Portugal com números de Itália e de Espanha? «Há essa possibilidade», admite infecciologista do Curry Cabral

O director do serviço de Infecciologia do Curry Cabral considera que o isolamento rigoroso será fundamental para tentar evitar que aconteça em Portugal o mesmo que em países como Itália e Espanha, onde o número de mortos e infectados continua.

Executive Digest

O director do serviço de Infecciologia do Curry Cabral considerou, em entrevista ao “Observador”, que o isolamento rigoroso será fundamental para tentar evitar que aconteça em Portugal o mesmo que em países como Itália e Espanha, onde o número de mortos e infectados continua. Contudo, «há essa possibilidade, claro», admite Fernando Maltez.

No Curry Cabral, diz, não há falta de material ou de profissionais de saúde, para já, mas o médico antecipa problemas, lembrando que não é fácil encontrar infecciologistas disponíveis e que as equipas estão a ficar cansadas. Além disso, um agravamento da situação colocaria problemas sobretudo no tratamento dos casos mais graves, que precisem de cuidados intensivos e ventiladores. «Portugal não estará imune a isso. Se se mantiver a taxa de internamentos como aconteceu na Lombardia, em Itália, pelos menos 12 países da União Europeia vão ver colapsar as suas unidades de cuidados intensivos — Portugal incluído», avisou Fernando Maltez.

«Estamos a responder aumentando a nossa capacidade de internamento, quer em enfermaria comum quer em internamento em cuidados intensivos. Estamos a alargar o número de camas, prevenindo a necessidade de internar um número crescente de doentes, criando condições de albergar e acomodar esses doentes. Temos pavilhões já de reserva para mais doentes: temos aqui um pavilhão já vazio com capacidade para 36 camas e vamos ter também, nos próximos dias, outro pavilhão com capacidade para mais 40 camas», indicou Fernando Maltez.

«Espero bem que estas medidas não venham a ser necessárias, sinceramente espero bem que não sejam necessárias, mas duvido», afirmou, referindo-se às  últimas previsões, que apontavam para um pico da epidemia para 14, 15 ou 16 de Abril. «Esperemos que, até lá, consigamos dar resposta às necessidades e que não precisemos deste número tão elevado de camas.»

No hospital Curry Cabral, «temos um outro serviço que também já está completamente esvaziado onde podemos alojar mais 40 doentes e podemos ir até, na melhor ou na pior das hipóteses, até às 300 camas. Além disso, temos também em vista cerca de 26 tendas de campanha que nos vão dar uma capacidade para mais de 200 camas, num projecto da Ordem dos Cavaleiros da Cruz de Malta, que nos vai permitir alojar esses doentes ao abrigo da intempérie dentro do Campo Pequeno», acrescentou.

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Fernando Maltez revelou também que estão a fazer uma média de 200 testes por 24 horas, mas que «estes números têm obrigatoriamente de crescer», pois «cada vez temos de rastrear mais».

O especialista defendeu ainda que as medidas de contenção já implementadas podem ter um efeito positivo no controlo da pandemia, mas critica a forma como algumas foram aplicadas, nomeadamente a cerca sanitária imposta em Ovar ou as excepções para «quebrar» o isolamento voluntário pedido a todos os portugueses. «A introdução dessas medidas no nosso país foi feita de uma forma atempada, mas com deficiências. Eu diria até que foram tomadas de uma forma mais precoce do que aquilo que aconteceu noutros países da Europa, nomeadamente a Itália ou até mesmo em Espanha. Nós introduzimos e introduzimos na altura certa», disse, embora sublinhando que isso não invalida que «muitas destas medidas, na sua eficácia e na sua rentabilidade, sejam questionáveis».

«As pessoas têm autorização para sair de casa para ir ao supermercado, mas, se em vez de irem uma vez forem três vezes por semana, deixa de fazer sentido», exemplificou.

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