Peles de lontra, padres e 7,2 milhões de dólares: A história de como a Rússia vendeu o Alasca aos EUA

Em 1867, o império russo decidiu vender ao governo dos Estados Unidos um território remoto, gelado e, na altura, considerado de pouco valor estratégico: o Alasca.

Pedro Gonçalves
Agosto 17, 2025
9:30

Em 1867, o império russo decidiu vender ao governo dos Estados Unidos um território remoto, gelado e, na altura, considerado de pouco valor estratégico: o Alasca. O negócio, fechado por 7,2 milhões de dólares, foi visto por muitos como uma pechincha e, para outros, como um erro histórico. Mais de 150 anos depois, a transação continua a ser recordada como uma das grandes “oportunidades” da diplomacia mundial.

A história voltou à atualidade com a antecipada cimeira entre Donald Trump e Vladimir Putin, prevista para esta sexta-feira, num local carregado de simbolismo: o Alasca. A confusão gerada pelo próprio Trump, que na segunda-feira disse à televisão que iria encontrar-se com Putin “na Rússia”, poderia ter sido geograficamente correta — se estivesse a falar há mais de um século e meio, quando a região ainda era parte do império russo, com a cidade de Novo-Arkhangelsk (hoje Sitka) como capital regional.

De peles de lontra a catedrais ortodoxas

A presença russa no Alasca começou a meio do século XVIII, impulsionada não por exércitos, mas pelo comércio de peles de lontra-marinha, muito valorizadas na época. Por volta da década de 1780, a imperatriz Catarina, a Grande, autorizou a criação da Companhia Russo-Americana, que recebeu monopólio sobre o comércio e a administração do território.

Foi Alexander Baranov, comerciante e administrador implacável, que consolidou o domínio russo, expandindo os assentamentos e reprimindo violentamente a resistência das populações nativas, como os tlingit, que o apelidaram de “Sem Coração”. Acompanhando os colonos, missionários da Igreja Ortodoxa Russa ergueram templos, incluindo a Catedral de São Miguel, em Novo-Arkhangelsk, cujo domo verde ainda se destaca na paisagem de Sitka mais de 150 anos depois.

De ativo estratégico a fardo económico

A meio do século XIX, a Rússia começou a considerar o Alasca mais um encargo do que um ativo. Após a derrota humilhante na Guerra da Crimeia, o território tornou-se dispendioso de manter e abastecer, enquanto cresciam os receios face à expansão naval britânica no Pacífico.

Num carta de julho de 1867, Eduard de Stoeckl, embaixador russo em Washington e principal negociador do acordo, escreveu: “O meu tratado enfrentou forte oposição… mas isso deve-se ao facto de que ninguém em casa tem noção do verdadeiro estado das nossas colónias. Era simplesmente uma questão de as vender ou vê-las serem tomadas.”

O negócio permitiu à Rússia recuperar fundos, ganhar um aliado emergente do outro lado do Atlântico e evitar um confronto com o Reino Unido. Para os EUA, foi uma oportunidade de impedir novas ambições europeias na região e reforçar a sua presença no Pacífico.

Reações divididas e críticas mordazes

Apesar das vantagens estratégicas, a venda não foi unanimemente celebrada. Em São Petersburgo, muitos viram-na como mais uma humilhação imperial e criticaram o valor de 7,2 milhões de dólares como irrisório. O jornal liberal Golos lamentou a decisão, considerando que “o orgulho nacional foi sacrificado por meros seis ou sete milhões de dólares”.

Do outro lado do Pacífico, o secretário de Estado norte-americano, William H. Seward, foi ridicularizado por gastar, segundo críticos, uma soma excessiva num “deserto gelado”. O New-York Daily Tribune desdenhou a compra como “a posse nominal de desertos de neve intransitáveis”, alertando que “podemos fazer um tratado com a Rússia, mas não podemos fazer um tratado com o Vento Norte ou com o Rei da Neve”. O New York World, em 1 de abril de 1867, sugeriu mesmo que Moscovo teria apenas “passado gato por lebre”, vendendo um território já inútil para si.

De “erro” a jackpot

As críticas dissiparam-se rapidamente com as descobertas de ouro no final do século XIX e, décadas mais tarde, com a descoberta de vastas reservas de petróleo. O que fora apelidado de “loucura de Seward” tornou-se um dos territórios mais ricos em recursos dos EUA.

O preço baixo da venda ficou gravado na memória russa, sendo ocasionalmente evocado. Em 1974, quando os EUA protestaram contra o baixo preço pago pela URSS pelo trigo, o funcionário soviético Vladimir Alkimov respondeu com ironia: “O Alasca foi vendido por apenas 7 milhões.”

Na época, a venda abriu um breve período de aproximação entre Moscovo e Washington. O New York Herald destacou em 1867 “a importância da cessão do Alasca russo” e a disposição de Moscovo para aprofundar a sua “entente cordiale” com os EUA. O ponto alto dessa cordialidade ocorreu em 1871, quando o grão-duque Alexei Alexandrovich visitou Nova Iorque com uma esquadra naval, sendo recebido com desfiles, galas e honras cívicas.

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