Imaginem que alguém inventa um novo tipo de tecido que nunca fica sujo e que dura para sempre. É tão durável que é preciso cortá-lo com um maçarico e tão resistente a manchas que nem se consegue tingir. Isso representaria um salto gigantesco para a humanidade? E estaria a humanidade pronta para esse mesmo salto? São precisamente essas as questões que estão no centro de um filme sofisticado chamado “O homem do fato branco”. Este clássico de 1951, apresentado no auge dos Ealing Studios da Grã-Bretanha, é protagonizado por Alec Guinness numa sátira fantástica. Mas também é uma parábola profunda sobre os riscos da inovação, as dificuldades em acomodar mudanças e a natureza revolucionária da tecnologia. Todos os líderes de negócios devem vê-lo e como cada minuto dele é divertido, não há desculpa para não o ver.
O filme ainda pode cativar uma nova geração, pelo menos no Reino Unido, graças à atenção dada ao mesmo por causa de uma adaptação teatral que estará em cena até 11 de Janeiro no Wyndham’s Theatre, no West End de Londres.
A versão cinematográfica de “O homem do fato branco” conta a história de Sidney Stratton, interpretado por Alec Guinness (talvez mais conhecido pelo público mais jovem como Obi-Wan Kenobi em “Star Wars”) como um indivíduo brilhante e excêntrico que abandona a Universidade de Cambridge com uma ideia gigante. Depois de saltar de uma empresa têxtil para outra, chega finalmente aos têxteis Birnley, numa cidade industrial perto de Manchester. Lá, como em outros lugares, os gestores consideraram-no um incómodo – até a sua causa ser defendida por Daphne Birnley (Joan Greenwood), a filha glamorosa e perspicaz de um dos líderes, que finalmente consegue convencer o pai de que Sidney tem uma boa ideia.
Com acesso ao tipo de laboratório e recursos que apenas um grande player pode oferecer, Sidney persevera através de uma série de explosões experimentais aterradoras para produzir o notável tecido novo, que é cortado (sem nenhum esforço) e transformado num fato branco radiante para o seu inventor. O efeito é um pouco como uma versão de corpo inteiro da luva branca de Michael Jackson. Praticamente brilha no escuro, captando a pureza da noção que o jovem inventor tem de si mesmo.
«Parece que o fato é que o veste a si», afirma Daphne quando a vê.
«Ainda é um pouco luminoso”, admite Sidney. “Mas há-de desvanecer.»
«Oh, não.»
«Não?»
«Não, faz com que pareça um cavaleiro andante. É isso que você é.»
O pai de Daphne antecipa que a invenção traga grandes lucros. Mas Daphne, que partilha o idealismo de Sidney, assume que será um benefício para a humanidade, libertando as pessoas da pobreza e da sujidade. «O mundo inteiro irá agradecer-te», exclama.
Bem, nem por isso. Quando os líderes do poderoso sindicato dos trabalhadores têxteis descobrem o novo produto, reconhecem imediatamente que seria o fim do trabalho de todos. «Isso é adorável», diz um. «Seis meses de trabalho e será o fim. Todas as empresas têxteis do país serão fechadas.»
Contudo, os trabalhadores não são os únicos com uma forte consciência de classe. Depois de o noivo de Daphne, que dirige uma fábrica concorrente, soar o alarme nos círculos do sector, o Birnley mais velho recebe uma visita do velho, mas formidável, Sir John Kierlaw, um aristocrata diante do qual até os mais poderosos do têxtil tremem. Trabalhando em conjunto, os líderes da indústria mostram-se tão determinados como o sindicato para anular a nova invenção – algo que ambos os lados sabem que só acontecerá se anularem o seu inventor.
O filme é engraçado, mas não podemos ignorar as muitas coisas que nos diz sobre tecnologia e sociedade. Primeiro, há a poderosa ideia do inovador que se vê a si mesmo como uma fonte de iluminação para os desventurados. Não lhe ocorre que alguém veja um fato indestrutível como algo prejudicial. É tão ingênuo que, como diz um dos trabalhadores sindicais, «ainda nem nasceu».
Sidney rapidamente abre os olhos, mas o seu idealismo persiste. Não aceita dinheiro para reprimir a sua descoberta, nem mesmo quando parece ser a única forma de conquistar Daphne. Sidney quer sucesso, é claro, mas quer principalmente melhorar o mundo – e talvez acima de tudo, satisfazer a sua curiosidade intelectual. Simboliza a tenacidade e a autoconfiança indispensáveis para todos os inovadores radicais.
