“Pediram-me para mostrar o gesto do abusador”: vítima denuncia interrogatório do Grupo VITA

Uma vítima de abusos sexuais na Igreja Católica portuguesa denuncia ter sido sujeita a duas horas de “pura inquisição” durante uma entrevista no âmbito do processo de compensação financeira às vítimas

Revista de Imprensa
Março 4, 2026
8:59

Uma vítima de abusos sexuais na Igreja Católica portuguesa denuncia ter sido sujeita a duas horas de “pura inquisição” durante uma entrevista no âmbito do processo de compensação financeira às vítimas. O testemunho, revelado pela revista ‘Sábado’, descreve um conjunto de perguntas que considera “impróprias”, incluindo pedidos para explicar ou demonstrar gestos do alegado agressor e questões sobre a sua vida sexual.

A entrevista ocorreu no final de fevereiro de 2025 e foi conduzida pela psicóloga Rute Agulhas, coordenadora do Grupo VITA, estrutura criada pela Conferência Episcopal Portuguesa em 2023 para ouvir vítimas de abusos no seio da Igreja e preparar os processos de compensação financeira. Segundo relata a ‘Sábado‘, a reunião teve lugar numa sala cedida por uma autarquia do interior do país e contou também com a presença de uma advogada que representava a congregação religiosa a que pertence o alegado agressor.



A vítima, identificada apenas pelas iniciais JF, afirma ter ficado “muito espantada” e “até em choque” com essa presença. Cerca de 25 minutos após o início da conversa, a psicóloga terá pedido ao homem para clarificar uma descrição que fizera sobre os abusos sofridos quando tinha 16 anos. O alegado agressor seria um padre, também familiar da vítima, que lhe dava aulas de português em casa.

De acordo com o relato citado pela revista semanal, JF foi questionado sobre o significado da expressão “aproximava-se da virilha” e terá sido instado a explicar ou mostrar exatamente onde o agressor lhe tocava. O homem afirma ter sentido que o ambiente da entrevista era hostil e que estava perante um “autêntico interrogatório”, algo que considera contrário ao espírito do processo de reparação.

A psicóloga Rute Agulhas já tinha garantido publicamente que o Grupo VITA nunca fez perguntas inadequadas às vítimas. Em declarações à rádio ‘Renascença’, referiu que nunca foi pedido a nenhuma pessoa para demonstrar o toque abusivo nem foram feitas perguntas desrespeitosas. Confrontada pela ‘Sábado’ com as acusações agora relatadas, respondeu apenas que críticas semelhantes já tinham surgido no passado e que já tinham sido esclarecidas.

A entrevista terá durado quase duas horas e, segundo JF, incluiu perguntas detalhadas sobre os abusos, o contexto familiar e também sobre a sua vida sexual. Entre as questões mencionadas pelo homem estão perguntas sobre se alguma vez teve um relacionamento sexual ou se se masturbava.

Durante a conversa, marcada por pausas e momentos de choro, a vítima afirma ter sentido desgaste emocional e frustração. Diz que esperava encontrar apoio e compreensão no processo conduzido pela Igreja Católica portuguesa, mas acabou por sentir que estavam a tentar “desmontar” a sua versão dos acontecimentos.

JF afirma ainda que não lhe foi permitido gravar a entrevista nem tomar notas. Os telemóveis devem permanecer desligados e não é permitido usar papel ou caneta. Também não é possível que as vítimas se façam acompanhar por um advogado ou outra pessoa de apoio. Do outro lado da mesa, refere, estavam duas pessoas a registar a conversa num computador.

Hoje com 54 anos, JF foi uma das 75 pessoas ouvidas pela comissão de instrução do Grupo VITA até ao final de 2025. Os pareceres resultantes dessas entrevistas terão sido enviados para a Comissão de Fixação da Compensação, composta por sete juristas indicados pela Igreja Católica e pelo Grupo VITA, que decidirá o valor das indemnizações.

As vítimas não têm acesso aos relatórios produzidos após as entrevistas, o que significa que JF nunca poderá ler o parecer assinado pela psicóloga responsável pela sua audição. Tal como os restantes casos, terá apenas de aguardar pela decisão final sobre o montante da compensação financeira.

Depois de viver 25 anos no estrangeiro, para tentar superar o trauma dos abusos, regressou a Portugal quando soube da criação do processo de reparação. No entanto, admite agora começar a perder a esperança de alcançar o desfecho que procurava.

O processo de compensação criado pela Igreja Católica portuguesa tem sido alvo de críticas por parte de vítimas e especialistas. Num artigo de opinião publicado no jornal digital ‘Sete Margens’, a socióloga Ana Nunes de Almeida, que integrou a anterior comissão independente de investigação aos abusos, criticou a falta de transparência, a complexidade do procedimento e a forma como as vítimas têm sido tratadas.

Essa comissão independente, coordenada pelo psicólogo Pedro Strecht, validou 512 testemunhos de vítimas de abusos e estimou que possam ter existido 4.815 casos desde 1950 no contexto da Igreja Católica portuguesa.

Também António Grosso, porta-voz da associação Coração Silenciado e representante de vítimas, acusa o processo de provocar “revitimização”. Segundo afirma, muitas pessoas tiveram de responder a entrevistas longas e detalhadas que recordam interrogatórios policiais, sem possibilidade de apoio legal ou acompanhamento.

O homem sublinha que foi prometido às vítimas que não teriam de reviver novamente o trauma dos abusos. No entanto, considera que o processo acabou por obrigar muitas delas a recordar minuciosamente episódios dolorosos.

JF vive atualmente numa pequena localidade do interior do país, está desempregado e afastado da família. Afirma que as memórias dos abusos continuam a afetar profundamente a sua vida. Durante a juventude chegou a pensar em suicídio, mas hoje diz querer perceber qual será o valor atribuído ao sofrimento que carrega há décadas.

O valor das compensações ainda não é conhecido e não será igual para todas as vítimas, segundo já confirmou Rute Agulhas. A decisão caberá à comissão responsável por fixar os montantes, que ainda não anunciou datas para a conclusão do processo.

A Conferência Episcopal Portuguesa já admitiu atrasos no mecanismo de reparação. Em comunicado divulgado em janeiro, pediu desculpa às vítimas por não ter sido possível concluir o processo até ao final de 2025, apontando o alargamento de prazos para receber mais pedidos como uma das razões para a demora.

Enquanto a decisão não chega, as vítimas continuam à espera. Algumas, segundo representantes das associações de apoio, já desistiram do processo devido à falta de transparência e à demora na definição das compensações.

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