A pandemia está a ter um impacto significativo no sono das crianças, com ansiedade e falta de rotina a causar sérias perturbações, alertam especialistas e instituições de cariz social, ouvidos pelo ‘The Guardian’.
A clínica do sono Millpond, em Londres, acusa um aumento de 30% nas consultas de sono de crianças com idades compreendidas entre os cinco e os 13, quando comparadas com o registado no mesmo período em 2018-19.
E um dos problemas transversais a estes casos parte do facto de as crianças, devido às alterações provocadas pelas medidas de restrição, nomeadamente o confinamento, irem dormir mais tarde e dormir durante mais horas.
“Não temos dúvidas que estamos a assistir a um pico de problemas entre crianças, dos seis aos oito anos, relacionados com ansiedade que acaba por lhes afetar o sono. E para os mais novos, até agora impedidos de conviver com outros bebés, será ainda mais difícil quando começarem a sair mais”, explica também a fundadora da clínica Mandy Gurney.
A experiência desta especialista permite-lhe ainda apontar que os pais também estão a ter dificuldade em manter as crianças mais velhas ou adolescentes a dormir o número de horas adequado.
Um artigo recém-publicado no ‘Psychology Journal of Psychiatry’ aponta que o potencial surgimento de problemas de sono, ou de piorarem os casos já existentes, durante e após a pandemia “é muito alto”.
A pesquisa constatou que 70% das crianças menores de 16 anos, desde a pandemia, vão dormir mais tarde do que habitualmente faziam – mas também acordam mais tarde (57%). E apurou ainda que as crianças estão a tornar-se, cada vez mais, dependentes da tecnologia, com quase três quartos (74%) dos pais a relatar que os filhos estão a usar mais os dispositivos eletrónicos desde que ficaram confinados.
Em maio, os investigadores do King’s College London realizaram uma pesquisa com 2.254 pessoas para verificar como o surto e o bloqueio do vírus afetaram o sono. Quase metade das crianças de 16 a 24 anos revelaram que dormiam menos horas agora do que antes do bloqueio. Em comparação, um terço das pessoas com 35 anos ou mais disseram o mesmo.
“O coronavírus teve um impacto significativo no sono”, defende Michael Farquhar, consultor em medicina pediátrica do sono no Hospital Evelina London. “Os adolescentes geralmente são forçados a adotar um padrão de sono que não é natural para o seu padrão biológico. Eles podem querer acordar mais tarde mas a sociedade e a escola obrigam-nos a acordar mais cedo, e o confinamento veio permitir que esse padrão de sono seja desviado”, reforçou.
“Uma das coisas que vemos, especialmente nas férias de verão, é o fato de os adolescentes entrarem em padrões de sono e depois irem para a cama mais tarde e acordarem mais tarde. Então, quando voltam às aulas em setembro, é um choque para o sistema. Vamos ver uma versão exagerada disso durante a pandemia, por isso temos dito desde o início que é melhor tentar manter uma rotina e estrutura e seguir ritmos normais”.