Essas qualidades ajudam-nos a fechar os olhos para o facto perturbador de que uma enorme quantidade de inovação cria vencidos e vencedores. Transformar esses vencidos em vencedores – geralmente noutro ramo de actividade – não é tarefa fácil e pode ser uma possibilidade apenas para os seus descendentes. De facto, uma nova tecnologia pode não ser adoptada se os possíveis vencidos reconhecerem que o serão. Em muitos casos, são mais visíveis, mais vocais e estão mais motivados para se organizarem do que aqueles que podem ganhar com uma inovação.
Carl Benedikt Frey, co-director do Programa de Tecnologia e Emprego Oxford Martin, tem algumas coisas interessantes a dizer sobre isso no seu novo livro, “The Technology Trap: Capital, Labour and Power in the Automation”:
«Quando grandes áreas da população são deixadas para trás pelas mudanças tecnológicas, provavelmente resistirão a isso», escreve, exactamente como os trabalhadores fizeram em “O homem do fato branco”. E o seu sucesso depende do poder político que têm. Em certos casos, os trabalhadores tiveram sucesso, ou pelo menos tiveram-no por muito tempo. Uma máquina para levantar as fibras do tecido foi proibida na Grã-Bretanha em 1551 e, em 1589, Elizabeth I não concedeu a patente de uma máquina de tricotar. No século seguinte, algumas cidades europeias proibiram teares automáticos.
De facto, Carl Benedikt Frey escreve: «Antes do final do século XIX, a resistência às tecnologias que ameaçavam as competências dos trabalhadores era a regra e não a excepção.» Os luditas são conhecidos como trabalhadores têxteis que partiam máquinas no início do século XIX na Grã-Bretanha, mas «foram apenas parte de uma longa vaga de tumultos que varreram não só a Europa como a China».
Como a maioria dos britânicos da época, os luditas não podiam votar, porque o voto exigia o direito à propriedade. Portanto, não tinham o poder político que lhes poderia ter dado mais sucesso. «De facto», explica Carl Benedikt Frey, «o governo britânico foi o primeiro a ficar ao lado dos pioneiros do sector, em vez de subverter os trabalhadores, fornecendo uma explicação para o motivo pelo qual a Grã-Bretanha foi o primeiro país a industrializar-se.»
De que foma é que isso é relevante actualmente? Bem, a tecnologia e, particularmente, a inteligência artificial ameaçam mais uma vez os trabalhadores qualificados. «Como houve uma reacção populista contra a globalização», escreve o autor, «devemos ficar preocupados que os populistas também possam, de maneira fácil e eficaz, explorar a crescente ansiedade em relação à automatização.» A globalização e a tecnologia, é claro, andam de mãos dadas.
Os empregadores não devem sentir-se ameaçados por uma nova tecnologia que pode eliminar a necessidade de trabalhadores humanos. Mas poderiam preocupar-se, isso sim, caso esta viesse a eliminar completamente o seu sector, como parecia provável em “O homem do fato branco”. É por isso que, no filme, eles unem-se, na pior forma de um capitalismo selvagem, para tentar acabar de vez com o novo tecido milagroso. E negam freneticamente os rumores da invenção, que surgiram no jornal e que esmagaram os preços das acções. Antes de o filme terminar, Sidney vê que a sua invenção ameaça um vasto ecossistema comercial, desde os executivos das casas mais grandiosas até à senhora que lava a roupa. «Porque é que os cientistas não deixam as coisas em paz?», pergunta ela, melancolicamente. «O que acontece ao meu emprego quando não há roupa para lavar?»
A incrível riqueza do mundo moderno, já para não falar dos mecanismos sociais modernos, deve-se em grande parte à tecnologia. O desafio para os Sidney Strattons, líderes empresariais e políticos dos dias de hoje é encontrar formas de a inovação continuar a aumentar o trabalho humano, em vez de apenas tomar o seu lugar. Terão também de reconhecer que a inovação produz não apenas vencedores, mas alguns vencidos com mau perder. E, graças em parte a tecnologias como as redes sociais, os descartáveis da inovação estão mais poderosos do que nunca.













