A pressão para abandonar roupas feitas de poliéster e optar exclusivamente por fibras naturais está a ganhar força nas redes sociais, onde milhares de utilizadores promovem peças em algodão, linho, seda ou lã como alternativas mais saudáveis e sustentáveis. No entanto, especialistas em têxteis, sustentabilidade e ciência dos materiais alertam que a discussão está longe de ser tão simples quanto muitos conteúdos online fazem parecer.
Segundo especialistas ouvidos pelo HuffPost, embora o poliéster seja efetivamente um derivado de plástico e apresente problemas ambientais reais, fibras naturais como o algodão também têm impactos significativos, sobretudo no consumo de água, pesticidas e exploração intensiva de recursos.
Poliéster é plástico… e domina a indústria têxtil
A designer têxtil Meagan Phipps explicou que o poliéster é produzido a partir de um plástico comum conhecido como tereftalato de polietileno, ou PET.
Segundo a especialista, os fabricantes derretem pequenos fragmentos de PET e transformam-nos em fibras através de um processo industrial semelhante ao funcionamento de um chuveiro, permitindo criar materiais que imitam algodão ou outras fibras naturais.
Essas fibras acabam depois transformadas em vestidos, camisolas, roupa desportiva e grande parte dos produtos vendidos atualmente pela indústria da moda.
Meagan Phipps destacou ainda que o poliéster é atualmente a fibra mais produzida no mundo. Só em 2024 terão sido produzidas cerca de 77 milhões de toneladas.
‘Fast fashion’ impulsionou o consumo massivo de poliéster
Para a especialista, é impossível discutir poliéster sem abordar simultaneamente o crescimento da fast fashion e do consumo excessivo de roupa.
Segundo Phipps, o baixo custo do poliéster tornou normal comprar peças descartáveis para usar apenas uma ou poucas vezes, como vestidos para eventos específicos ou tops para saídas ocasionais.
A designer sublinhou que a lógica económica da fast fashion depende precisamente de preços reduzidos, incentivando compras constantes e acelerando o consumo de vestuário.
Segundo Phipps, a guerra no Irão e o encerramento do Estreito de Ormuz estão a ameaçar a acessibilidade do poliéster, devido às dificuldades e ao aumento dos custos no acesso aos petroquímicos necessários para a sua produção.
Roupa descartada permanece séculos em aterros
As consequências ambientais do consumo acelerado de roupa são uma das principais preocupações levantadas pelos especialistas.
Segundo os dados citados pela especialista, cerca de 66% das roupas e têxteis descartados acabam em aterros sanitários. Meagan Phipps alertou que o poliéster demora mais de 300 anos a biodegradar naturalmente.
Além disso, tanto fibras sintéticas como naturais podem libertar gases com efeito de estufa quando se degradam em aterros. O problema agrava-se em peças tratadas com químicos resistentes ao suor ou às manchas, que podem libertar substâncias poluentes para o ar e para a água.
A esecialista refere ainda que estudos indicam que populações residentes perto de aterros apresentam maior probabilidade de desenvolver problemas de saúde como asma ou cancro.
Algodão também tem forte impacto ambiental
Apesar da crescente preferência por fibras naturais nas redes sociais, os especialistas alertam que o algodão convencional também está longe de ser ambientalmente neutro.
Segundo Meagan Phipps, o algodão é a segunda fibra mais produzida globalmente, com cerca de 24 milhões de toneladas fabricadas em 2024.
A especialista explicou que o algodão convencional foi geneticamente modificado ao longo do tempo para aumentar produtividade, melhorar a cor branca das fibras e maximizar rendimentos agrícolas.
Contudo, essas alterações tornaram a cultura altamente dependente de irrigação intensiva e pesticidas. A produção do algodão necessário para um único par de jeans pode consumir entre 7.500 e 10 mil litros de água — o equivalente à água potável necessária para uma pessoa durante cerca de dez anos.
Produção de algodão afeta comunidades e recursos hídricos
Meagan Phipps salientou que muitas regiões produtoras de algodão enfrentam já dificuldades de acesso a água potável, agravadas pela enorme procura hídrica da cultura.
Além do elevado consumo de água, o uso intensivo de pesticidas pode contaminar solos e reservas de água locais, afetando diretamente comunidades que dependem desses recursos.
