A ausência de Viktor Orbán marcou a cimeira informal de líderes da União Europeia em Nicósia quase tanto como as decisões tomadas. O líder húngaro, derrotado nas eleições de 12 de abril depois de 16 anos no poder, não esteve presente numa reunião em que os 27 conseguiram desbloquear um empréstimo bilionário à Ucrânia e novas sanções contra a Rússia, num momento que ‘o El País’ descreve como um raro suspiro de alívio em Bruxelas.
A aprovação de um empréstimo de 90 mil milhões de euros para Kiev e de um novo pacote de sanções contra Moscovo foi também noticiada por outros órgãos europeus, depois de meses de bloqueio diplomático associado à Hungria.
A saída política de Orbán, até agora o membro mais antigo do Conselho Europeu, foi recebida por vários líderes como o fim de uma fase em que Budapeste usou repetidamente o veto para atrasar ou travar decisões sobre a Ucrânia. Formalmente, ainda foi Orbán quem retirou o veto ao empréstimo e às sanções, mas a sua ausência em Nicósia foi lida como o sinal mais visível de uma mudança de ciclo.
“Não havia russos na sala”
Donald Tusk não escondeu a satisfação. À chegada ao segundo dia da cimeira, o primeiro-ministro polaco afirmou que havia um “grande alívio” entre os líderes europeus porque, “pela primeira vez em anos, não havia russos na sala”. A frase foi dita em tom de brincadeira, mas poucos tiveram dúvidas sobre o alvo.
O momento ganhou ainda mais peso porque, nesse instante, passava por Tusk o primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, um dos aliados mais próximos de Orbán nas reuniões europeias. Questionado por um jornalista sobre se tinha a certeza de que deixaria de haver ‘espiões russos’ nas reuniões dos 27, Tusk sorriu, piscou o olho e apressou-se a dizer que estava a brincar.
A ironia, porém, expôs uma tensão real. Durante anos, o alinhamento de Orbán com Moscovo foi uma fonte permanente de irritação para Bruxelas, sobretudo depois da invasão russa da Ucrânia. O Governo húngaro tentou bloquear ou condicionar várias medidas de apoio a Kiev e de pressão sobre o Kremlin.
O fim de um veto que prendia a Europa
Para vários líderes europeus, a derrota de Orbán representa mais do que uma mudança interna na Hungria. Representa a possibilidade de a União Europeia deixar de ser travada por um só Estado-membro em decisões consideradas essenciais para a segurança europeia.
A primeira-ministra estónia, Kristen Michal, resumiu o sentimento ao afirmar que os líderes europeus foram mantidos “reféns” durante anos pelo uso constante do veto húngaro. “E isso acabou agora”, declarou.
O presidente lituano, Gitanas Nauseda, seguiu a mesma linha. Para o chefe de Estado, abre-se agora a possibilidade de o mecanismo de veto da UE deixar de ser “utilizado indevidamente” e de 26 países deixarem de ficar reféns de um único Governo.
O desbloqueio do apoio à Ucrânia parece confirmar essa leitura. A decisão aprovada pelos líderes europeus prevê um empréstimo de 90 mil milhões de euros a Kiev, destinado a cobrir necessidades financeiras e militares, ao mesmo tempo que a UE avança com novas sanções contra bancos, empresas energéticas e redes usadas para contornar as restrições impostas à Rússia.
A “missão de paz” que irritou Bruxelas
O ressentimento europeu em relação a Orbán não nasceu apenas dos vetos. Muitos líderes, sobretudo da Europa de Leste, nunca lhe perdoaram a viagem a Moscovo e Pequim em julho de 2024, no início da presidência rotativa húngara do Conselho da UE.
Orbán apresentou essa iniciativa como uma “missão de paz” sobre a Ucrânia, mas Bruxelas deixou claro que o primeiro-ministro húngaro não falava em nome da União Europeia. A iniciativa foi vista como uma manobra unilateral que enfraqueceu a posição comum europeia perante Vladimir Putin.
O facto de Orbán se ter afirmado também como um dos aliados europeus mais próximos de Donald Trump agravou o desconforto. Com o regresso de Trump à Casa Branca e as ameaças renovadas a aliados e parceiros europeus, a presença de Orbán no Conselho Europeu era vista por várias capitais como um problema político adicional.
Péter Magyar e a esperança de uma nova Hungria
A vitória de Péter Magyar nas eleições húngaras abriu uma janela de expectativa em Bruxelas. Muitas capitais europeias acreditam que o novo primeiro-ministro terá uma “atitude diferente”, sobretudo em temas como Estado de direito, direitos fundamentais e relação com a Rússia.
Donald Tusk apresentou a derrota de Orbán como uma prova de que o populismo pode ser vencido democraticamente. Para o primeiro-ministro polaco, a vitória de Magyar demonstra que há futuro para a Europa, para a democracia e para o Estado de direito, mesmo perante líderes fortes e sistemas marcados por corrupção.
Ainda assim, Bruxelas não espera uma relação sem atritos. Fontes europeias admitem que continuarão a existir questões difíceis com Budapeste, da migração aos direitos das minorias. A diferença é que, sem Orbán, a UE espera pelo menos um ambiente menos hostil e menos orientado para o bloqueio sistemático.
A euforia tem limites
Nem todos, contudo, embarcam no entusiasmo sem reservas. O primeiro-ministro belga, Bart de Wever, avisou que há “um pouco de euforia excessiva” com a saída de Orbán. O líder húngaro, reconheceu, foi muitas vezes um parceiro difícil, mas não impossível.
A advertência belga aponta para uma realidade incómoda: a visão política de Orbán não desapareceu da União Europeia com a sua derrota. Robert Fico continua no poder na Eslováquia, Andrej Babiš voltou a ganhar peso na República Checa e Rumen Radev, pró-Rússia e eurocético, poderá juntar-se em breve ao grupo se confirmar a vitória na Bulgária.
Ou seja, a saída de Orbán pode facilitar decisões sobre a Ucrânia e a Rússia, mas não elimina a presença de Governos ou líderes dispostos a contestar a linha dominante em Bruxelas. O próprio De Wever notou que seria exagerado dizer que a forma de pensar de Orbán existia apenas na Hungria.
Uma nova era ou apenas uma pausa?
O alívio sentido em Nicósia é real, mas a pergunta continua em aberto: a União Europeia entrou mesmo numa nova era ou apenas ganhou uma pausa num ciclo de bloqueios?
A resposta dependerá do novo Governo húngaro, mas também da capacidade dos 27 para manterem unidade num contexto cada vez mais difícil. A guerra na Ucrânia continua, a pressão russa mantém-se, a dependência energética de alguns países ainda condiciona decisões e a política interna europeia continua exposta à força dos partidos nacionalistas e eurocéticos.
Ainda assim, a cimeira de Nicósia deixou uma imagem poderosa: uma União Europeia que, pela primeira vez em muitos anos, conseguiu tomar decisões fundamentais sobre a Ucrânia sem Orbán sentado à mesa. Para Bruxelas, isso já é uma mudança. Para Kiev, pode ser muito mais do que isso.













