Portugal lidera desigualdade de género na saúde na Europa: mulheres vivem menos anos saudáveis após os 65

País combina níveis muito baixos de vida saudável para as mulheres com reduzida autoavaliação positiva de saúde, entre os piores do bloco europeu

Revista de Imprensa
Dezembro 3, 2025
10:19

As mulheres portuguesas vivem, em média, menos 14 pontos percentuais de anos de vida saudável após os 65 anos do que os homens — a maior diferença de género registada em toda a União Europeia. A conclusão consta do ‘Gender Equality Index 2025’, e marca aquele que o ‘Diário de Notícias’ identifica como o principal ponto fraco do país na igualdade de género: a saúde.

De acordo com o relatório publicado pelo Instituto Europeu para a Igualdade de Género, Portugal surge em último lugar na dimensão “estado de saúde”, que avalia a autoperceção de bem-estar e a percentagem de anos vividos com qualidade depois dos 65. O país combina níveis muito baixos de vida saudável para as mulheres com reduzida autoavaliação positiva de saúde, entre os piores do bloco europeu.

Mulheres vivem mais, mas pior

Apenas 50% das mulheres em Portugal classificam a sua saúde como “boa” ou “muito boa”, contra 58% dos homens, ambos abaixo da média comunitária. A discrepância agrava-se na velhice: entre os 65 anos e o fim da vida, as mulheres passam apenas 34% do tempo em boa saúde, enquanto os homens atingem 48%.

Apesar de apresentarem comportamentos de risco mais reduzidos — fumam menos e consomem menos álcool de forma nociva — as mulheres enfrentam maiores limitações físicas, pior saúde mental e menor qualidade de vida à medida que envelhecem.

Cuidados informais: desigualdade mais marcada do que na média europeia

Portugal destaca-se ainda pela assimetria no cuidado informal de longa duração. 32% das mulheres entre os 45 e os 64 anos dedicam mais de 20 horas semanais a ajudar pessoas com dependência devido à idade, doença crónica ou enfermidade. Um valor muito acima da média europeia (20%) e o dobro da percentagem registada entre os homens (16%).

Outros domínios onde Portugal recua ou estagna

O relatório assinala ainda retrocessos noutros capítulos da igualdade de género.

Dinheiro: Portugal recua um ponto desde 2020 no domínio que avalia acesso a recursos financeiros e situação económica. O subdomínio “situação económica” desce 3,3 pontos, refletindo risco acrescido de pobreza e persistência da desigualdade salarial: 16% das mulheres são mal pagas, contra 10% dos homens. Nos casais, as mulheres ganham em média 80% do rendimento do parceiro, diferença praticamente inalterada.

Conhecimento: o país perde 1,3 pontos, apesar de se manter acima da média europeia. A quebra resulta da diminuição da participação de ambos os géneros na educação e formação ao longo da vida e da persistência da segregação educativa. Quase três em cada quatro diplomados em educação, saúde e artes são mulheres, enquanto a presença feminina em STEM permanece minoritária e em queda desde 2015.

Tempo: as desigualdades na divisão do tempo dedicado a cuidados e tarefas domésticas continuam expressivas. 66% das mulheres fazem tarefas domésticas diariamente, contra 44% dos homens. Ambos os valores superam a média europeia, mas a disparidade mantém-se elevada, sobretudo em casais com filhos e entre gerações mais velhas.

Poder: apesar de ser o domínio onde o país mais evoluiu desde 2020, subsistem fragilidades. A presença feminina no parlamento e assembleias regionais diminuiu, enquanto se registaram avanços ligeiros no Governo e nos conselhos de administração das empresas cotadas ao longo dos últimos cinco anos.

Estereótipos de género continuam enraizados: o relatório evidencia a persistência de crenças que naturalizam desigualdades. 47% da população aceita a ideia de que os homens ganham mais por terem trabalhos mais exigentes, uma perceção muito acima da média europeia no caso das mulheres. Além disso, mais de três em cada cinco mulheres e mais de metade dos homens consideram que os homens são menos aptos para o trabalho doméstico, perpetuando a divisão desigual do tempo.

No contexto digital, permanece uma cultura de culpabilização das vítimas: 51% das mulheres e 57% dos homens acreditam que uma mulher tem alguma responsabilidade se forem divulgadas imagens íntimas suas sem consentimento. A prevalência é maior entre pessoas mais velhas, mas também significativa entre homens jovens.

Portugal aproxima-se da média europeia

Apesar das fragilidades, o retrato global é positivo. Com 63,4 pontos, Portugal ocupa o 10.º lugar na UE e regista um crescimento consistente: mais 9,1 pontos desde 2015 e 4,3 desde 2020. O país é identificado como caso de “convergência ascendente”, melhorando enquanto reduz a distância face à média europeia. Grande parte deste progresso resulta da legislação sobre quotas de género no poder político e económico.

UE ainda a meio século da igualdade

O relatório alerta, porém, para o ritmo lento do progresso europeu. Mantido o atual trajeto, a União Europeia demorará 50 anos a alcançar igualdade plena. O chamado “ghost quarter” resume a disparidade: as mulheres ganham apenas 77% do rendimento anual dos homens, equivalente a três meses e meio de trabalho não remunerado por ano.

A saúde e a educação são áreas onde muitos Estados-Membros registaram recuos, enquanto o poder económico emerge como o domínio com mais avanços. Sem reformas estruturais, sobretudo na redistribuição do trabalho de cuidado e no combate à pobreza feminina, a desigualdade de género continuará a marcar a vida das mulheres europeias.

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