Portugal mais competitivo: não desperdiçar mais uma oportunidade

Por Pedro Castro e Almeida, Presidente da Comissão Executiva do Santander em Portugal

Ano novo é sinónimo de recomeço e de novos desafios.

Embora ainda num contexto de pandemia – e com todas as incertezas quanto aos seus efeitos a nível sanitário e económico – prevê-se que 2022 seja um ano de viragem em que a recuperação se consolide, sobretudo a partir do primeiro trimestre.

Estima-se que tanto a economia europeia como a portuguesa possam continuar a crescer solidamente (acima de 4% na zona euro, cerca de 5% em Portugal), beneficiando dos Planos de Recuperação que serão fundamentais em todo este processo.

Até ao final da década, Portugal terá acesso a fundos comunitários no montante global de 58 mil milhões de euros, fruto da conjugação do PT2020, do Plano de Recuperação Europeu e do novo quadro financeiro plurianual.

É uma oportunidade única, na qual a complementaridade de programas de financiamento, enquadrados no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), reúne todas as condições para colmatar o impacto da pandemia em Portugal e tornar a economia mais competitiva. Mas a exigência para a aplicação dos fundos, de forma eficiente e estruturada, é elevadíssima. Neste momento de verdade, temos de executar ao milímetro esta oportunidade de ouro de forma a posicionar a nossa economia de novo numa trajectória ascendente, em termos de transformação e de melhoria do seu potencial de crescimento.

A experiência passada mostra que não podemos cometer os mesmos erros. A entrada de Portugal na UE trouxe acesso a novos fundos, que permitiram ao país alcançar um desenvolvimento económico relevante através da modernização do sector produtivo e das infra-estruturas base da economia. Mas não se tomaram medidas em antecipação a um processo de globalização rápido e profundo, a um contexto mais competitivo, e a uma necessidade de maior inovação. E isso foi mais visível ao nível da Administração Pública, que não se modernizou e manteve um custo de contexto elevado, penalizando a capacidade de investimento das empresas. Em resultado, desde 2000 que Portugal – apesar dos elevados fundos europeus recebidos – registou um crescimento económico tíbio (abaixo de 1%).

Os últimos 15 anos não ajudaram, com o surgimento de duas crises muito profundas a nível global e com grande impacto, também, em Portugal, expondo as debilidades estruturais patentes nos desequilíbrios externo e orçamental. Em 2011, a situação atingiu um limite, requerendo financiamento externo e um programa de ajustamento, com a implementação de várias reformas estruturais. Mas ficámos a meio caminho, com um virar de página que impediu tornar a economia ainda mais competitiva, dinâmica e atractiva para o investimento.

Outros países mantiveram um espírito reformista, que permitiu alavancar os fundos estruturais. E vemos que há países que estão a conseguir fazer crescer as suas economias de forma notória, como é o caso da Irlanda, que tem conseguido atrair muito investimento estrangeiro. Ou da generalidade dos países do antigo bloco de leste, com fortes ganhos de produtividade e crescimento, alguns deles ultrapassando Portugal em termos de riqueza, quando há duas décadas estavam bastante mais atrás do que Portugal.

Em termos de salários, a tendência crescente dos salários por trabalhador na Zona Euro é transversal a todos os países, no entanto, a velocidade a que ocorre é distinta. Em Portugal, o salário médio por trabalhador é cerca de metade da Zona Euro, um diferencial que se tem vindo a alargar desde 2008. E a pandemia veio acelerar um processo de globalização do mercado de trabalho, no qual as novas tecnologias permitem que os jovens qualificados, em Portugal, possam ser contratados por empresas de qualquer geografia, em particular dos países core da Europa, como a Alemanha, forçando uma mais rápida convergência salarial. O gap salarial entre trabalhadores qualificados e não qualificados vai ampliar-se, mas também o vai ocorrer entre trabalhadores de áreas STEM – Science, Technology, Engineering e Mathematics – e não STEM. No final, a tendência será de aumento generalizado dos salários. Mas só o poderemos fazer se formos mais competitivos.

Temos, por isso, um longo caminho a percorrer. E numa curta janela temporal, sendo que partimos já da retaguarda da grelha de partida.

Em primeiro lugar, temos de conseguir transformar o tecido produtivo numa economia de elevado valor acrescentado e de grande produtividade. Nesta matéria, teremos de canalizar os fundos disponíveis para requalificar os trabalhadores e aprofundar a transformação digital das empresas. Depois temos de tirar partido do processo de relocalização, aproveitando os clusters existentes no país, nos sectores com maior relação com a universidade, o que, conjugado com a digitalização, permitirá termos uma indústria mais orientada para serviços, mais verde e mais resiliente a situações de crise.

Outro objectivo é criar mecanismos, financeiros e fiscais, para apoiar a capitalização, crescimento e internacionalização das empresas. Precisamos de empresas com dimensão, que possam investir continuamente, mantendo a sua base de geração de valor em Portugal.

Outro ponto essencial passa por acelerar a transformação digital da Administração Pública, para reduzir a burocracia e reduzir custos de contexto. Em especial, ao nível da justiça, porque todos temos noção de que com um melhor funcionamento do sistema judicial, mais expedito, será mais fácil atrair investimento estrangeiro.

Igualmente importante, o Estado deverá aproveitar ainda o ciclo de crescimento para reduzir o défice e dívida públicos, pois só dessa maneira permitirá libertar recursos para que as empresas e os empresários possam investir mais e melhor. Em mercados globais, a fiscalidade não pode ser uma desvantagem competitiva, para manter em Portugal o talento e as empresas inovadoras.

Reforço a ideia de temos, nos próximos anos, uma oportunidade de ouro, mas que é irrepetível. Por isso, temos de aproveitar ao máximo, através de uma execução exímia dos fundos europeus, que gere mais e melhor crescimento. Se não, os erros e suas consequências estarão bem patentes, materializadas numa economia estagnada e cada vez mais distante da média europeia. O desafio é de todos, Estado e agentes privados.

Do lado do Santander, continuaremos comprometidos em apoiar as famílias e o tecido empresarial português, contribuindo para que todos os projectos inovadores e com capacidade de gerar valor acrescentado possam alcançar o sucesso desejado, e preparando-os da melhor forma para as grandes transições em curso – climática e digital – que estão a tornar o contexto competitivo cada vez mais exigente.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 190 de Janeiro de 2022

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