Podemos confiar na opinião dos especialistas? Recorde algumas das previsões mais ‘erradas’ em alguns dos maiores eventos mundiais

De acordo com o jornal espanhol ‘El Mundo’, nenhum dos acontecimentos importantes dos últimos 100 anos, tenham sido guerras, crises ou mudanças radicais na política de um país, foi previsto por qualquer especialista

Francisco Laranjeira
Setembro 25, 2023
15:39

Quando vai terminar a crise económica em que vivemos? A resposta já foi avançada por diversos ‘especialistas’, que avançaram com previsões do que o que nos espera. O problema é que uma memória atenta consegue entender que foram mais as previsões erradas do que as que se revelaram acertadas.

De acordo com o jornal espanhol ‘El Mundo’, nenhum dos acontecimentos importantes dos últimos 100 anos, tenham sido guerras, crises ou mudanças radicais na política de um país, foi previsto por qualquer especialista.

Recuemos à Europa meses antes da eclosão da Grande Guerra Mundial: um prestigiado analista político inglês, Henry N. Norman, publicou um artigo, no início de 1914, no ‘Manchester Guardian’: “Acredito que não haverá mais guerras entre as seis grandes potências.” Três anos antes, o eminente historiado britânico George Peabody Gooch escrevera que “as guerras entre nações civilizadas tornaram-se tão antiquadas como os duelos”. Já com o conflito mundial em curso, ainda assim não haver motivo para desespero: HG Wells afirmou que “seria a guerra para acabar com todas as guerras”, ao passo que no ‘The Economist’ leu-se que “era impossível que as hostilidades continuassem por muitos meses”.

Após a II Guerra Mundial, os ‘erros’ de análise sucederam-se: nenhum demógrafo previu o famoso ‘baby boom’ e os economistas não conseguiram ver o tremendo dinamismo que impulsionou a economia. Pelo contrário, estavam convencidos do contrário: previam que a desmobilização provocasse uma enorme massa de população desempregada. Apesar das previsões de que o período pós-guerra seria o pior de todos os mundos possíveis, acabou por ser uma época de ouro.

Outros exemplos: confrontado com a fome prevista na década de 1970, o consumo global de calorias aumentou 24% entre 1961 e 2000. Em 1967, surgiram dois best-sellers: um do biólogo da Universidade de Stanford, Paul Ehrlich, (‘A bomba populacional’), que garantiu: “Perdemos a batalha para alimentar a humanidade. Na década de 1970, vão morrer de fome centenas de milhões de pessoas.” No outro, de William e Paul Paddock, o título que dizia tudo: ‘Fome 1975! A decisão da América: quem sobreviverá?’ Já na prestigiada revista científica ‘Science’, o biólogo James Bonner escrever: “Todos os estudiosos sérios concordam que a fome é inevitável nas nações subdesenvolvidas.”

Os cientistas da RAND Corporation, um think tank americano que, entre outras coisas, realiza análises científicas e de políticas científicas, ficaram conhecidos por diversas ‘joias’: em meados do século XX, os seus especialistas afirmaram que em 2000 haveria pisciculturas subaquáticas, uma base lunar permanente e que teríamos chegado a Marte. Em 1967, Herman Kahn e Anthony J. Wiener, fundadores do think tank ‘Instituto Hudson’, publicaram o que seria a bíblia de referência para quem quisesse fazer previsão tecnológica: ‘O Ano 2000: Uma estrutura para especulação sobre os próximos 33 anos’, onde fizeram uma centena de previsões sobre o nosso futuro tecnológico – entre as quais bombas nucleares usadas na mineração, luas artificiais a iluminar as noites e colónias permanentes no fundo do oceano.

Em particular destaque estão as previsões catastróficas, que felizmente foram evitadas: em 1972, o livro ‘Os Limites do Crescimento’, da responsabilidade da organização privada chamada ‘Clube de Roma’ e com dados do prestigiado MIT, era um relatório sobre a sustentabilidade ao longo prazo do planeta Terra. Para isso, desenvolveram um programa de computador ‘World3’ para prever como a população, a economia e a pegada ecológica iam evoluir aos longo dos próximos 100 anos com base nos dados disponíveis.

O livro previu que o fim da civilização estava marcado para meados do século XXI. “Entre 2040 e 2050, a vida civilizada como a conhecemos deixará de existir.” O ponto de viragem, segundo este modelo, seria 2020. “Por volta desse ano, a condição do planeta tornar-se-á extremamente crítica”, avisou o estudo.

Por falar em ambiente, o documentário ‘Uma Verdade Inconveniente’, de Al Gore, tinha previsões de fazer estremecer: subida de seis metros do nível do mar, derretimento total do Polo Sul em 2016, ou a paralisação de um dos grandes termóstatos do planeta, a Corrente do Golfo.

Um estudo recente confirmou, de forma inquestionável, que o especialista que aparece na comunicação social tende a ser o menos correto. Mesmo assim, olhamos com reverência para as suas palavras. Qual é a razão? A psicologia diz-nos que se deve em parte à nossa aversão à incerteza: gostamos de saber o que o futuro nos trará. Admitir que não se sabe causa preocupação, mal-estar e, por vezes, angústia.

Quer um exemplo? A publicação ‘The Economist’, em 1984, pediu a 16 especialistas, entre ex-ministros, presidentes de multinacionais, estudantes de economia e quatro sem-abrigo, as suas previsões sobre o ritmo do crescimento económico, taxas de inflação e preços do petróleo bruto. Uma década depois, os editores reviram as previsões e descobriram que tinham sido, no mínimo inúteis. Curiosamente, os que mais falharam foram os ex-ministros da Economia.

Uma experiência, dirigida por Philip Tetlock entre 1984 e 2003, permitiu que fossem recrutados 284 especialistas entre cientistas políticos, economistas e jornalistas conhecidos pelo seu trabalho como conselheiros. Durante anos este grupo respondeu às perguntas de Tetlock, com as quais recolheu 27.450 julgamentos sobre o futuro. Anos volvidos, as conclusões não podiam estar mais erradas. Sobretudo entre quem aparece mais na televisão, com pouca margem de acerto. A experiência revelou mesmo que aqueles que menos confiança tinham nas suas previsões foram quem m ais acertaram.

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