Por onde vão os nossos filhos?

Por Clara Raposo, Dean do ISEG

Os mais velhos e os mais cultos recordar-se-ão de um marcante livro de 1969, do destacado economista Francisco Pereira de Moura, com o sugestivo título “por onde vai a economia portuguesa?”, uma publicação Dom Quixote, o primeiro número da colecção estudos portugueses.

Este ex-aluno e professor catedrático dá hoje o seu nome à biblioteca do ISEG, que recorda assim uma abordagem modernizadora do ensino da economia em Portugal. Curiosamente, não deixa de ser uma obra com actualidade. A vida mudou muito desde então, mas, na essência, talvez não tanto assim. Mantêm-se desafios no que diz respeito à competitividade de Portugal. Juntando-se os da competitividade da Europa num mundo mais globalizado.

Estas linhas resultam de uma reflexão, ou até preocupação, pessoal acerca dos destinos das minhas filhas, dos meus alunos, dos filhos dos executivos e executivas que lêem este texto. Talvez, por ser o mês do Natal, esteja um pouco mais sentimental; mas quando vejo os vossos filhos de partida, pergunto-me se não é esse o caminho por onde vai aquela parte da “economia” portuguesa de que gostamos a sério, se não estamos a deixar escapar-nos aquilo que mais nos interessa?

Foi a propósito do título que dei a esta coluna do(a) conselheiro(a), que me lembrei deste livro do Pereira de Moura, mais antigo do que eu. Por onde? Uma coisa é quererem dar umas voltas pelo mundo, ganhar alguma experiência internacional, mas outra é quererem ir viver para outro sítio sem perspectiva ou objectivo de regresso, ponto final… O recente estudo da FFMS sobre “Os jovens em Portugal, hoje” revela que quase um terço da população entre os 15 e os 34 anos diz que quer emigrar e muitos mais ainda parecem estar disponíveis para o fazer.

Acho que nos devemos perguntar porquê. Como este não é um artigo científico, vou ser mais especulativa do que me é habitual. Mas começo por reconhecer todos os argumentos do costume: a economia cheia de PME que não recrutam em grande quantidade “jovens qualificados de elevado potencial”, a repetida “falta de ambição dos portugueses em Portugal”, os baixos salários por comparação com outros países, a fiscalidade sobre os rendimentos do trabalho que assusta os jovens (e, talvez mais ainda, os seus progenitores). Lá está, o costume. O fado.

Faz sentido, portanto, encontrarmos mais argumentos que nos ajudem a ver todos os lados da realidade. Eu, pelo menos, tento encontrar argumentos para convencer alguns a ficarem…

Existem dados que nos vão indicando quais as empresas que mais exportam, são mais produtivas e pagam maiores salários. Um estudo liderado pelo meu colega Luís Catão indica que as empresas para quem as exportações têm peso acima de 10% da facturação tendem a ser maiores (mais de cinco vezes), são significativamente mais produtivas e pagam remunerações- -hora quase 50% acima das outras. Ganhar dimensão parece ser um factor determinante para afirmação de negócios mais inovadores e competitivos à escala mundial. Algumas existem – convém dizê-lo aos nossos filhos.

Também, nesta última década, o surgimento de umas tantas ideias em Portugal que se tornaram unicórnios é evidência de que é possível ser empreendedor e trabalhar em negócios inovadores. Convém dizê-lo aos nossos filhos. Se, depois, crescer e financiar estas empresas noutra escala implicou saída para outros mercados, é um assunto em que temos de pensar a seguir. E com boas cabeças para nos ajudarem – como as dos nossos filhos. Sem estas pessoas, qualificadas num sistema de ensino com bons padrões internacionais, vai ser mais difícil melhorarmos.