Segundo a especialista, algumas empresas e consumidores estão a apostar cada vez mais em algodão orgânico ou produzido com práticas agrícolas consideradas mais sustentáveis e adaptadas ao ambiente local.
Ainda assim, estas alternativas continuam frequentemente mais caras e menos acessíveis para muitas famílias.
Roupa sustentável nem sempre é financeiramente acessível
A química cosmética Kelly Dobos alertou que o debate sobre sustentabilidade na moda deve ter em conta fatores económicos e sociais.
Segundo a especialista, comprar roupa feita de fibras naturais de elevada qualidade, assim como suportar os custos de manutenção e limpeza associados, nem sempre é possível para todos os consumidores.
Dobos sugeriu que peças produzidas com misturas de algodão orgânico e fibras sintéticas podem representar uma solução intermédia mais acessível.
A especialista sublinhou ainda que a sustentabilidade de uma peça não depende apenas de ser natural ou sintética, mas também de fatores como práticas agrícolas, consumo de água, durabilidade da roupa e tempo de utilização.
Poliéster continua popular por ser resistente e barato
Apesar das críticas, os especialistas reconhecem que o poliéster apresenta vantagens práticas que explicam a sua enorme popularidade desde os anos 1950.
Kelly Dobos explicou que o material ganhou notoriedade por ser resistente a rugas, fácil de lavar e menos suscetível a manchas.
Segundo a especialista, o poliéster é hidrofóbico, ou seja, repele água, o que ajuda a preservar o aspeto da roupa durante mais tempo.
Ainda, o custo reduzido torna-o acessível a consumidores de diferentes níveis de rendimento.
Meagan Phipps acrescentou, contudo, que consumidores que investem mais dinheiro em peças de fibras naturais tendem também a cuidar melhor dessas roupas, aumentando potencialmente a sua durabilidade.
Microplásticos continuam a preocupar cientistas
Um dos temas mais debatidos nas redes sociais em torno do poliéster são os microplásticos.
Meagan Phipps explicou que sempre que roupa de poliéster é lavada, pequenas partículas plásticas acabam libertadas para o ambiente.
A especialista comparou mesmo o poliéster aos plásticos descartáveis, considerando que ambos partilham implicações ambientais semelhantes.
Segundo refere, já existem iniciativas para tornar o poliéster mais sustentável, incluindo fibras biodegradáveis e tecidos produzidos a partir de plástico reciclado recolhido nos oceanos.
Kelly Dobos recorda, porém, que os microplásticos têm múltiplas origens além da roupa e que a ciência continua a investigar os seus efeitos reais na saúde humana.
Ciência ainda não confirma impacto direto dos microplásticos na saúde
Embora partículas de microplásticos já tenham sido encontradas no cérebro, fígado e sangue humano, os especialistas dizem que continua a existir debate científico sobre o impacto concreto dessas substâncias no organismo.
Alguns estudos apontam para possíveis associações entre níveis elevados de microplásticos e maior risco de AVC ou ataque cardíaco.
Contudo, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA) afirma que a evidência científica atual não demonstra que os níveis de microplásticos presentes nos alimentos representem um risco comprovado para a saúde humana.
Algumas publicações nas redes sociais associam o poliéster a cancro, infertilidade ou alterações hormonais, mas o toxicologista médico Ryan Marino afirmou à NPR que essas alegações não estão comprovadas.
Segundo o especialista, a quantidade de exposição a potenciais substâncias cancerígenas através da roupa será provavelmente demasiado baixa para causar problemas.
Os especialistas defendem uma abordagem mais equilibrada ao consumo de vestuário.
Kelly Dobos afirmou que não gosta de ver consumidores serem criticados ou envergonhados pelas suas escolhas de roupa, sublinhando que fatores financeiros, estilo de vida e preferências pessoais têm peso nas decisões de compra.
Os especialistas consideram que qualquer mudança em direção a hábitos mais sustentáveis pode ser positiva, incluindo comprar roupa em segunda mão, optar por poliéster reciclado ou prolongar o tempo de utilização das peças já existentes.
A compra de roupa usada é apontada como uma das estratégias mais eficazes para reduzir a procura por novos produtos e evitar que toneladas de têxteis acabem descartadas em aterros sanitários.









