Pense duas vezes antes de pegar num alimento ultraprocessado: não só está a fazer mal à saúde como a destruir o planeta, alertam cientistas

Alimentos ultraprocessados ​​são um componente dominante da oferta de alimentos em países de alto rendimento, com uma tendência crescente nos países de baixo e médio rendimento

Francisco Laranjeira

Há um enorme desafio que o mundo enfrenta: é necessário criar alimentos de alta qualidade, diversificados e nutritivos o suficiente para alimentar a população crescente, mas fazê-lo dentro dos limites do nosso planeta, o que significa reduzir significativamente o impacto ambiental do sistema alimentar global.

Por exemplo, existem mais de 7 mil espécies de plantas comestíveis, no entanto, 90% da ingestão global de energia vem de 15 espécies de cultura, com mais de metade da população mundial dependente de apenas três culturas de cereais: arroz, milho e trigo.



A ascensão dos alimentos ultraprocessados está, provavelmente, a desempenhar um papel importante nessa mudança, segundo revelou um estudo recente – assim, reduzir o nosso consumo e produção desses alimentos oferece uma oportunidade única de melhorar a nossa saúde e a sustentabilidade ambiental do sistema alimentar.

A agricultura é um dos principais impulsionadores da mudança ambiental – é responsável por um terço de todas as emissões de gases de efeito estufa e cerca de 70% do uso de água. Também usa 38% da terra global e é o maior fator de perda de biodiversidade.

Mas as preocupações ambientais ligadas aos alimentos ultraprocessados têm sido menos consideradas, apesar do impacto desses alimentos na saúde humana estão bem descritos, o que se torna surpreendente: os alimentos ultraprocessados ​​são um componente dominante da oferta de alimentos em países de alto rendimento, com uma tendência crescente nos países de baixo e médio rendimento. O estudo, liderado por cientistas brasileiros, propõe que dietas cada vez mais globalizadas, ricas em alimentos ultraprocessados, prejudicam o cultivo, fabrico e o consumo de alimentos ‘tradicionais’.

Os alimentos ultraprocessados ​​são um grupo de alimentos definidos como “formulações de ingredientes, na sua maioria de uso industrial exclusivo, que resultam de uma série de processos industriais”. Normalmente contêm aditivos e pouco ou nenhum alimento integral: refrigerantes, batatas fritas, refeições pré-preparadas e fast-food.

Em contraste estão os alimentos “tradicionais” – como frutas, vegetais, grãos integrais, legumes em conserva, laticínios e produtos de carne – que são minimamente processados ​​ou feitos através de métodos tradicionais de processamento. Métodos como fermentação, enlatamento e engarrafamento são fundamentais para garantir a segurança alimentar mas os alimentos ultraprocessados, no entanto, são processados ​​além do necessário para a segurança alimentar.

Os alimentos ultraprocessados ​​também contam com um pequeno número de espécies cultivadas, o que sobrecarrega os ambientes em que esses ingredientes são cultivados. Milho, trigo, soja e oleaginosas (como o óleo de palma) são bons exemplos. Essas culturas são escolhidas pelos fabricantes de alimentos porque são baratas de produzir e de alto rendimento, o que significa que podem ser produzidas em grandes volumes. Além disso, os ingredientes de origem animal em alimentos ultraprocessados ​​são provenientes de animais que dependem dessas mesmas culturas como ração.

O aumento de alimentos ultraprocessados ​​convenientes e baratos substituiu uma grande variedade de alimentos integrais minimamente processados, incluindo frutas, vegetais, grãos, legumes, carne e laticínios, o que reduziu tanto a qualidade de nossa dieta quanto a diversidade da oferta de alimentos.

O impacto ambiental dos alimentos ultraprocessados ​​é evitável: esses alimentos não são apenas prejudiciais mas também desnecessários para a nutrição humana. Dietas ricas em alimentos ultraprocessados ​​estão associadas a maus resultados de saúde, incluindo doenças cardíacas, diabetes tipo 2, síndrome do intestino irritável, cancro e depressão, entre outros.

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