Portugal no topo da crise das rendas. Lisboa, Porto e Braga entre as cidades menos acessíveis da Europa: capital ‘absorve’ 99% do rendimento

Capital portuguesa surge no primeiro lugar entre 127 cidades analisadas, com uma renda média mensal de 1.331 euros, equivalente a 99,15% do salário líquido médio local, estimado em 1.343 euros

Executive Digest

Lisboa é a cidade europeia onde a renda de um apartamento de um quarto no centro mais pesa no salário líquido médio, de acordo com um novo relatório da ‘Tradingpedia‘. A capital portuguesa surge no primeiro lugar entre 127 cidades analisadas, com uma renda média mensal de 1.331 euros, equivalente a 99,15% do salário líquido médio local, estimado em 1.343 euros.

O retrato coloca Portugal no centro da crise europeia da habitação. Além de Lisboa liderar o ranking, o Porto surge na quarta posição, com uma renda média de 1.108 euros, o equivalente a 85,12% do salário líquido médio de 1.302 euros. Braga aparece também entre as dez cidades europeias menos acessíveis para arrendar, com uma renda média de 810 euros, correspondente a 72,99% do salário líquido médio de 1.110 euros.

A análise compara os valores médios das rendas mensais de apartamentos T1 nos centros urbanos com os salários líquidos médios locais. Os dados foram recolhidos pela ‘Tradingpedia’ em maio de 2026, com base na plataforma Numbeo, e comparados com valores históricos de abril de 2025 através do Internet Archive.

Lisboa lidera ranking europeu

De acordo com o relatório, a renda média no centro de Lisboa absorve praticamente todo o rendimento líquido mensal de um trabalhador médio. Depois de pagar a renda, restariam cerca de 11 euros, segundo os cálculos apresentados.

Continue a ler após a publicidade

A capital portuguesa surge à frente de Tirana, na Albânia, onde a renda representa 93,34% do salário líquido, e de Kiev, na Ucrânia, onde o peso da renda atinge 87,58%. O Porto ocupa o quarto lugar da lista, seguido de Chisinau, na Moldávia.

Entre as dez cidades onde a renda consome a maior fatia do salário estão ainda Galway, na Irlanda, Málaga, em Espanha, Milão, em Itália, Braga, em Portugal, e Belgrado, na Sérvia.

Portugal destaca-se por ser o único país com três cidades no top 10 das rendas menos acessíveis da Europa, segundo esta análise.

Continue a ler após a publicidade

Turismo, salários e falta de oferta pressionam mercado

O relatório aponta que a crise do arrendamento europeu já não se resume às cidades tradicionalmente mais caras. O problema está cada vez mais na distância entre o crescimento das rendas e a evolução dos salários.

Brian McColl, da ‘Tradingpedia’, sublinha que, em muitos mercados do Sul e do Leste da Europa, as rendas subiram muito mais depressa do que os rendimentos locais, criando uma situação em que poupar se tornou praticamente impossível para trabalhadores jovens e famílias de rendimento médio.

“A crise europeia do arrendamento já não diz respeito apenas a cidades caras; está cada vez mais relacionada com o fosso crescente entre salários e o custo real de vida. Em muitos locais, especialmente no Sul e no Leste da Europa, as rendas subiram muito mais depressa do que os rendimentos locais, deixando jovens trabalhadores e pessoas de rendimento médio presos num ciclo em que poupar se tornou quase impossível”, afirma.

O responsável aponta fatores como turismo, arrendamento de curta duração, investimento estrangeiro e escassez crónica de habitação como elementos que têm contribuído para colocar os preços acima da capacidade financeira de muitos residentes.

Continue a ler após a publicidade

Cidades “baratas” podem ser menos acessíveis do que mercados caros

A análise da ‘Tradingpedia’ mostra também que algumas cidades europeias aparentemente mais baratas podem ser, na prática, menos acessíveis do que mercados conhecidos por rendas elevadas. A diferença está nos salários.

Em cidades suíças, por exemplo, as rendas nominais são muito altas, mas os salários também são significativamente superiores. Zurique tem uma renda média superior a 2.608 euros por mês, mas o salário líquido médio local chega aos 7.424 euros, permitindo aos residentes manter quase 65% do rendimento depois do pagamento da renda.

Na Alemanha, Essen surge como a cidade europeia mais acessível entre as analisadas. A renda média é de 552 euros, equivalente a apenas 18,9% do salário líquido local. A cidade alemã é também aquela onde a renda média mais caiu no último ano, com uma descida de quase 15% face a abril de 2025.

Europa dividida em duas realidades habitacionais

O relatório conclui que a Europa está a dividir-se em duas realidades distintas: cidades onde a renda é cara, mas os salários ainda conseguem absorver esse custo, e cidades onde o arrendamento se tornou financeiramente insustentável para a população local.

É neste segundo grupo que Portugal surge em destaque. Lisboa, Porto e Braga combinam rendas elevadas com salários que não acompanham o custo da habitação, criando uma pressão acrescida sobre residentes, trabalhadores jovens e famílias que procuram viver nos centros urbanos.

A divulgação do estudo surge numa altura em que a Comissão Europeia apresentou o Plano Europeu para a Habitação Acessível, numa tentativa de responder à crise habitacional que afeta várias cidades do continente. Com a inflação na zona euro em 3% em abril e as rendas ainda pressionadas, a acessibilidade à habitação continua a afirmar-se como um dos principais desafios económicos e sociais na Europa.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.