No contexto europeu, quando olhamos para os dados do DESI (The Digital Economy Society Index) em 2021 vemos que Portugal está a par da média da União Europeia, talvez surpreendentemente com um bom índice de digitalização dos serviços públicos e com espaço para melhorar, especialmente no que diz respeito a integração de tecnologia digital e a capital humano. Os números estão longe de ser desastrosos em termos comparativos – e comparamo-nos com a União Europeia, o espaço económico onde melhor se vive no mundo, o que não deixa de ser ambicioso (mesmo que estejamos sempre com medo que acabe, há que contrariar isso). Temos de continuar a tentar.

Pensando mais globalmente, quando analisamos o Global Innovation Index de 2021 que cobre cerca de 130 economias, encontramos Portugal classificado na posição 31. Um grande 31! Claro que gostaríamos que fosse na primeira posição. Mas, por outro lado, há que salientar aos nossos filhos que estamos na invejável categoria de país de Rendimento Alto e que o nosso Produto per capita (PPP) de cerca de 33 mil dólares é modesto no contexto europeu, mas quase o dobro do da China. Observando a decomposição do índice, verificamos que Portugal fica melhor classificado nas vertentes Instituições, Capital Humano e Investigação (em particular, Educação), Conhecimento, Outputs com Criatividade e Infra-estruturas. Curiosamente, onde os nossos números ficam aquém é nas áreas de Sofisticação dos Negócios (“Business”) e dos Mercados, salientando em particular a baixa percentagem de capitalização bolsista face ao PIB. Há espaço para melhorar e duvido que o consigamos sem ser com gente mais nova que seja mais protagonista e menos espectadora – os nossos filhos?

Caríssimos leitores, o que vou escrever agora pode doer um bocadinho. Para vos ser sincera, acho que a forma (e mea culpa faço) de nos expressarmos acerca das nossas vidas, do nosso trabalho e do nosso país, faz com que os nossos filhos não queiram ser como nós e não queiram viver perto de nós. A nossa geração tem muitos pais “chatos” e pessimistas, talvez. Como dizia o outro, em tom de libertação, “deslarga-me!” (ou “deslargue-me!”, consoante o estilo).

Portanto, a abordagem que proponho é outra, mais equilibrada – sem mentiras, mas também com verdades boas. Eles conhecem os defeitos todos do país, de tanto os apregoarmos. Eles já sabem que o clima é bom, que a segurança tem sido um ponto forte e sabem que a vacinação tem batido recordes. Mas precisam de saber mais coisas. Dei pequenos exemplos lá em cima. E se os nossos filhos têm excelente educação, são a geração mais qualificada e tudo isso, que isso não seja razão para os tratarmos como se fossem crianças eternas, “os miúdos” adultos. Creio que teria detestado ter sido tratada assim pelos meus pais, infantilizada em idade adulta. Tal como nós próprios, os nossos filhos têm de estar preparados para arregaçarem as mangas e se lançarem à vida com uma boa atitude – com os seus sonhos, claro, mas com o espírito de sacrifício que trabalhar (e viver) implica. Nota: não me refiro a voluntariados e afins, neste caso, refiro-me mesmo a trabalho, a business.

Para que isso não possa acontecer apenas longe de Portugal, sem nós estarmos a vê-los, temos de mudar mais do que as reformas estruturais. Temos de saber sair do caminho quando chegamos a uma certa idade, abrir espaço e oportunidades. Os nossos filhos são capazes. Temos de saber pagar mais a quem vai ser mais produtivo. E, claro, temos de ser exigentes com eles.

Por isso, meus caros, por onde vão os nossos filhos? Eles vão por onde quiserem, por onde, livremente, quiserem. E desejo que sejam muito felizes e realizados. Mas espero que não vão para longe só para não nos ouvirem ou por acharem que não os ouvimos a eles de igual para igual…

E, como é Natal, se estiverem com os vossos filhos, abracem-nos bem e que isso não signifique só saudade.

Este artigo foi publicado na edição de Dezembro de 2021 da revista Executive Digest.

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