Para onde caminha a guerra na Ucrânia? Cinco coisas que podem acontecer nas próximas semanas

Apesar da imagem cada vez mais dominante de que o ataque russo não foi devidamente planeado, o poder aéreo russo continua a atingir o país até à submissão

Francisco Laranjeira

Há mais de um mês que a  Rússia invadiu a Ucrânia e o avanço das tropas de Putin em algumas cidades importantes, incluindo a capital Kiev, parece ter diminuído. Apesar da imagem cada vez mais dominante de que o ataque russo não foi devidamente planeado, o poder aéreo russo continua a atingir o país até à submissão. Então, para onde caminha esta guerra? Há cinco momentos que poderão ser observados nas próximas semanas.

Rússia pode intensificar a sua campanha de bombardeamentos



Diversos especialistas já alertaram: quanto mais a Rússia for atingida no solo, maior a probabilidade de intensificar a sua campanha de bombardeamento aéreo e outras armas “não convencionais” que colocam os soldados russos mais longe do perigo. Até ao momento, apesar das informações pouco confiáveis vindas tanto da Rússia como da Ucrânia sobre o número de mortos, os russos terão perdido quase 10 mil soldados e outros 16 mil ficaram feridos, segundo o jornal russo ‘Komsomolskaya Pravda’. Estas perdas, a provarem-se verdadeiras, ajudam a explicar o pouco movimento terrestre assim como o aumento dos bombardeamentos aéreos em cidades chave.

“A Rússia ainda tem capacidades e reservas e haverá um aumento na intensidade à medida que se esforça para trazer mais tropas”, revelou Jeffrey Mankoff, investigador do Instituto de Estudos Estratégicos Nacionais da Universidade de Defesa Nacional dos EUA, em declarações à ‘CNN’.

Segundo relatórios recentes do Ministério da Defesa do Reino Unido, a Rússia está a atrair tropas de todo o país e até a sua frota do Pacífico. Está também a retirar militares da Arménia e a empresas militares privadas, assim como sírios e outros mercenários. A questão é quanto tempo a Rússia pode continuar com altas perdas de pessoal. “Haverá mais tropas e outros equipamentos mas há um ponto em que será difícil sustentar este tipo de ritmo operacional, principalmente os números sobre os quais ouvimos falar tanto em termos de homens e perdas materiais, quando ultrapassa a capacidade de reabastecimento”, referiu Mankoff.

Embora o foco seja Kiev, a Rússia pode tentar cercar as tropas ucranianas pelo leste

Tem-se falado da estagnação do esforço de guerra russo mas não quer dizer que não tenha sido um dos objetivos russos numa primeira fase. É provável que a Rússia esteja, no mínimo, a tentar absorver partes do leste da Ucrânia. Áreas como Donetsk e Luhansk, que compõem a região de Donbass, são controladas por separatistas apoiados pela Rússia desde 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia, e embora as ambições da Rússia possam ir além de Donbass, ainda é provável que seja um foco central, segundo garantem especialistas.

Embora haja muita atenção no avanço da Rússia em direção a Kiev, a maior parte do exército ucraniano permanece perto de Donetsk e Luhansk, onde são agrupados como a Operação de Forças Conjuntas (JFO). O movimento das tropas russas sugere que eles estão a tentar cercar o JFO em três eixos, e esse provavelmente será o foco principal da Rússia. Isso fica claro ao observar a sofisticação do tipo de tropas enviadas para lá, segundo referiu Sam Cranny-Evans, analista do Royal United Services Institute. “O Distrito Militar do Sul – em Donetsk, Luhansk, Mariupol, Berdyansk, Melitopol – tem concentrado as melhores tropas do exército russo, que estão projetadas para combater a NATO”, frisou, acrescentando que os media ocidentais estão tão focadas nas perdas da Rússia e no desafio da Ucrânia que apresentam uma falta noção da dinâmica da guerra. “Se olharmos para os mapas, fica claro que as forças russas avançaram muito num país muito grande. Tomaram algumas cidades, então agora há muito mais cidadãos ucranianos a viver sob o domínio russo do que havia há três semanas”, revelou. “Independentemente de quantos veículos russos explodiram ou quantos soldados russos foram mortos, também é provável que haja um número muito alto de ucranianos que sofreram um destino semelhante.”

