Peça portuguesa sobre extrema-direita gera tumulto na Alemanha com agressão em palco

Ator Ole Lagerpusch, que interpretava um político de extrema-direita, foi vaiado, atingido com frutas e alvo de uma tentativa de agressão quando dois espectadores invadiram o palco

Francisco Laranjeira
Fevereiro 18, 2026
14:09

A estreia na Alemanha da peça “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”, do dramaturgo português Tiago Rodrigues, ficou marcada por um episódio de violência, com um ator a ser agredido por elementos do público. A informação é avançada pela ‘Euronews’, que relata que o incidente ocorreu este sábado, em Bochum, na região da Renânia do Norte-Vestefália.

Segundo a ‘Euronews’, o ator Ole Lagerpusch, que interpretava um político de extrema-direita, foi vaiado, atingido com frutas e alvo de uma tentativa de agressão quando dois espectadores invadiram o palco. Os indivíduos conseguiram subir ao cenário e tentaram retirar o ator do local.



O porta-voz do teatro, Alexander Kruse, classificou o ataque como “completamente inaceitável”. Já a encenadora da versão alemã, a eslovena Mateja Koleznik, afirmou estar em estado de choque perante a “estupidez e brutalidade” do sucedido. “Nunca pensei — ninguém pensou — que alguém da plateia saltasse para o palco e tentasse bater no ator”, declarou, citada pela mesma fonte.

A peça, escrita e encenada por Tiago Rodrigues na sua versão original, estreou-se em 2020, em Guimarães. A história centra-se numa família do sul de Portugal que mantém como tradição matar fascistas. A narrativa acompanha o momento em que Catarina, o elemento mais jovem da família, deve cumprir o ritual, mas se recusa a matar o homem sequestrado para esse fim, desencadeando um conflito interno.

O espetáculo termina com um longo monólogo de uma personagem populista de extrema-direita que chega ao poder e defende uma “nova República” e uma “nova Constituição”, criticando minorias e evocando décadas de governação alegadamente dominada por “bandidos”. Foi precisamente durante esse discurso final que ocorreu o incidente em Bochum.

Tiago Rodrigues explicou, aquando da estreia em Portugal, que o texto aborda de forma clara a ameaça da ascensão de populismos de extrema-direita com tendências fascistas, sublinhando que o essencial não é o nome do movimento, mas sim as ideias que representa.

A peça tem sido apresentada internacionalmente, acumulando prémios e sessões esgotadas. Em 2022, a estreia em Itália foi acompanhada por protestos de forças de extrema-direita em Roma, tendo um deputado do partido Fratelli d’Italia pedido a retirada do espetáculo do cartaz.

A ‘Euronews’ recorda ainda que, em 2025, o ator Adérito Lopes foi violentamente agredido em Lisboa por alegados elementos de um grupo de extrema-direita, à margem da representação da peça “Amor é um Fogo que Arde Sem se Ver”, numa produção do teatro A Barraca. O episódio incluiu agressões físicas e a colocação de autocolantes com mensagens nacionalistas no exterior do teatro.

O incidente em Bochum reacende o debate sobre os limites da contestação em contexto artístico e sobre o clima de tensão em torno de obras que abordam a ascensão de movimentos de extrema-direita na Europa.

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