Pedro Carvalho, Tranquilidade: As maiores mudanças na Gestão em Portugal

1. Quais os grandes desafios ao nível da Gestão, nestes últimos 15 anos?

Nos últimos 15 anos assistimos a fortes oscilações na economia mundial e disrupções na forma como as empresas interagem com os seus clientes e demais stakeholders. Temos assistido a várias crises, a uma concorrência cada vez mais feroz entre empresas num contexto de globalização económica crescente (the winner takes it all), entre Estados (em particular com ascensão da China), bem como uma aposta na eficiência e qualidade alavancada na digitalização e na sustentabilidade.

Um ambiente económico volátil tem sido “o grande desafio” na gestão de empresas nas últimas duas décadas, em particular em Portugal em virtude de várias crises económico-financeiras, cada vez mais frequentes e prolongadas, ausência de convergência para a média da União Europeia, elevados níveis de endividamento público e privado, incapacidade de atrair investimento estrangeiro relevante e capacidade reduzida de inovação com valor acrescentado substancial quando comparado com outros países.

2. Que principais mudanças nas empresas, e no seu sector em particular?

No caso particular do sector segurador, ainda se contou com o desafio adicional da implementação do novo regime de solvência em 2016, que veio exigir cargas de capital adicionais, bastante significativas, porém essenciais para garantir a estabilidade do mercado que conseguiu resistir de forma bastante resiliente à anterior crise económica.

Este ambiente de volatilidade e incerteza tenderá a intensificar-se e a transformar-se num “novo normal”, com implicações directas e novos desafios à gestão diária e estratégica do sector empresarial, privado e público, onde:

  • A agilidade e flexibilidade serão essenciais para responder às necessidades de mercado e fomentar a inovação, garantindo uma maior resiliência em tempos de crise;
  • Uma comunicação clara, transparente e empática como factor crítico para fomentar a confiança do mercado;
  • O enfoque na Governação, Impacto Social e Sustentabilidade como base para o bom desempenho das empresas no longo-prazo;
  • Uma relação mais próxima e colaborativa entre os sectores público e privado é crucial para facilitar a implementação de políticas que fomentem a atracção do talento e do investimento necessário para promover a inovação e criação de alto valor acrescentado.

As mudanças no tecido empresarial em Portugal foram intensificadas no último ano por efeito da redução da mobilidade e crise pandémica. A aposta na digitalização e a proximidade aos clientes é cada vez mais um mantra, onde o online e rapidez nas transacções passou a fazer parte de quase todas as famílias e empresas.

O sector segurador, ainda visto como um sector tradicional, é um bom exemplo desta transformação. É um sector onde se tem assistido, nos últimos anos, a uma forte consolidação e a um investimento estrangeiro acentuado (como foi o caso da aquisição da Tranquilidade pelo grupo Generali), o que tem permitido não só ganhos de eficiência por economias de escala, como também uma maior capacidade de investimento em novas tecnologias, novos modelos organizacionais e um maior acesso a conhecimento e talento internacional que facilita a inovação, com benefícios significativos para os consumidores e mercado nacional.

Um bom exemplo da transformação nos seguros é a omnicalidade e criação de verdadeiros ecossistemas que têm vindo a surgir em Portugal. Se no passado comprar um seguro ou pagar um sinistro era complexo e sobretudo implicava uma interação física, hoje o mercado apresenta um conjunto de plataformas e meios digitais que facilitam a interacção com os seus segurados. Através dos websites e apps ou chatbot e WhatsApp, já é possível em muitos casos comprar um seguro ou até mesmo receber uma indemnização. É também cada vez mais visível um conjunto de parcerias entre seguradoras e outros sectores, como o da saúde, retalho, imobiliário, etc. criando verdadeiros ecossistemas e propostas de valor mais abrangentes, integradas e de fácil acesso ao consumidor final.

3. Em que medida é que a Executive Digest serviu de “ferramenta” para os gestores portugueses?

Aproveito esta oportunidade para felicitar a Executive Digest por estes 15 anos de sucesso e o seu papel relevante na comunicação sobre a gestão em Portugal, quer seja através dos seus artigos detalhados, como pelos exemplos inovadores de liderança sobre o que de melhor se faz por cá. Uma marca que se tem mostrado inovadora que, para além da tradicional revista, nos chega a todos através de múltiplas plataformas digitais dando voz à gestão nacional, seja através de conferências relevantes como através do CEO Talks.

Termino com uma frase conhecida de Steve Jobs sobre gestão e liderança, “It’s not about money. It’s about the people you have, and how you’re led”. Julgo que todos reconhecemos a importância em conseguir potenciar o enorme talento que as pessoas têm: somos capazes de fazer muito mais e muito melhor… A gestão deve focar-se na criação das condições para desenvolver o talento e liderar as pessoas no(s) caminho(s) certo(s).

Este artigo faz parte do Tema de Capa publicado na Revista Executive Digest n.º 181 de Abril de 2021

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