Haverá mais conversas de paz

Um cenário possível é que a guerra na Ucrânia pode tornar-se um conflito prolongado. “As negociações são a única área algo promissora porque tanto a Rússia quanto a Ucrânia disseram na semana passada que estão a mover-se em direção a uma discussão substantiva real, em vez de ser apenas a Rússia a dar um ultimato”, referiu Keir Giles, do think tank baseado no Reino Unido Chatham House.

As autoridades russas garantiram que as suas exigências incluem um travão na entrada da Ucrânia na NATO, a desmilitarização e a adoção de um estatuto “neutro”, semelhante à Áustria e à Suécia. O porta-voz-chefe de Vladimir Putin, Dmitry Peskov, garantiu também que a Rússia queria que a Ucrânia aceitasse que a Crimeia – que a Rússia anexou em 2014 – como fazendo oficialmente parte da Rússia e que os estados separatistas de Luhansk e Donetsk sejam independentes.

Pode haver “deportações” em massa de ucranianos para a Rússia

A Rússia tem dito aos moradores da cidade de Mariupol que saiam enquanto realiza um bombardeamento aéreo agressivo que tem despedaçado a cidade. As forças do país abriram “corredores humanitários” para permitir a fuga de civis mas dezenas de milhares foram transportados para a Rússia. Segundo a ‘RIA Novosti’, órgão estatal russo, já cerca de 60 mil moradores de Mariupol estão em território russo “em total segurança”. O conselho de Mariupol acusou a Rússia de forçar os moradores a irem para a Rússia contra a sua vontade. O autarca de Mariupol, Vadym Boichenko, revelou no passado sábado que “o que os ocupantes estão fazer hoje é familiar para a geração mais velha, que viu os terríveis eventos da II Guerra Mundial, quando os nazis capturaram pessoas à força”.

“A Rússia tem um histórico de represálias cruéis e selvagens contra civis em qualquer área quando qualquer tipo de movimento de resistência está a ocorrer”, apontou Keir Giles, referindo-se às “deportações” de centenas de milhares de pessoas dos estados bálticos da Estónia, Letónia e Lituânia. “‘Deportação’ é um eufemismo. Tem sido usado como um termo bastante inócuo para o que aconteceu com essas pessoas, que foi efetivamente escravidão e fome”, disse.

Milhões de ucranianos podem fugir, deixando uma nação em pedaços

O destino da guerra é uma coisa, mas o destino da Ucrânia é outra. Assim como o poder aéreo russo deixou algumas das cidades e vilas da Síria em escombros, partes da Ucrânia estão semelhantes. Já mais de 3,5 milhões de ucranianos deixaram o país, cuja maioria são mulheres e crianças – a guerra desencadeou o maior movimento de refugiados que a Europa viu desde a II Guerra Mundial, um número que aumenta a cerca de 100 mil pessoas por dia. Se se incluírem as pessoas deslocadas internamente, 10 milhões de ucranianos já deixaram as suas casas, um quarto da população do país.

Em guerras passadas, a evidência é clara: os refugiados muitas vezes acabam por não regressar aos seus países de origem. Mesmo que uma solução diplomática possa ser encontrada para acabar com esta guerra, uma questão que vai permanecer é se é suficiente para evitar a próxima, apontou Cranny-Evans. “Se olharmos, historicamente, para regimes autoritários que têm um desempenho mau num ambiente militar, não costumam mudar o seu comportamento numa direção positiva. Se, por exemplo, daqui a 10 anos, a Ucrânia tiver avançado com uma modernização militar significativa? Ou o próximo presidente russo quiser provar o seu valor através de outra guerra? Há muitos cenários para pensar após o fim desta guerra.”

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