Os nossos heróis

Por Manuel Lopes da Costa, Empresário

Finalmente acabou o estado de emergência. Já não era sem tempo. Nesta altura gostaria de aproveitar a ocasião para agradecer a todos os nossos heróis. Mulheres e homens anónimos, muitas vezes esquecidos que, há que reconhecer, continuando sempre a trabalhar presencialmente, foram os verdadeiros heróis de toda esta pandemia.

Como seria de esperar, comecemos por todos os profissionais do setor da saúde. Médicos, enfermeiros e auxiliares que, pondo em risco a própria vida, sempre se prontificaram para trabalhar. Aqui não houve medo de contrair o vírus, aqui houve sacrifício pessoal, tendo muitos deles mudado de residência ou optado por viver em quartos alugados para poderem continuar a tratar de nós evitando infetar as suas famílias. Ninguém lhes pagou mais por isso. Profissionais que trabalharam silenciosamente muito para além das oito horas diárias, das quarenta horas semanais, muitos sem ferias há mais de ano e meio. Isto sim tem mérito, isto sim é de louvar e agradecer. Imaginem esta pandemia sem estes profissionais dedicados e prontos a ajudar em qualquer circunstância. Sem esta dedicação teria sido o caos: um número de mortos muito superior ao que já infelizmente foi e o pânico geral teria sido muito superior. É o trabalho deles dirão alguns, mas será? Será que trabalhar afincadamente e continuamente muitas horas para além das oito horas diárias pode ser considerado trabalho? Acredito que, neste caso, é mais dedicação, profissionalismo e responsabilidade — sem referir o facto que um médico em final de carreira, no topo da sua carreira e em exclusividade, ganha cinco vezes menos que um comandante da TAP. Não tenho nada contra o salário do comandante da TAP, responsável por inúmeras vidas a bordo da sua aeronave, sou é contra a baixíssima compensação que auferem todos os nossos profissionais de saúde. Todos são responsáveis por vidas, no entanto, são recompensados de forma muito desigual. Proponho que o governo não gaste toda a “bazuca” na TAP, no fundo de resolução, no novo aeroporto — e agora na ferrovia — e guarde uma maquia substancial para remunerar extraordinariamente os nossos heróis da saúde. Proponho um prémio de desempenho relevante no mínimo de 5000 Euros para cada um. Eles merecem, a família deles merece, o país agradecido entenderia.

Mas há mais heróis de quem nos devemos lembrar ­— e certamente me irão faltar alguns. Referir os padres que continuaram sempre a dar-nos alento e esperança, os coveiros e todos os profissionais relacionados com a não desejada, mas necessária, atividade funerária que evitaram que a despedida dos nossos entes queridos fosse ainda mais solitária e impessoal do que teve que ser. E, que dizer dos trabalhadores agrícolas que todos os dias, independentemente dos números da DGS relativos à pandemia, acordaram e foram para a lavoura para que não faltasse comida nas feiras, nos mercados e nos centros abastecedores? Trabalharam para o bem comum quando muitos dos seus concidadãos da cidade, legitimados pelas normas impostas, se fecharam em casa com receio. Mas, mesmo na cidade, também houve heróis: os trabalhadores afetos à recolha de resíduos sólidos — vulgo “almeidas” — que, todos os dias e arriscando infetarem-se, nunca deixaram de trabalhar evitando assim que a cidade ficasse soterrada em lixo. Todos os dias e noites, estas “formiguinhas” foram com grande profissionalismo recolhendo as várias embalagens dos “take-away” que os confinados deitavam fora sem nunca se preocuparem em saber como elas iriam desaparecer dos seus caixotes do lixo. Referir igualmente os padeiros, os talhantes, os peixeiros e pescadores, os caixas do supermercado e todos os demais profissionais relacionados com o setor da alimentação e abastecimento geral. Já imaginaram o que seria a pandemia com escassez de comida? Com pânico geral de escassez de um ou vários produtos? Não podemos esquecer o triste exemplo que foi, no princípio desta saga, o açambarcamento de papel higiénico, algo verdadeiramente inusitado que mostrou a fragilidade da nossa sociedade perante o boato e a incerteza. Por fim, referir o trabalho contínuo e dedicado das nossas forças de segurança que, apesar de correrem riscos, nunca se furtaram em dar o seu melhor pela manutenção da ordem pública evitando pilhagens e abusos. A todos os que, com o seu trabalho, evitaram que caíssemos na escassez que poderia ter levado à violência, para todos os que preveniram o desespero com todas as suas consequências nefastas tenho duas palavras: MUITO OBRIGADO.

Vocês podem, ou não, estar cientes disso mas salvaram Portugal, os portugueses e a sociedade em geral de algo que poderia ter sido muito grave. E tal, não só merece ser reconhecido, como merece ser recompensado.

Durante esta pandemia estes heróis mostraram o melhor deles e do ser português: uma generosidade fora do comum, uma abnegação total e um grande profissionalismo que vence todas as adversidades. E isto sem reconhecimentos especiais, sem remunerações extraordinárias sem vantagens adicionais. Por isso, este 10 de Junho proponho que sejam estes os heróis condecorados e não os do costume. Estas são as caraterísticas deste povo e que raramente se encontram noutros povos. Estas são as caraterísticas que, bem lideradas, estou certo que podem levar Portugal a ansiar em ser um país vencedor. Vamos a isso!

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