Portugal ‘encolhe’ dentro de casa: há mais pessoas sozinhas e menos famílias grandes do que há três décadas

Estudo “Agregados familiares em transformação em Espanha e Portugal”, promovido pelo Observatório Social da Fundação ”la Caixa” em colaboração com o Centre d’Estudis Demogràfics, traçou cenário das famílias portuguesas

Executive Digest

Portugal tornou-se, nas últimas três décadas, um país de agregados familiares mais pequenos, mais diversos e mais individualizados. Entre 1991 e 2022, os agregados unipessoais cresceram 53%, enquanto os agregados compostos por cinco ou mais pessoas diminuíram 70%, segundo o estudo “Agregados familiares em transformação em Espanha e Portugal”, promovido pelo Observatório Social da Fundação ”la Caixa” em colaboração com o Centre d’Estudis Demogràfics.

A investigação, desenvolvida por Albert Esteve, Juan Galeano e Jesús García, com base em dados do Inquérito à População Ativa entre 1991 e 2022, mostra uma alteração profunda na forma como os portugueses vivem, organizam a família e distribuem os ciclos de convivência ao longo da vida.

O agregado familiar continua a ser o centro da vida familiar, funcionando como espaço de convivência, proteção e socialização. Mas a sua dimensão e composição mudaram de forma significativa. Em Portugal, há menos famílias numerosas, mais pessoas a viver sozinhas e uma consolidação dos agregados compostos por duas pessoas como a estrutura mais frequente.

Nas últimas três décadas, a população portuguesa aumentou 4,4%, mas o número total de agregados familiares cresceu 25,9%, atingindo os 4,11 milhões. Este crescimento não resulta apenas de haver mais população, mas sobretudo de uma redução da dimensão média das famílias.

Entre 1991 e 2022, a dimensão média dos agregados familiares em Portugal passou de 3,1 para 2,5 pessoas. Segundo o estudo, 85% do crescimento do número total de agregados familiares no país é explicado precisamente por essa redução da dimensão média.

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A transformação resulta de vários fatores demográficos e sociais. Os investigadores apontam três tendências principais: o envelhecimento da população, a redução da natalidade e o aumento das separações e divórcios.

“Portugal está a tornar-se um país de agregados familiares mais pequenos e mais individualizados. Esta transformação resulta do envelhecimento da população, das mudanças nos modelos familiares e das dificuldades de emancipação dos mais jovens”, afirma Albert Esteve, investigador do Centre d’Estudis Demogràfics.

O estudo mostra também alterações relevantes nos ciclos de vida. Em média, os portugueses passam menos anos a viver com ambos os progenitores e menos anos a viver com filhos. Em contrapartida, aumenta o número de anos vividos sozinho, sobretudo nas idades mais avançadas.

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Entre 1991 e 2022, o número médio de anos vividos sozinho aumentou de 4,2 para 5,8 anos em Portugal. Esta evolução está particularmente associada ao envelhecimento da população e à maior longevidade feminina, que faz com que as mulheres tenham maior probabilidade de viver sozinhas em fases mais avançadas da vida, muitas vezes após a viuvez.

Ao mesmo tempo, os jovens permanecem durante mais tempo em casa dos pais. O estudo associa este prolongamento da coabitação familiar ao adiamento da emancipação e às dificuldades de acesso à habitação, num contexto marcado pelo aumento do custo de vida e pela pressão sobre o mercado habitacional.

Os investigadores identificam ainda uma redução do tempo de convivência em famílias alargadas e um aumento das estruturas monoparentais durante a infância. Estas mudanças alteram não apenas a vida familiar, mas também as necessidades sociais e habitacionais do país.

A diminuição da coabitação intergeracional e das famílias alargadas pode aumentar a necessidade de apoio público, sobretudo junto da população mais envelhecida. Menos pessoas por agregado significam também menos redes informais de cuidado dentro de casa, o que pode reforçar a procura de serviços sociais, respostas de proximidade e soluções habitacionais adaptadas.

Os dados do Observatório Social da Fundação ”la Caixa” mostram, assim, que a transformação dos agregados familiares não é apenas uma mudança estatística. É uma alteração com impacto direto na habitação, nos cuidados, nas políticas sociais e na forma como o país terá de responder ao envelhecimento, à solidão e à emancipação tardia dos mais jovens.

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Num Portugal com mais casas habitadas por uma ou duas pessoas e menos famílias numerosas, o desafio deixa de ser apenas demográfico. Passa a ser também social, económico e político: adaptar o país a uma nova forma de viver em família.

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