O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC, na sigla em inglês) pediu aos países europeus para considerarem uma mudança de estratégia no tratamento da Covid-19, passando a monitorizá-la como se fosse a gripe.
A Multinews ouviu três especialistas para saber o que pensam da aplicação da medida em Portugal. Todos concordam que faz sentido nesta fase, mas não deve ser imposta de imediato.
“Não tenho qualquer dúvida que atendendo ao tipo de atividade e ao tipo de cobertura vacinal da população e passados dois anos de pandemia, temos que nos adaptar a uma nova realidade”, refere o pneumologista Filipe Froes, coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos.
Segundo o responsável, essa realidade “passará por monitorizar a pandemia numa outra perspetiva, deixando de valorizar o número de casos diários e valorizando o os internamentos, como na gripe. Não há qualquer dúvida de que essa será a solução”, aponta.
Também Henrique Oliveira, investigador do Instituto Superior Técnico, apoia a medida. “Em meados de fevereiro toda a população portuguesa vai ter um certo tipo de imunidade, seja através de vacinação, seja através de doença e portanto começa a fazer sentido mudar a forma como abordamos a doença”, afirma.
“Basta ver que os óbitos não estão a decorrer da mesma forma, há números muito mais reduzidos e parecidos até com as gripes sazonais dos últimos anos”, aponta.
Por outro lado, na Europa, no geral, “não faz sentido nenhum, sobretudo nos países que não têm vacinação avançada, como Sérvia e Bulgária. Só faz sentido quando a vacinação está no auge”, como em Portugal, indica.
Da mesma opinião é Milton Severo, matemático do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP). “Faz sentido sim. Nós desde o início que defendemos a utilização de métodos para vigilância indireta da pandemia”, afirma referindo-se à mudança nos indicadores estudados.
“São uma mais valia e fazem sentido nesta altura em que os casos subiram, mas não houve tantas consequências em termos de internamentos e mortes”, explica o especialista.
Avançar sim, mas só depois de fevereiro
Agora quando será o melhor momento para o fazer? Para Filipe Froes, “enquanto não estivermos numa fase mais descendente, depois de ultrapassar o pico” não devemos avançar para a mudança.
“Eu diria que sim, mas só depois, numa fase de maior cobertura vacinal e de maior folga do serviço nacional de saúde”, afirma, estimando que “no decurso do mês de fevereiro, salvo acontecimentos imprevisíveis, faria sentido evoluir para uma estratégia mais centrada no impacto da gravidade, à semelhança do que se faz com a gripe”.
O investigador do Técnico é da mesma opinião. Fará sentido quando esta vaga começar a descer muito. Esta doença ainda ocupa muito espaço nos hospitais e tem sequelas que a gripe normal não tem e por isso talvez seja prematuro começar já a tratá-la como “residente” ou permanente.
Apesar de reconhecer também que isso possa acontecer já em meados de fevereiro, Henrique Oliveira sublinha que “o mais seguro é no dia 1 de março começar a doença de outra maneira”.
Milton Severo é ainda mais cauteloso. “Esta onda ainda tem de baixar, por isso devemos esperar uma primeira fase para ver a questão da evolução da Ómicron e perceber se está a estabilizar a onda e se conseguimos controlá-la”, aponta.
“Importa também recordar que todos os dados têm de ser reportados a diversas entidades, nomeadamente o ECDC e por isso não pode um país começar a usar indicadores indiretos e os outros indicadores diretos”, ressalva.
O matemático pede que se tenha “alguma atenção” na mudança, considerando que “ao longo de 2022 será uma boa altura para alterar o sistema”, refere. “Esperaria até acabar o inverno e entrarmos na primavera”, acrescenta.
Filipe Froes deixa ainda uma última ressalva: “O que nós temos de perceber é que tudo o que foi feito até agora é que nos permite chegar a este ponto”, sublinha. “Não nós podíamos ter esta monitorização antes e por isso não podemos concluir que esta seria a melhor abordagem desde o início, porque seria uma catástrofe”, conclui.


