Peste, fome e erupções vulcânicas: Ano de 536 foi o pior na história da humanidade, segundo historiadores

Misterioso nevoeiro cobriu a Europa, o Médio Oriente e outras partes da Ásia. Durante o dia, esse nevoeiro bloqueava o sol, fazendo com que as temperaturas caíssem, assim como as colheitas

Francisco Laranjeira

O ano de 2022 ainda mal começou mas não há dúvidas de que tem diversos obstáculos pela frente: uma enorme erupção vulcânica em Tonga, a perspetiva de uma guerra com a Rússia, a pandemia da Covid-19 e dificuldades económicas estão em ‘pleno vapor’. No entanto, apesar das dificuldades, está longe de ser o pior ano da história, segundo os historiadores: o ano 536 foi definido como o pior ano para se estar vivo.

No Egito, os registos bíblicos afirmam que a nona praga aconteceu e causou completa escuridão por mais de três dias. Mas isso é pouco comparado com o ano 536, no qual o mundo inteiro esteve coberto numa profunda escuridão por mais de 18 meses – um misterioso nevoeiro cobriu a Europa, o Médio Oriente e outras partes da Ásia. Durante o dia, esse nevoeiro bloqueava o sol, fazendo com que as temperaturas caíssem, assim como as colheitas – o que trouxe a fome.

o historiador bizantino Procópio escreveu naquele ano que “um presságio mais terrível ocorreu”. O senador romano Cassiodoro observou em 538 “[…] o sol parece ter perdido a sua luz habitual e aparece azulado. Maravilhamo-nos de não ver sombras de nossos corpos ao meio-dia e de sentir o vigor poderoso de seu calor esvair-se em fraqueza.” O sol emitia a sua luz sem brilho, como a lua, durante todo o ano – o nevoeiro que mergulhou o mundo fez com que a temperatura caísse entre 1,5 e 2,5°C, iniciando a década mais fria dos últimos 2.300 anos.

Em 541 a peste bubónica chegou ao Egito e matou cerca de um terço da população do império bizantino. Mesmo no distante Peru, as secas afligiram a cultura Moche até então florescente.

A análise ‘ultraprecisa’ do gelo num glaciar suíço, realizada pelo arqueólogo Michael McCormick e pelo glaciologista Paul Mayewski, do Instituto de Mudança Climática da Universidade do Maine, em Orono, nos Estados Unidos, tem sido a chave para entender o quão dura foi a mudança climática do ano 536.

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Uma nova técnica de ultra-alta resolução, no qual um laser esculpe lascas de gelo de 120 mícrons, permitiu à equipa de investigadores decifrar esse registo. Essas lascas de gelo conseguem representar apenas alguns dias ou semanas de queda de neve, juntamente com o comprimento do seu núcleo.

Andrei Kurbatov, vulcanologista, garantiu que cada uma das amostras é analisada para cerca de ua dúzia de elementos – a abordagem científica permitiu que a equipa de investigadores identificasse tempestades, erupções vulcânicas ou a poluição até um mês, ou menos, remontando a 2 mil anos.

A equipa relatou que uma erupção vulcânica catastrófica na Islândia expeliu cinzas por todo o Hemisfério Norte, seguido por duas outras erupções maciças, em 540 e 547, segundo relatou a revista ‘Science’. Michael McCormick frisou ter sido uma mudança bastante drástica, garantindo ter sido o início de um dos piores períodos para se estar vivo, se não mesmo o pior ano.

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