Os pagamentos de alegados subornos do governo do Qatar, a figuras e ex-membros do Parlamento Europeu, para que influenciassem as decisões políticas nos organismos da UE que afetassem o país, eram feitos em envelopes que tinham uma imagem do Pai Natal impressa, revelou um dos suspeitos do escândalo de corrupção do caso ‘Qatargate’, Luca Visentini.
Visentini, sindicalista italiano, então líder da Confederação Sindical Internacional (ITUC), e um dos suspeitos da investigação ao circuito de pagamentos, confessou ter recebido dinheiro de uma ONG envolvida no caso que está a causar ondas de choque em Bruxelas, segundo revelam os documentos judiciais consultados pelo La Repubblica.
Antonio Panzeri, ex-eurodeputado e presidente da ONG Fight Impunity, que os investigadores acreditam ser uma das ‘mediadoras’ dos subornos do Qatar a responsáveis da UE, era quem entregava o dinheiro nos envelopes com motivos natalícios.
Sem saber, estava sob escuta, pelo que as autoridades belgas captaram alguns registos importantes. Um deles é o encontro entre Panzeri e Visentini, quando o último estava na campanha para ser reeleito. Nessa altura, Panzeri deu-lhe três envelopes e brincou: “Parecemos os gajos do Ocean’s Eleven”, disse, fazendo referência à saga de filmes, protagonizada por George Clooney, de um grupo organizado de ladrões.
No interrogatório Visentini admitiu “Eram cerca de 50 mil euros”, mas disse que a dinheiro “foi uma doação para reembolsar alguns custos da campanha e do Congresso da Confederação Sindical Internacional”. O suspeito garante que depois transferiu o dinheiro ara o fundo solidário da estrutura sindical, para pagar despesas de deslocação e ajudas de custo.
“Aceitei esta doação em dinheiro devido à qualidade do dado em causa, e à sua natureza sem fins lucrativos. Eu não pedi nada, nem me foi exigido nada em troca, e nenhumas condições, de qualquer tipo, foram colocadas nesta doação. Não está ligada a nenhuma tentativa de suborno ou para influenciar a posição da estrutura que represento sobre o Qatar ou sobre outros temas, ou para interferir com a independência da ITUC”, declarou em tribunal. A justificação colheu efeitos perante o juiz, que acabou por libertá-lo.
As autoridades não têm outra provas que não seja a palavra de Visentini, sobre se seria mesmo essa a quantia total da doação, sendo que a Bélgica pediu a Itália para verificar transferências anómalas nesse período entre a ITUC e contas de Bruxelas. Conta-se um total de 140 mil euros em transferências desta categoria, que estão a ser analisadas.
De qualquer forma, o testemunho prova o modo de operação de Panzeri: dinheiro vivo. Esta era, aliás a suspeita da investigação belga, já que, recorde-se, a ex-vice-presidente do Parlamento Europeu Eva Kaili, o companheiro, Francesco Giorgi, e o pai, todos tinham malas com dinheiro em casa.
Segundo os documentos oficiais, Giorgi teria o papel de dar indicações sobre os diplomas a serem apresentados e os métodos e sentidos de votação a serem seguidos, sendo que Kaili e Andrea Cozzolino, eurodeputado, trabalhavam nos bastidores de Bruxelas diretamente a favor do Qatar













