A tecnologia europeia vive um momento decisivo. O novo relatório The State of European Tech, divulgado hoje pela Atomico, revela que o setor no continente atingiu um valor recorde de quase 4 biliões de dólares — cerca de 15% do PIB europeu — e que o otimismo entre fundadores e investidores alcançou o nível mais elevado da última década.
Mas o estudo deixa um aviso claro: a Europa só conseguirá liderar a próxima era tecnológica se agir rapidamente para remover barreiras estruturais e acelerar a inovação.
Portugal perde investimento mas sobe no mapa dos unicórnios
O relatório coloca Portugal numa posição mista. Por um lado, o país deverá captar 230 milhões de dólares (cerca de 198 milhões de euros) em 2025, abaixo dos 250 milhões do ano anterior, ocupando o 14.º lugar na Europa em capital investido.
Por outro, o ecossistema português gerou mais um unicórnio este ano — elevando para três o total de empresas avaliadas acima de mil milhões de dólares — e vê a Tekever ultrapassar esse patamar, colocando Portugal entre os 11 países europeus que produziram unicórnios em 2025.
Para além disso, está em curso a procura de financiamento para uma gigafábrica de IA avaliada em 4 mil milhões de euros, um dos projetos de infraestrutura mais ambiciosos da Europa, que pode afirmar Portugal como um hub de centros de dados, ao lado de Espanha e dos países nórdicos.
O sentimento do setor em Portugal revela uma postura prudente: apenas 35% dos inquiridos estão mais otimistas quanto ao futuro da tecnologia europeia do que em 2024, e 38% mantêm a mesma perspetiva.
Europa avança, mas ainda deixa “triliões na mesa”
A Atomico alerta para o risco de a Europa perder uma fatia significativa do PIB futuro se não superar entraves como a fragmentação regulatória, a menor escala dos mercados de capitais e a dificuldade de expansão além-fronteiras.
O relatório define quatro grandes ambições para reforçar a liderança tecnológica europeia, com impacto direto em países como Portugal.
- Reduzir o atrito regulatório e unificar mercados
Quase 70% dos fundadores europeus consideram o ambiente regulatório demasiado restritivo, e apenas 18% dizem trabalhar num contexto favorável. Os maiores entraves incluem a fragmentação do mercado europeu e as regras laborais.
A Atomico propõe:
- criação da “EU Inc”, permitindo fundar e operar empresas digitalmente em 48 horas em toda a UE;
- políticas com lógica de “testar e aprender”;
- estímulos para transformar investigadores em empreendedores.
- Atração e retenção de talento
A Europa conta hoje com 4,6 milhões de trabalhadores tecnológicos, um aumento de 4% num ano, e retém agora 81% dos seus fundadores na área de IA — mais do que há uma década.
Mas persistem desafios: cerca de 30% das startups europeias em fase avançada deslocam sede para fora da Europa, sobretudo para os EUA.
Para contrariar esta tendência, o relatório defende:
- regimes de vistos rápidos e unificados para talento global,
- mobilidade facilitada de fundadores dentro da Europa,
- modelos de remuneração mais competitivos para atrair especialistas.
Em Portugal, o otimismo permanece moderado, refletindo um ecossistema em crescimento mas ainda dependente de capital e talento externo.
- Mobilizar capital para escalar empresas europeias
O investimento em capital de risco na Europa cresceu 7% para 44 mil milhões de dólares, e os fundos de pensões aumentaram em 55% a alocação ao venture capital. Contudo, o continente está longe da escala norte-americana.
Os países do sul da Europa — incluindo Portugal — registam apenas 0,06% do PIB investido em capital de risco, menos de metade da média europeia.
As áreas de IA e deep tech já representam 36% do investimento, com o financiamento em defesa a crescer 55%.
Entre os destaques do relatório figuram empresas europeias como Lovable, DeepL, ElevenLabs ou Synthesia, mostrando que o continente continua a produzir inovação de ponta.
- Reforçar a cultura de risco e acelerar aquisição de inovação
A Europa tem hoje mais de 400 unicórnios e 2.850 investidores ativos. Em 2025, 28 empresas ultrapassaram a valorização de mil milhões de dólares. Mas persistem barreiras culturais e institucionais:
- apenas 20% das empresas europeias trabalham ativamente com startups, contra 50% nos EUA;
- apenas 9% das aquisições públicas são direcionadas para inovação, face a 20% nos EUA.
A Atomico defende:
- simplificação da insolvência para permitir “falhar melhor” e recomeçar mais rápido;
- mecanismos rápidos para startups venderem a empresas e governos europeus;
- uma mudança narrativa para celebrar risco e empreendedorismo.
O relatório foi desenvolvido pela Atomico em parceria com a Amazon Web Services, Orrick, HSBC Innovation Banking e Slush.














