003, segundo os extremos climatológicos do IPMA. Por isso, o episódio agora previsto poderá não bater necessariamente o máximo absoluto do país. A gravidade está sobretudo na combinação entre duração, noites muito quentes, extensão territorial e persistência de valores extremos.

O ‘Luso Meteo’ admite que os primeiros oito dias de julho tenham potencial para estar entre os mais quentes alguma vez registados em Portugal. A previsão aponta para anomalias médias superiores a 6 graus entre 29 de junho e 6 de julho, com alguns dias até 12 graus acima do normal.

A grande incerteza está no fim do episódio. Até 8 de julho, a onda de calor surge como praticamente confirmada nas previsões. Depois disso, o modelo europeu ECMWF sugere, com probabilidade moderada, que o bloqueio atmosférico possa prolongar-se até 13 ou 14 de julho. Se esse cenário se confirmar, Portugal poderá enfrentar uma das ondas de calor mais intensas e duradouras dos últimos anos.

Mesmo que a descida das temperaturas chegue antes de meados do mês, o episódio deverá ter impacto significativo. O calor extremo deverá pressionar serviços de saúde, consumo energético, ecossistemas e dispositivo de combate a incêndios.

A pergunta sobre se esta poderá ser a pior onda de calor de sempre ainda não tem resposta definitiva. Para isso será necessário esperar pelos dados observados e pela duração real do episódio. Mas os sinais atuais são suficientemente fortes para justificar o alerta: Portugal vai enfrentar uma onda de calor invulgar pela intensidade, pela duração e pela extensão, e não apenas “mais uns dias de verão”.

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