A declaração da OMS (Organização Mundial de Saúde) de que o surto de mpox, com origem na República Democrática do Congo, sobre a variante mais perigosa da doença (clade I), se tornou uma emergência global de saúde, com casos confirmados entre crianças e adultos de mais de uma dezena de países e uma nova variante em circulação, fez despertar no mundo uma sensação assustadora de ‘déjà-vu’ – há pouco mais de quatro anos, a mesma agência descreveu a Covid-19 como a emergência de saúde “mais grave” de sempre.
Por isso, é fácil ceder à tentação de associar as duas patologias: no entanto, é importante lembrar que estamos a falar de duas doenças diferentes – o mpox não é outra Covid-19. Porquê?
O Mpox e o SARS-CoV-2 são tipos diferentes de vírus
Isto pode parecer óbvio, mas é um bom ponto de partida. O mpox e o SARS-CoV-2, o agente causador da Covid-19, pertencem a duas famílias de vírus muito diferentes. O SARS-CoV-2 é um coronavírus, uma grande família de vírus que, na sua maioria, causa apenas doenças ligeiras, semelhantes à constipação, nos humanos, mas o SARS-CoV-2 junta-se a dois outros que podem causar doenças muito mais graves: o SARS-CoV, o vírus SARS original, e o MERS-CoV, que causa a síndrome respiratório do Médio Oriente (MERS).
O SARS-CoV-2 é um vírus com um genoma de RNA de cadeia simples. Codifica apenas um pequeno número de proteínas e são necessárias apenas quatro para manter a estrutura do vírus. Uma delas é a proteína spike, que se tornou famosa nos últimos anos como o meio através do qual o vírus obtém acesso às nossas células. A proteína spike é também o principal alvo das vacinas de mRNA que alteraram o curso da pandemia da Covid-19.
O mpox, por outro lado, é um poxvírus. A sua estrutura interna é bastante diferente da dos coronavírus: os seus genomas são de ADN de cadeia dupla, com uma complexidade muito maior. Têm também um invólucro externo, mas possui um grande número de proteínas que podem permitir que entrem em vários tipos de células.
A Covid-19 apanhou o mundo de surpresa, no entanto a humanidade tem muito mais experiência em lidar com poxvírus: a varíola continua a ser a única doença humana completamente erradicada, graças às vacinas, mas costumava matar milhões de pessoas todos os anos. Felizmente, nenhuma variante de mpox que já tenhamos visto tem algo semelhante a este tipo de taxa de letalidade.
O mpox e o SARS-CoV-2 são transmitidos de forma diferente
Como seria de esperar, estes dois tipos muito diferentes de vírus também se propagam de formas distintas. Apesar de se lidar com o SARS-CoV-2 há um tempo relativamente curto, a compreensão de como se propaga tem-se desenvolvido conforme se descobre a melhor forma de responder à ameaça.
Quase cinco anos depois, já se sabe muito mais sobre a forma como a Covid-19 se espalha – pode permanecer no ar e ser transmitida a distâncias maiores do que inicialmente se pensava. A ventilação e filtragem do ar são hoje elementos importantes na estratégia de mitigação da Covid-19.
Já o mpox propaga-se através do contacto próximo com uma pessoa infetada, o que inclui o contacto sexual, e ocasionalmente através de objetos e superfícies contaminadas. Pode-se ser considerado infeccioso até que todas as feridas de mpox estejam completamente curadas, mas o vírus pode persistir nas superfícies durante algum tempo se não forem desinfetadas.
O mpox e a SARS-CoV-2 causam doenças muito diferentes
São doenças muito diferentes, com perfis de risco distintos, sendo importante que as autoridades de saúde respondam a cada uma delas de forma adequada.
Os cientistas aprendem mais todos os dias sobre o que o vírus SARS-CoV-2 faz quando entra no corpo, a forma como afeta vários sistemas orgânicos, o que ajuda a explicar a grande variedade de sintomas que as pessoas apresentam. Mas ainda há muitas perguntas por responder e o trabalho dos cientistas nos próximos anos vai trazer outra luz sobre o impacto do vírus.
O mpox existe há mais tempo e, por isso, há uma melhor compreensão de como funciona. O vírus pode entrar no organismo através da boca, nariz ou através de fissuras na pele. Este ponto de entrada é conhecido como local de inoculação, e o vírus começa a replicar-se aqui antes de se espalhar para os gânglios linfáticos. Ganha acesso aos outros órgãos através do sistema linfático, durante um período de incubação que pode durar até 21 dias em alguns casos.
Os sintomas iniciais incluem, geralmente, febre, dor de cabeça e dores musculares – bastante difíceis de definir como mpox. Dura alguns dias antes de começarem a aparecer erupções cutâneas características, como lesões que podem afetar qualquer área da pele e também o interior da boca e da garganta. As bolhas podem causar comichão ou dor e persistir até quatro semanas.
Existem atualmente duas vacinas aprovadas para o mpox e as autoridades estão a tentar fornecer mais doses às regiões mais afetadas. As mensagens de saúde pública que expliquem quem está em risco e como as pessoas elegíveis podem ter acesso a uma vacina são também fundamentais.
O diretor regional da OMS para a Europa, Hans Kluge, explicou recentemente que, desta vez, existem muitas ferramentas necessárias para impedir a propagação do mpox – até porque se experienciou um surto que afetou dezenas de países, embora com uma variante menos letal do vírus, a partir de 2022.
“Há dois anos, controlámos o mpox na Europa graças ao envolvimento direto com as comunidades mais afetadas de homens que têm sexo com homens”, referiu Kluge. “Podemos e devemos enfrentar o mpox juntos – em todas as regiões e continentes.”
Conclusão: o mpox não é a Covid-19. Mas isso não significa que possamos ou devamos ignorar as lições que o SARS-CoV-2 nos ensinou à medida que se mobiliza contra a mais recente ameaça à saúde pública global.
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