Pode deixar de haver chefes? “Apocalipse” do emprego causado pela IA muda de alvo

Cresce entre empresas tecnológicas a convicção de que muitos níveis de gestão intermédia poderão deixar de ser necessários, à medida que sistemas de inteligência artificial passam a coordenar equipas, distribuir tarefas e acompanhar resultados

Francisco Laranjeira

Durante anos, o debate sobre inteligência artificial centrou-se nos empregos administrativos, funções repetitivas ou tarefas técnicas de entrada. Mas a nova frente de risco pode surpreender: a IA está a subir na hierarquia e começa a ameaçar cargos de chefia intermédia.

Segundo o ‘El Economista’, cresce entre empresas tecnológicas a convicção de que muitos níveis de gestão intermédia poderão deixar de ser necessários, à medida que sistemas de inteligência artificial passam a coordenar equipas, distribuir tarefas e acompanhar resultados.

O alvo já não é só a base da empresa

A mensagem que sai do Silicon Valley é clara: um nível permanente de gestão intermédia pode tornar-se dispensável.

Em vez de supervisores, coordenadores e gestores dedicados a reuniões, alinhamentos internos e controlo operacional, várias empresas defendem modelos em que a IA assume essas funções de organização.

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Isto inclui processos como definição de prioridades, circulação de informação, monitorização de desempenho e articulação entre equipas.

Empresas já começaram a cortar

O fenómeno já não está apenas no campo teórico.

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Grandes tecnológicas como Amazon, Meta e Oracle anunciaram vagas de despedimentos associadas à automação e à procura de maior eficiência operacional.

Mas um dos exemplos mais simbólicos foi Jack Dorsey, cofundador do Twitter e líder da Block, empresa de pagamentos digitais.

Dorsey anunciou o despedimento de 4.000 trabalhadores, cerca de 40% da força laboral, defendendo que parte do trabalho pode ser substituído por inteligência artificial.

Novo modelo elimina gestores intermédios

Num texto conjunto com Roelof Botha, ex-dirigente da Sequoia Capital, Dorsey questiona o modelo clássico de empresa hierárquica.

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A proposta passa por três níveis principais.

O primeiro seriam colaboradores especializados em tarefas concretas, orientados diretamente por sistemas de IA.

O segundo seriam responsáveis por projetos ou problemas específicos.

O terceiro seriam os chamados “jogadores-treinadores”, profissionais que acumulam produção e liderança de equipas, substituindo o gestor intermédio tradicional.

Toda a coordenação geral seria feita por sistemas inteligentes.

No topo ficam CEO e liderança estratégica

Neste modelo, o topo da empresa mantém-se.

CEO e direção continuam a tomar decisões estratégicas, mas com informação mais rápida, organizada e tratada por IA.

Ou seja, a tecnologia não elimina toda a chefia — elimina sobretudo os níveis intermédios entre base operacional e administração.

Porque isto preocupa o mercado de trabalho

Os gestores intermédios representam uma fatia relevante do emprego qualificado em muitas economias.

Além de funções de supervisão, são tradicionalmente a principal ponte para progressão de carreira dentro das empresas.

Se desaparecerem, milhares de profissionais poderão enfrentar requalificação, despromoção salarial ou bloqueio na ascensão interna.

O futuro pode chegar depressa

Dorsey admite que o modelo ainda está numa fase inicial. Mas o ritmo acelerado da IA faz crescer a convicção de que estas mudanças podem espalhar-se rapidamente do setor tecnológico para banca, indústria, retalho e serviços.

Durante anos perguntou-se se a IA tiraria empregos aos trabalhadores de base.

Agora surge outra pergunta: e se começar pelos chefes?

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