Parecem salas de jogos, mas coordenam milhares de ataques: por dentro da guerra de drones da Ucrânia

Centro secreto é dirigido por um comandante ucraniano conhecido pela alcunha militar de Kyr, antigo comerciante de cereais e atualmente um dos responsáveis do Grupo Lazar, uma das unidades de drones mais eficazes das forças ucranianas

Francisco Laranjeira

Por fora, o edifício parece anónimo. No interior, dezenas de computadores, ecrãs e equipas especializadas coordenam a atividade de cerca de mil drones numa extensa faixa da frente de combate entre Konstantinivka, no Donetsk, e Energodar, na região de Zaporíjia.

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O centro secreto é dirigido por um comandante ucraniano conhecido pela alcunha militar de Kyr, antigo comerciante de cereais e atualmente um dos responsáveis do Grupo Lazar, uma das unidades de drones mais eficazes das forças ucranianas. Numa visita ao local, o ‘El Mundo’ acompanhou em tempo real algumas das operações conduzidas contra posições russas.

As equipas instaladas no complexo não se limitam a pilotar aparelhos. Engenheiros, analistas de informação e especialistas em guerra eletrónica recolhem e cruzam dados provenientes de drones, redes sociais, comunicações Wi-Fi e agentes no terreno para localizar artilharia, centros de comando e unidades logísticas russas.

Um dos engenheiros, identificado como Bragman, criou um sistema capaz de reconhecer a “assinatura acústica” de diferentes armas. Sensores instalados em drones captam os sons da artilharia inimiga, permitindo aos operadores identificar e localizar os equipamentos que depois são selecionados como alvos.

Noutra sala, uma equipa explicou ao ‘El Mundo’ como terá destruído um centro de comando russo em Vasylivka, no sul de Zaporíjia, depois de três meses a analisar informação proveniente de sete fontes de inteligência. Entre os elementos utilizados estavam sinais de Wi-Fi, redes sociais, imagens aéreas e dados fornecidos por agentes locais.

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A atividade é monitorizada através de um grande painel que reúne os alvos atacados mensalmente. No final de junho, o centro contabilizava 6.641 ataques. Kyr atribui à pressão exercida pelos drones ucranianos a retirada das forças russas de pelo menos quatro localidades no sul de Zaporíjia e um recuo de cerca de 15 quilómetros.

O Grupo Lazar nasceu em 2022 por iniciativa de Pavlo Yelizarov, antigo empresário e produtor de televisão que se juntou às forças ucranianas após a invasão russa. A unidade começou com apenas alguns pilotos e um drone agrícola comprado por cerca de dez mil dólares, adaptado para transportar uma mina antitanque.

Desde então, tornou-se uma das unidades mais bem classificadas das Forças de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia, ao lado das forças especiais Alpha e dos Magyar Birds. Segundo estimativas citadas pela revista ‘Forbes’ e reproduzidas no relato, o Grupo Lazar terá inutilizado equipamento militar russo avaliado em mais de 12 mil milhões de dólares.

A evolução tecnológica alterou também a localização dos pilotos. Durante os primeiros anos da guerra, as equipas tinham de operar a poucos quilómetros da linha da frente, escondidas em bunkers e expostas aos ataques inimigos. Atualmente, o aumento da autonomia das baterias e do alcance das antenas permite-lhes comandar drones a partir de instalações situadas entre 40 e 60 quilómetros de distância.

A mudança procura sobretudo proteger os operadores, cuja formação pode demorar entre três meses e um ano. Os drones utilizados custam, em muitos casos, apenas algumas centenas ou milhares de euros, enquanto a perda de um piloto experiente representa um prejuízo humano e operacional muito mais difícil de substituir.

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Na frente, permanecem equipas encarregadas de transportar e lançar fisicamente os aparelhos. Estes militares aproximam-se das zonas de combate, preparam os drones e regressam rapidamente aos abrigos, enquanto os pilotos assumem o controlo à distância a partir dos centros de coordenação.

Entre os aparelhos utilizados estão drones Hornet destinados a atacar a logística russa que abastece a Crimeia ocupada. Os operadores procuram identificar veículos militares mesmo quando estes são disfarçados de camiões civis, recorrendo à presença de sistemas antiaéreos móveis ou equipamentos de interferência eletrónica.

A guerra com drones deu igualmente origem a confrontos diretos entre unidades especializadas. No sul da Ucrânia, o Grupo Lazar enfrenta a brigada russa Varyag, descrita pelas forças ucranianas como uma das unidades de sistemas não tripulados mais bem equipadas de Moscovo, com drones experimentais e aparelhos de fibra ótica capazes de percorrer até 30 quilómetros.

Kyr compara este duelo aos combates entre os grandes “ases” da aviação da Primeira Guerra Mundial. A diferença é que os pilotos atuais raramente veem o inimigo diretamente: combatem através de ecrãs, sensores, algoritmos e transmissões em direto, num conflito em que a distância física não reduziu a violência.

A concentração dos operadores em centros remotos mostra até que ponto a guerra mudou. O que antes dependia sobretudo de trincheiras, artilharia e blindados passou também a ser decidido em salas que se assemelham a centros tecnológicos, mas onde cada ponto num mapa pode representar um alvo real.

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