Por Luís Timóteo, Senior Director, Head of Cloud & Custom Applications da Capgemini Portugal
A transformação profunda no ecossistema global de pagamentos revela que a transição para uma economia sem numerário avançou a um ritmo quatro vezes superior ao do crescimento do PIB mundial na última década.
No contexto nacional, Portugal destaca-se como um pioneiro tecnológico através do ecossistema MB WAY, que logrou unificar pagamentos instantâneos, transferências entre particulares e operações de retalho numa única interface, superando em maturidade muitas soluções de economias europeias de maior dimensão. Enquanto a Europa se esforça por normalizar os pagamentos em tempo real através de novas regulamentações que visam tornar as transferências imediatas o padrão de mercado, os EUA apresentam um cenário de contrastes, mantendo uma dependência histórica de cartões de crédito e cheques, mas acelerando agora a adoção de carteiras digitais e aplicações de transferência direta para responder à fragmentação do seu sistema bancário.
Comércio eletrónico cresce ao dobro do retalho físico e redefine os pagamentos
Esta evolução tecnológica conduz ao limiar do comércio agêntico, onde a inteligência artificial autónoma passa a decidir e executar compras em nome dos consumidores, exigindo infraestruturas de pagamento invisíveis, nomeadamente Via Verde e Aplicações TVDE, e altamente seguras. A mudança no comportamento dos consumidores reflete-se na subida imparável do comércio eletrónico, que cresce ao dobro da velocidade do retalho físico, forçando os comerciantes a adotar estratégias omnicanal onde a distinção entre o pagamento na loja e o pagamento online desaparece. Este novo paradigma permitiu a entrada de grandes tecnológicas e empresas especializadas em pagamentos que capturaram quota de mercado ao oferecerem processos de integração mais ágeis do que os sistemas bancários tradicionais.
Pagamentos cada vez mais invisíveis e instantâneos
Contudo, os bancos mantêm uma vantagem competitiva fundamental, assente na confiança institucional e na custódia de fundos, ativos que os novos operadores ainda não conseguem replicar na totalidade. Para recuperar o terreno perdido, as instituições financeiras em Portugal e no estrangeiro focam-se agora em oferecer serviços de valor acrescentado, como a prevenção de fraude assistida por inteligência artificial, análise de dados de consumo para fidelização e soluções de financiamento flexíveis no ponto de venda, como o modelo “Buy Now, Pay Later”. A digitalização não é apenas uma questão de eficiência, mas também de inclusão e sustentabilidade, reduzindo a pegada carbónica da circulação física do dinheiro e garantindo que sistemas como a rede Multibanco continuem a servir de ponte para o futuro dos pagamentos invisíveis e instantâneos.
A complexidade deste novo cenário exige que os prestadores de serviços financeiros não olhem apenas para a transação em si, mas para a experiência total do cliente. Em Portugal, a interoperabilidade do sistema financeiro permitiu que pequenas empresas aceitassem pagamentos digitais com custos reduzidos, um modelo que serve de inspiração para outros países na Europa. Nos EUA, a pressão por inovação vem do consumidor final, que exige rapidez e simplicidade, forçando os bancos de retalho a investir biliões em modernização tecnológica para evitar a obsolescência face às grandes plataformas de tecnologia que já dominam o quotidiano digital.
Segurança cibernética e proteção de dados pessoais: os novos “campos de batalha”
O futuro próximo será definido pela capacidade de integração. Já não basta ter uma aplicação funcional; é necessário que o pagamento esteja embebido em todas as interações sociais e comerciais. Desde o pagamento automático de portagens e estacionamento – já bem estabelecido em solo português, até ao pagamento por reconhecimento facial ou biométrico – que começa a ganhar tração nos centros urbanos globais, a meta é a eliminação total do atrito.
Neste percurso, a segurança cibernética e a proteção de dados pessoais tornam-se os novos campos de batalha, onde a regulamentação europeia (como o RGPD e a PSD3) procura equilibrar a inovação com a salvaguarda dos direitos dos cidadãos, garantindo que a eficiência não compromete a privacidade.
Bancos devem tornar-se parceiros estratégicos dos comerciantes
O sucesso no novo ecossistema de pagamentos exige que os bancos deixem de ser meros processadores para se tornarem parceiros estratégicos dos comerciantes. A convergência entre pagamentos instantâneos, IA e a confiança institucional será o diferencial para quem pretende liderar a economia digital em Portugal e no mundo.
Em suma, assistimos a um momento de redefinição das regras do jogo financeiro. A convergência entre a inteligência artificial, as moedas digitais e a necessidade de sustentabilidade ambiental está a criar um sistema mais resiliente, mas também mais exigente.




