Pentágono nega ameaças ao Vaticano após críticas do Papa Leão XIV à guerra no Irão

O Pentágono negou esta quinta-feira que tenha ameaçado ou pressionado o Vaticano na sequência das críticas do Papa Leão XIV à intervenção militar dos Estados Unidos no Irão.

Pedro Zagacho Gonçalves

O Pentágono negou que tenha ameaçado ou pressionado o Vaticano na sequência das críticas do Papa Leão XIV à intervenção militar dos Estados Unidos no Irão. Em causa está uma notícia que dava conta de que o embaixador da Santa Sé em Washington teria sido alvo de uma “repreensão amarga” por parte de responsáveis norte-americanos devido às posições públicas do pontífice sobre a guerra.

Segundo essa informação, o cardeal Christophe Pierre, então representante diplomático do Vaticano nos Estados Unidos, teria sido chamado a uma reunião em Janeiro com o subsecretário da Defesa para a Política, Elbridge Colby, durante a qual lhe teria sido transmitido que Washington “tem o poder militar para fazer o que quiser — e que a Igreja faria melhor em alinhar-se”. A mesma notícia referia ainda que um responsável norte-americano evocou o período do Papado de Avinhão, no século XIV, quando a Coroa francesa exerceu domínio sobre a autoridade papal.

Tanto o Pentágono como a embaixada dos Estados Unidos junto da Santa Sé rejeitaram categoricamente essa versão dos acontecimentos. Numa publicação na rede social X, o Departamento de Defesa afirmou que a descrição do encontro é “altamente exagerada e distorcida”, sublinhando que se tratou de “uma discussão respeitosa e razoável” entre representantes das duas partes.

Segundo o Pentágono, na reunião foram abordados diversos temas, incluindo “questões de moralidade na política externa, a lógica da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, Europa, África, América Latina e outros assuntos”. Também a embaixada norte-americana no Vaticano citou o cardeal Pierre — entretanto aposentado — para garantir que o relato mediático “não reflete o que aconteceu”. O diplomata terá classificado o encontro como “franco, mas muito cordial” e um “encontro normal”.

O embaixador dos Estados Unidos junto da Santa Sé, Brian Burch, afirmou ter falado com Pierre na quarta-feira e assegurou que o cardeal “negou enfaticamente a caracterização feita pelos meios de comunicação social”.

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Já o vice-presidente norte-americano, JD Vance, questionado durante uma visita à Hungria, disse inicialmente não saber quem era Pierre, acabando por recordar que já se tinha reunido com ele. “Peço desculpa. Simplesmente não me lembrava do nome”, declarou, acrescentando que gostaria de falar com o cardeal e com responsáveis norte-americanos “para perceber exatamente o que aconteceu”, recusando comentar mais o caso.

As críticas do Papa Leão XIV à guerra no Irão
O Papa Leão XIV, o primeiro pontífice nascido nos Estados Unidos, tem sido uma voz crítica da atuação militar da Administração Trump no Irão. Num discurso em Janeiro, condenou o que designou como “diplomacia baseada na força”. Mais tarde, na bênção pascal, apelou aos que “têm o poder de desencadear guerras” para que “escolham a paz”.

Após os primeiros ataques norte-americanos ao Irão, a 28 de Fevereiro, o Papa classificou-os como “ilegais e imorais”. Na mensagem Urbi et Orbi do Domingo de Páscoa, referiu-se à guerra no Irão e ao conflito na Ucrânia, afirmando: “Que aqueles que têm armas as deponham. Que aqueles que têm o poder de desencadear guerras escolham a paz. Não uma paz imposta pela força, mas através do diálogo. Não com o desejo de dominar os outros, mas de os encontrar.”

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O pontífice lamentou ainda a indiferença perante “as mortes de milhares de pessoas (…) as repercussões do ódio e da divisão que os conflitos semeiam (e) as consequências económicas e sociais que produzem”. Depois de o Presidente Donald Trump ter ameaçado destruir a civilização iraniana, Leão XIV apelou aos cidadãos norte-americanos e a “todas as pessoas de boa vontade” para que pressionassem os seus representantes políticos a rejeitar a guerra e a trabalhar pela paz. “Hoje, como todos sabemos, houve esta ameaça contra todo o povo do Irão. Isto é verdadeiramente inaceitável”, afirmou, à saída da residência de Castel Gandolfo.

Visita aos Estados Unidos adiada
Entretanto, surgiram informações de que a Santa Sé teria ponderado e posteriormente adiado por tempo indeterminado uma visita papal aos Estados Unidos prevista para 2026, alegadamente devido a divergências em matéria de política externa e ao aumento da oposição de bispos norte-americanos às políticas da Administração Trump.

Em Fevereiro, o gabinete de imprensa do Vaticano declarou que “o Papa não irá aos Estados Unidos em 2026”. Posteriormente, a Santa Sé anunciou que Leão XIV deverá deslocar-se à ilha italiana de Lampedusa a 4 de Julho, data que assinala o 250.º aniversário da independência norte-americana. Lampedusa é um dos principais pontos de chegada de migrantes que atravessam o Mediterrâneo.

Já em Novembro de 2025, o Papa, natural de Chicago, tinha apelado a uma “reflexão profunda” sobre a forma como os migrantes são tratados nos Estados Unidos, numa outra crítica indireta às orientações políticas de Washington.

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