O cenário ocorre um pouco por todo o lado, a uma velocidade nunca vista: cada vez mais casais preferem ter animais domésticos em vez de filhos. Em Espanha, conta o El Mundo, o número de animais de estimação nos lares já é o dobro do número de crianças. De acordo com os dados oficiais, em 2021, haviam 6.265.153 crianças com menos de 14 anos, enquanto o número de animais registados era de cerca de 13 milhões. Há meia dúzia de dias, o diário brasileiro Globo também dava conta dos números apurados no país: nas casas com cães, mais de 20 por cento são de casais sem filhos; nas casas com gatos, o valor sobe até aos 25 por cento.
O tema foi elevado a questão de ordem mundial no início do ano quando o Papa Francisco acusou os casais de egoísmo por preferirem adotar um cão ou um gato em vez de terem filhos. “Há dias, falei sobre o inverno demográfico que há atualmente: as pessoas não querem ter filhos, ou apenas um e nada mais. E muitos casais não têm filhos porque não querem, ou têm só um porque não querem outros, mas têm dois cães, dois gatos… Pois é, cães e gatos ocupam o lugar dos filhos. Sim, faz rir, entendo, mas é a realidade”, disse. “Esta negação da paternidade e da maternidade diminui-nos, cancela a nossa humanidade”.
Mas foi um discurso que, pelo menos por cá, não ficou sem resposta. Segundo fez logo questão de assinalar Inês Sousa Real, do PAN, “há muitas famílias em processos dolorosos para engravidar e não conseguem”, disse, citada pela CNN Portugal. “Adotar um cão ou um gato é sempre um ato de amor. É lamentável ouvir um Papa lamentar um ato de amor”.
Essa é, por exemplo, também a perspetiva de Isabel e Luís, que contaram a sua história ao El Mundo. Há já seis anos que abriram as portas do lar a Winnie, um cachorro que lhes despertou, sublinham, um amor incondicional pelos cães. “Recebemo-lo com quatro meses. Nenhum de nós alguma vez tinha tido um cão. Sempre gostei muito de animais, mas tinha algum receio. Mas assim que nos aproximámos, todos os receios simplesmente desapareceram. E agora somos mesmo loucos por animais”, relata Isabel.
O encantamento foi de tal forma, assumem, que há três meses decidiram alargar a família. Foi quando chegou a Happy, uma boston terrier. “Foram decisões muito bem ponderadas. Pode parecer exagerado, mas creo que foi a melhor resolução das nossas vidas. Fazem-me sentir tremendamente feliz e querida.” Para Luís, tal como para Isabel, Winnie e Happy, não são animais de estimação. “São a nossa família. Adoramos fazer planos com eles e vão connosco a todo o lado. Só não os metemos num avião, porque sabemos que não iam desfrutar da viagem”.
Em Portugal, segundo apontava a consultora GfK há um par de anos, havia já 7 por cento dos portugueses a tratar os seus animais de estimação como filhos. Mais recentemente, um estudo da Faculdade de Medicina Veterinária, divulgado num debate do Fronteiras XXI, na Fundação Francisco Manuel dos Santos, assegurava que, nos lares portugueses, já há mais animais de companhia do que crianças. Ali tanto veterinários como investigadores assumiram que havia cada vez mais “uma humanização sem paralelo destes animais”.
Além disso, o próprio país se tornou cada vez mais pet-friendly, com todo um mercado só para eles: do vestuário às creches e hotéis. Só com os seus animais, e isto são números do final de 2019, só com os seus animais as famílias já gastam em média 12 % do orçamento familiar. Já Espanha deu, no final do verão passado, mais um passo, ao aprovar uma lei que determina que os animais passam a ser considerados como filhos em caso de divórcio.







