A ilha de Grande Tunb, uma pequena extensão de território localizada junto ao Estreito de Ormuz, voltou ao centro das atenções internacionais depois de ter sido alvo de uma nova vaga de ataques norte-americanos contra posições militares iranianas. Apesar da sua reduzida dimensão, especialistas consideram-na uma das localizações mais sensíveis de todo o Golfo Pérsico, devido ao papel que desempenha no controlo de uma das rotas marítimas mais importantes para o comércio mundial de energia.
A Grande Tunb integra um conjunto de ilhas que o Irão considera fundamentais para garantir a sua capacidade defensiva no Estreito de Ormuz. A ilha é administrada por Teerão desde 1971, mas continua a ser reivindicada pelos Emirados Árabes Unidos (EAU), constituindo um dos litígios territoriais mais antigos da região.
Uma ilha pequena com enorme importância estratégica
Grande Tunb situa-se praticamente à entrada do Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde, em tempos normais, circula cerca de um quinto de todo o petróleo e gás natural transportado por via marítima no mundo.
A sua posição permite vigiar uma das passagens marítimas mais estreitas e estratégicas do planeta, tornando-a essencial tanto para operações militares como para a proteção — ou eventual bloqueio — das rotas comerciais internacionais.
Investigadores da Universidade Sun Yat-sen, na China, identificam Grande Tunb como parte da “principal defesa” iraniana do Estreito de Ormuz. No mesmo grupo incluem ainda as ilhas de Abu Musa, Pequena Tunb, Hengam, Qeshm, Larak e Ormuz, formando uma rede de posições consideradas essenciais para o controlo da região.
As autoridades iranianas chegaram mesmo a descrever estas ilhas como os “porta-aviões estacionários e inafundáveis” da República Islâmica, sublinhando o seu valor estratégico para a projeção de poder no Golfo.
O reforço militar iraniano
Nos últimos anos, Teerão reforçou significativamente a presença militar nestas ilhas.
Em 2025, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) anunciou oficialmente o reforço das capacidades militares em Abu Musa, Grande Tunb e Pequena Tunb, medida divulgada pelos meios de comunicação estatais iranianos.
Este reforço incluiu o aumento da presença de tropas, equipamentos militares e sistemas defensivos destinados a proteger o estreito e responder a eventuais operações militares dos Estados Unidos ou dos seus aliados.
Porque atacaram os Estados Unidos Grande Tunb?
O Comando Central das Forças Armadas norte-americanas (CENTCOM) confirmou ter realizado uma operação aérea com cerca de 90 minutos de duração contra posições militares iranianas na ilha.
Segundo Washington, os ataques tiveram como objetivo destruir instalações militares, posições defensivas e sistemas de mísseis utilizados pelo Irão para ameaçar a navegação comercial no Estreito de Ormuz.
Num comunicado, o CENTCOM afirmou que a operação “reduziu ainda mais a capacidade do Irão para atacar o transporte marítimo comercial no Estreito de Ormuz”.
Os ataques inserem-se numa campanha militar mais ampla que os Estados Unidos intensificaram após vários ataques iranianos contra embarcações que atravessavam esta importante rota marítima.
O Estreito de Ormuz volta a ser o centro da crise
Os confrontos mais recentes demonstram que o Estreito de Ormuz voltou a transformar-se no principal palco da escalada militar entre Washington e Teerão.
Os Estados Unidos tinham imposto um bloqueio naval ao Irão em abril, suspendendo-o posteriormente na sequência de um acordo temporário que estabeleceu uma trégua de 60 dias destinada a permitir negociações sobre o programa nuclear iraniano.
Contudo, essas negociações acabaram por estagnar e os confrontos em torno da navegação no estreito reacenderam-se.
Perante os novos ataques, Washington voltou a restabelecer o bloqueio e ampliou as operações militares contra infraestruturas iranianas.
O Irão ameaça bloquear todas as exportações energéticas
A resposta iraniana foi igualmente dura.
A Guarda Revolucionária Islâmica advertiu que poderá impedir toda a exportação de petróleo e gás do Médio Oriente caso o bloqueio norte-americano se mantenha.
“A exportação de petróleo e gás da região será para todos ou para ninguém”, declarou a IRGC.
Esta ameaça aumenta significativamente os receios sobre uma interrupção dos mercados energéticos internacionais, dado que o Estreito de Ormuz continua a ser o principal corredor de exportação para vários dos maiores produtores mundiais de petróleo.
Escalada militar em vários países da região
A operação contra Grande Tunb ocorreu num contexto de crescente intensificação dos ataques entre os dois países.
Segundo as autoridades iranianas, os bombardeamentos norte-americanos atingiram vários alvos militares no país, incluindo instalações do Exército iraniano, provocando pelo menos sete mortos numa unidade militar e mais de 260 feridos em diferentes ataques registados durante a noite.
Ao mesmo tempo, o Irão lançou novos ataques com mísseis contra países do Golfo que acolhem bases militares norte-americanas.
Bahrein e Kuwait ativaram alertas de defesa aérea devido aos mísseis iranianos, enquanto a Jordânia anunciou ter intercetado três projéteis lançados por Teerão.
O Comando Central norte-americano indicou igualmente que o Irão disparou dezenas de mísseis e drones contra países vizinhos que acolhem forças militares dos Estados Unidos.
Trump ameaça novos ataques
O Presidente norte-americano Donald Trump afirmou que novas operações militares poderão ocorrer nos próximos dias caso o Irão não retome as negociações.
Numa entrevista à Fox News, Trump advertiu que pontes, centrais elétricas e outras infraestruturas poderão ser alvo de ataques caso Teerão mantenha a atual postura.
“É melhor fazerem um acordo ou não vos restará praticamente nada”, declarou.
Em resposta, o embaixador iraniano nas Nações Unidas, Amir Saeid Iravani, acusou Washington de ser o verdadeiro agressor.
“Os Estados Unidos são o agressor, não a vítima”, escreveu numa comunicação dirigida ao secretário-geral da ONU, segundo a agência estatal iraniana IRNA.
Porque é que Grande Tunb poderá continuar no centro da guerra?
Para além da sua importância militar, Grande Tunb representa uma peça-chave no equilíbrio estratégico entre o Irão e os seus adversários.
Quem controla esta ilha dispõe de uma posição privilegiada para vigiar e, potencialmente, condicionar a circulação de navios comerciais e militares numa das principais artérias do comércio mundial.
Especialistas consideram que qualquer escalada envolvendo Grande Tunb aumenta significativamente o risco de perturbações no abastecimento energético global.
O Fundo Monetário Internacional alertou entretanto que a margem existente para amortecer novos choques petrolíferos diminuiu consideravelmente, uma vez que parte das reservas mundiais já foi utilizada para compensar crises anteriores.
Ao mesmo tempo, mediadores internacionais continuam a tentar aproximar Washington e Teerão da mesa das negociações. Contudo, com os ataques à ilha de Grande Tunb e a crescente militarização do Estreito de Ormuz, o risco de uma nova escalada regional permanece elevado, numa zona considerada uma das mais sensíveis para a segurança energética mundial.














