Quando vai terminar a crise económica em que vivemos? A resposta já foi avançada por diversos ‘especialistas’, que avançaram com previsões do que o que nos espera. O problema é que uma memória atenta consegue entender que foram mais as previsões erradas do que as que se revelaram acertadas.
De acordo com o jornal espanhol ‘El Mundo’, nenhum dos acontecimentos importantes dos últimos 100 anos, tenham sido guerras, crises ou mudanças radicais na política de um país, foi previsto por qualquer especialista.
Recuemos à Europa meses antes da eclosão da Grande Guerra Mundial: um prestigiado analista político inglês, Henry N. Norman, publicou um artigo, no início de 1914, no ‘Manchester Guardian’: “Acredito que não haverá mais guerras entre as seis grandes potências.” Três anos antes, o eminente historiado britânico George Peabody Gooch escrevera que “as guerras entre nações civilizadas tornaram-se tão antiquadas como os duelos”. Já com o conflito mundial em curso, ainda assim não haver motivo para desespero: HG Wells afirmou que “seria a guerra para acabar com todas as guerras”, ao passo que no ‘The Economist’ leu-se que “era impossível que as hostilidades continuassem por muitos meses”.
Após a II Guerra Mundial, os ‘erros’ de análise sucederam-se: nenhum demógrafo previu o famoso ‘baby boom’ e os economistas não conseguiram ver o tremendo dinamismo que impulsionou a economia. Pelo contrário, estavam convencidos do contrário: previam que a desmobilização provocasse uma enorme massa de população desempregada. Apesar das previsões de que o período pós-guerra seria o pior de todos os mundos possíveis, acabou por ser uma época de ouro.
Outros exemplos: confrontado com a fome prevista na década de 1970, o consumo global de calorias aumentou 24% entre 1961 e 2000. Em 1967, surgiram dois best-sellers: um do biólogo da Universidade de Stanford, Paul Ehrlich, (‘A bomba populacional’), que garantiu: “Perdemos a batalha para alimentar a humanidade. Na década de 1970, vão morrer de fome centenas de milhões de pessoas.” No outro, de William e Paul Paddock, o título que dizia tudo: ‘Fome 1975! A decisão da América: quem sobreviverá?’ Já na prestigiada revista científica ‘Science’, o biólogo James Bonner escrever: “Todos os estudiosos sérios concordam que a fome é inevitável nas nações subdesenvolvidas.”
Os cientistas da RAND Corporation, um think tank americano que, entre outras coisas, realiza análises científicas e de políticas científicas, ficaram conhecidos por diversas ‘joias’: em meados do século XX, os seus especialistas afirmaram que em 2000 haveria pisciculturas subaquáticas, uma base lunar permanente e que teríamos chegado a Marte. Em 1967, Herman Kahn e Anthony J. Wiener, fundadores do think tank ‘Instituto Hudson’, publicaram o que seria a bíblia de referência para quem quisesse fazer previsão tecnológica: ‘O Ano 2000: Uma estrutura para especulação sobre os próximos 33 anos’, onde fizeram uma centena de previsões sobre o nosso futuro tecnológico – entre as quais bombas nucleares usadas na mineração, luas artificiais a iluminar as noites e colónias permanentes no fundo do oceano.
Em particular destaque estão as previsões catastróficas, que felizmente foram evitadas: em 1972, o livro ‘Os Limites do Crescimento’, da responsabilidade da organização privada chamada ‘Clube de Roma’ e com dados do prestigiado MIT, era um relatório sobre a sustentabilidade ao longo prazo do planeta Terra. Para isso, desenvolveram um programa de computador ‘World3’ para prever como a população, a economia e a pegada ecológica iam evoluir aos longo dos próximos 100 anos com base nos dados disponíveis.
O livro previu que o fim da civilização estava marcado para meados do século XXI. “Entre 2040 e 2050, a vida civilizada como a conhecemos deixará de existir.” O ponto de viragem, segundo este modelo, seria 2020. “Por volta desse ano, a condição do planeta tornar-se-á extremamente crítica”, avisou o estudo.
Por falar em ambiente, o documentário ‘Uma Verdade Inconveniente’, de Al Gore, tinha previsões de fazer estremecer: subida de seis metros do nível do mar, derretimento total do Polo Sul em 2016, ou a paralisação de um dos grandes termóstatos do planeta, a Corrente do Golfo.
Um estudo recente confirmou, de forma inquestionável, que o especialista que aparece na comunicação social tende a ser o menos correto. Mesmo assim, olhamos com reverência para as suas palavras. Qual é a razão? A psicologia diz-nos que se deve em parte à nossa aversão à incerteza: gostamos de saber o que o futuro nos trará. Admitir que não se sabe causa preocupação, mal-estar e, por vezes, angústia.
Quer um exemplo? A publicação ‘The Economist’, em 1984, pediu a 16 especialistas, entre ex-ministros, presidentes de multinacionais, estudantes de economia e quatro sem-abrigo, as suas previsões sobre o ritmo do crescimento económico, taxas de inflação e preços do petróleo bruto. Uma década depois, os editores reviram as previsões e descobriram que tinham sido, no mínimo inúteis. Curiosamente, os que mais falharam foram os ex-ministros da Economia.
Uma experiência, dirigida por Philip Tetlock entre 1984 e 2003, permitiu que fossem recrutados 284 especialistas entre cientistas políticos, economistas e jornalistas conhecidos pelo seu trabalho como conselheiros. Durante anos este grupo respondeu às perguntas de Tetlock, com as quais recolheu 27.450 julgamentos sobre o futuro. Anos volvidos, as conclusões não podiam estar mais erradas. Sobretudo entre quem aparece mais na televisão, com pouca margem de acerto. A experiência revelou mesmo que aqueles que menos confiança tinham nas suas previsões foram quem m ais acertaram.














