Os seus ténis foram feitos por mão-de-obra escrava? É provável!

A Prada, a Hermés e a Louis Vuitton tiveram uma má classificação num novo relatório sobre trabalho forçado. Entretanto, a adidas, a Lululemon e a GAP têm as cadeias de abastecimento mais livres de escravos.

Por Elisabeth Segran, colaboradora da Fast Company

O trabalho escravo ainda está vivo e de boa saúde. Um relatório da organização não lucrativa KnowTheChain refere que o nosso roupeiro está provavelmente cheio de vestuário feito com trabalho forçado. Não é semelhante ao de há 100 anos. Mas, envolve pessoas pobres de países em desenvolvimento que tentam encontrar trabalho em fábricas de vestuário e calçado e acabam exploradas. Em todo o mundo, cerca de 24,9 milhões de pessoas são vítimas de trabalho forçado. A maior parte – 16 milhões – são exploradas por empresas por causa dos lucros, e não por indivíduos privados, como acontece no tráfico humano para exploração sexual. E, segundo o relatório da KnowTheChain, um dos maiores sectores é a indústria do vestuário e calçado, no valor de 2,6 biliões de euros. Cerca de 60 a 75 milhões de pessoas estão empregadas neste sector global. Embora a maior parte das pessoas compreenda que estes trabalhadores recebem muito pouco, a verdade é alguns não são pagos de todo.

Há muitas razões por que a produção de vestuário e calçado tende a ser tão manchada pelo trabalho forçado. Uma delas é que as pessoas dos países ricos e desenvolvidos, como os EUA, o Reino Unido, o Canadá e a França, viciaram-se em vestuário barato. Isto, em parte porque os acordos de comércio global livre fizeram com que fosse mais fácil para as marcas produzirem os seus produtos onde o trabalho é mais barato e depois transportá-los por todo o mundo. Fez também com que a moda rápida se tornasse uma tendência. Marcas como Zara e H&M criaram os seus negócios tornando os visuais de uma passarela disponíveis por preços baixos. Como resultado, o relatório da KnowTheChain afirma que «a concorrência por preços baixos e resultados rápidos» levou a «cadeias de abastecimento opacas e globalmente complexas».

A KnowTheChain desenvolveu um sistema de classificações para identificar como grandes empresas globais de vestuário e calçado – da Gap à Louis Vuitton e Nike – se encontram no tratamento aos seus colaboradores. Lamentavelmente, em 100, a classificação média situou-se baixa, nos 37. Por outras palavras, muitas das marcas a que compramos roupas e sapatos não estão a prestar atenção suficiente aos colaboradores.

As empresas que conseguem revelar as suas práticas para reduzir o trabalho forçado, como contratar trabalhadores directamente em vez de passar por agências, têm boas classificações. Mas muitas outras não têm essas políticas ou não as podem revelar, porque não sabem ao certo o que são. Isto acontece porque as cadeias de abastecimento podem ser muito complicadas: uma marca pode trabalhar com uma fábrica que subcontrata partes do seu trabalho a outras, por exemplo. Contudo, em última análise, a KnowTheChain argumenta que estas são culpadas pelo seu papel na exploração de trabalhadores, independentemente de onde acontece na cadeia de abastecimento.

A ESCRAVATURA COMEÇA NO RECRUTAMENTO

O sistema de classificação tem em conta como estas empresas abordam questões relacionadas com o pagamento. Mas uma das principais áreas é o recrutamento, porque é neste ponto do processo que os trabalhadores mais pobres estão mais vulneráveis à exploração.

As agências de recrutamento pouco éticas por vezes aproveitam-se de pessoas pobres e desesperadas ao assegurarem emprego em troca de taxas de recrutamento exorbitantes, todas elas retiradas do salário do trabalhador. Podem reter o passaporte ou outros documentos oficiais de um colaborador até a taxa estar pagar. E se acumularem juros da taxa, um trabalhador pode nunca ganhar o suficiente para a pagar, tornando-se escravo para a vida. Numa das auditorias feitas pela KnowTheChain, a organização descobriu que uma empresa de vestuário de Taiwan cobrava aos trabalhadores migrantes seis mil euros por um emprego numa fábrica de tecido. Uma auditoria a outra fábrica em Taiwan descobriu que 82% dos colaboradores tinham os passaportes retidos. De facto, os trabalhadores migrantes estão particularmente vulneráveis a serem explorados, visto não terem fortes sistemas de apoio social. Podem também não compreender os seus direitos ou como apresentar reivindicações. E, em alguns países, perfazem a maioria da mão-de-obra no sector do vestuário. Na Jordânia, 77% dos trabalhadores desse sector são migrantes, e nas Maurícias esse número chega aos 44%.

