Depois de vários dias em que Portugal continental escapou às temperaturas extremas que têm assolado grande parte da Europa, o cenário meteorológico começa a mudar. A previsão para esta sexta-feira aponta ainda para tempo relativamente ameno para a época do ano, mas o fim de semana marcará o regresso gradual do calor, sobretudo nas regiões do interior, onde no domingo os termómetros poderão voltar a ultrapassar os 35 ºC e aproximar-se dos 40 ºC em alguns locais.
Nas últimas semanas, Portugal destacou-se como uma exceção no panorama europeu. Enquanto países como Espanha, França e Itália enfrentaram sucessivas vagas de calor e temperaturas extremamente elevadas, o território continental português beneficiou de uma circulação atmosférica que manteve o ar mais fresco, especialmente nas regiões costeiras. Contudo, esse padrão está prestes a alterar-se.
Sexta-feira ainda será marcada por temperaturas abaixo do normal
Para esta sexta-feira, mantém-se a influência da denominada “frescura atlântica”, responsável por manter as temperaturas abaixo da média climatológica para esta altura do ano.
Segundo a análise meteorológica, as anomalias térmicas continuam negativas, situando-se entre 1 e 3 graus Celsius abaixo dos valores habituais para julho. Mesmo nas zonas tradicionalmente mais quentes, as temperaturas máximas deverão permanecer abaixo da barreira dos 35 ºC.
No litoral continental, as máximas deverão oscilar entre os 19 ºC e os 28 ºC, enquanto no interior são esperados valores entre os 28 ºC e os 34 ºC, mantendo um ambiente significativamente mais fresco do que aquele registado em vastas regiões da Europa Ocidental e mediterrânica.
Porque Portugal tem escapado ao calor extremo
A explicação para este comportamento atmosférico encontra-se na persistência de depressões isoladas em altitude — vulgarmente conhecidas como bolsas de ar frio — posicionadas a oeste da Península Ibérica.
Ao longo das últimas semanas, estas depressões têm permanecido praticamente estacionárias, condicionando a circulação atmosférica e favorecendo a entrada de massas de ar tropical marítimo provenientes do Atlântico para Portugal continental.
Em simultâneo, esta mesma configuração atmosférica tem empurrado o ar extremamente quente e seco oriundo do Norte de África para a metade oriental da Península Ibérica e para vários países banhados pelo Mediterrâneo, nomeadamente Espanha, França e Itália.
Os especialistas explicam que a posição destas bolsas de ar frio é determinante para a distribuição das massas de ar. Quando permanecem mais a leste, Portugal beneficia da influência marítima, enquanto o calor intenso se concentra sobretudo nas regiões mediterrânicas. Pelo contrário, quando estas depressões se deslocam para oeste, aumenta significativamente a probabilidade de episódios de calor intenso em território nacional.
Atlântico, nortada e upwelling ajudam a conter o calor
Além da circulação atmosférica, existem outros fatores que têm contribuído para manter Portugal relativamente fresco.
A influência direta do oceano Atlântico, a habitual nortada de verão e o fenómeno de upwelling — que consiste na subida de águas frias das camadas profundas do oceano para a superfície — têm desempenhado um papel importante, sobretudo ao longo da faixa litoral.
Esta combinação impede que o aquecimento seja tão acentuado como acontece em regiões mais afastadas do mar.
Mesmo nas zonas do interior, habitualmente mais quentes durante o verão, a reduzida largura do território português — cerca de 200 quilómetros entre a costa e a fronteira em muitos pontos — permite que a influência marítima continue a moderar as temperaturas.
É precisamente este conjunto de fatores que explica o contraste térmico observado nas últimas semanas entre Portugal continental e regiões como o leste de Espanha, o sul de França, as Baleares, a Córsega, a Sardenha ou diversas zonas de Itália, onde o calor tem atingido valores bastante superiores.
Mudança começa já no sábado
A previsão aponta, contudo, para uma alteração gradual deste padrão atmosférico durante o fim de semana.
No sábado, dia 18 de julho, deverá iniciar-se uma subida das temperaturas, embora ainda relativamente moderada.
O aquecimento será mais evidente nas regiões do interior, enquanto o litoral continuará a beneficiar da proximidade ao Atlântico, mantendo temperaturas mais agradáveis.
Ainda assim, os modelos meteorológicos indicam que o aumento da temperatura será o primeiro sinal de uma mudança mais significativa prevista para o dia seguinte.
Domingo poderá voltar a trazer temperaturas entre 35 ºC e 40 ºC
Será no domingo, dia 19 de julho, que a subida das temperaturas se fará sentir com maior intensidade.
As previsões apontam para máximas entre os 35 ºC e os 40 ºC em diversas regiões do país, especialmente nos vales do Douro e do Guadiana, na Beira Alta, na Beira Baixa, em grande parte do Alentejo e também no Sotavento Algarvio.
O interior Norte e o Algarve destacam-se como as zonas onde as temperaturas deverão apresentar os desvios mais significativos face aos valores habituais para esta época do ano.
Os mapas de anomalia térmica apontam para valores entre 2 e 4 graus acima da média climatológica, podendo atingir localmente desvios entre 5 e 6 graus no interior Norte e chegar aos 9 graus acima do normal em alguns pontos do Algarve.
Nem todo o país aquecerá da mesma forma
Apesar da subida generalizada das temperaturas, nem todas as regiões sentirão o calor da mesma maneira.
A faixa costeira ocidental continuará relativamente protegida pela influência marítima.
Em particular, o litoral Norte, entre Viana do Castelo e Ovar, deverá manter temperaturas inferiores às registadas no restante território, continuando a apresentar condições mais frescas do que o habitual para esta altura do verão.
Nova configuração atmosférica explica o regresso do calor
A mudança prevista para o fim de semana resulta da alteração da circulação atmosférica que dominou as últimas semanas.
A bolsa de ar frio responsável pela entrada de ar marítimo deverá afastar-se gradualmente, permitindo o fortalecimento de uma crista anticiclónica sobre o Atlântico Norte.
Ao mesmo tempo, uma massa de ar mais quente e seca aproximar-se-á de Portugal continental, proveniente do interior da Península Ibérica e alimentada, numa fase inicial, por ar quente oriundo do Norte de África.
Esta nova configuração favorecerá um aumento progressivo das temperaturas, sobretudo no interior do país, marcando o fim do período em que Portugal funcionou como um verdadeiro “oásis” de frescura face ao calor extremo sentido em grande parte da Europa.