AS MARCAS DESPORTIVAS ESTÃO NO CAMINHO CERTO

No topo da lista estão duas empresas desportivas: a Adidas, que atingiu 92, e a Lululemon, que chegou aos 89. Estes negócios sobressaem porque prestam muita atenção ao recrutamento e à protecção de trabalhadores migrantes. A Adidas, por exemplo, tem formação em práticas laborais éticas para 100 fornecedores no Vietname, China e Taiwan. A Lululemon trabalhou arduamente para assegurar que os trabalhadores na sua cadeia de abastecimento tenham todos os seus documentos de identificação, como os passaportes. Ambas eliminaram as agências de recrutamento, exigindo que as fábricas contratem directamente os trabalhadores. A Lululemon estabeleceu uma linha para que os colaboradores contactem a empresa directamente, em vez de falarem com a fábrica.

A Nike e a Puma atingiram 63 e 61, respectivamente. Por isso, em geral, as grandes marcas desportivas parecem ter mais noção das questões laborais do que outros sectores. Mais uma vez, isto pode ser uma resposta à pressão dos consumidores. Nos anos 90, surgiram muitas histórias sobre empresas como a Nike e a Adidas dependerem da exploração na Ásia, o que resultou em protestos nos Estados Unidos da América naquela altura. (Ainda existem protestos ocasionais contra estas marcas, incluindo um de que falei o ano passado.) Toda esta pressão por parte dos consumidores teve o efeito desejado: fazer com que estas empresas repensassem o tratamento dado aos trabalhadores.

Curiosamente, as empresas de fast fashion tiveram uma boa classificação, provavelmente por terem sido escrutinadas pelos consumidores e pela imprensa nos últimos anos, incluindo aqui na “Fast Company”. Isto pode ter feito com que as equipas de liderança observassem com mais atenção as suas cadeias de abastecimento. A Gap Inc., que tem marcas como Gap, Old Navy e Banana Republic, ficou em terceiro lugar na lista, com 75. A Primark chegou aos 72, enquanto a H&M conseguiu 65. A Walmart somou 44, uma classificação baixa, mas melhor do que muitas marcas de luxo.

Muitas destas marcas tiveram uma boa classificação por terem políticas como programas de formação que ajudam os colaboradores a conhecerem os seus direitos. A H&M e a Primark, por exemplo, têm formação obrigatória em “escravatura moderna” nas fábricas que usam. Ainda assim, há muito para melhorar. O relatório sugere que até as marcas com boa classificação podem analisar mais a fundo a cadeia de abastecimento, para compreenderem o trabalho envolvido nas matérias-primas – o algodão, por exemplo, está muitas vezes ligado ao trabalho escravo.

… MAS AS MARCAS DE LUXO ESTÃO A FALHAR

Muitos consumidores assumem que os produtos mais dispendiosos são produzidos de forma ética em fábricas de alta qualidade. Todavia, as classificações revelaram que as marcas de luxo estão entre as empresas com classificações mais baixas. A Prada recebeu uma classificação abismalmente baixa, com 5, por exemplo, e a Salvatore Ferragamo teve 13. O conglomerado LVMH, que inclui marcas como Fendi, Celine, Rimowa e Christian Dior, acumulou 14, enquanto a Hermès não chegou muito mais longe, com 17. Muitas destas marcas fazem os seus produtos na Europa, mas a KnowTheChain afirma que os trabalhadores europeus estão também vulneráveis à exploração. Em Itália, por exemplo, os trabalhadores chineses são sujeitos a trabalho forçado nas fábricas têxteis, e na Bulgária, Macedónia, Moldávia, Roménia e Turquia, os trabalhadores foram proibidos de ter folgas e tiveram de trabalhar para lá do limite legal por «ordenados incrivelmente baixos». Algumas marcas de luxo, porém, tiveram melhores classificações. A Burberry teve 52, a Ralph Lauren 58 e a Kering, que tem as marcas Gucci, Balenciaga e Saint Laurent, chegou a 45. Mas no geral, as descobertas da KnowTheChain sugerem que as marcas de luxo estão cheias de problemas laborais. Talvez aconteça porque os consumidores assumem que o preço alto que pagam se traduz em salários decentes para os trabalhadores e não fazem pressão para que prestem mais atenção às cadeias de abastecimento.

Tudo isto sugere que nós, como consumidores, temos um papel na redução da escravatura moderna. Precisamos de responsabilizar as empresas pela sua falta de supervisão. Escrever-lhes ou usar as redes sociais para chamar a atenção. E apoiar marcas que são conhecidas por terem melhores práticas.

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